A troca de guarda, o duelo do século e o clima de ódio
Governador eleito do Pará e o ex-aliado e senador também eleito iniciam em 2027 o 2º tempo de uma disputa que ainda vai dar muito o que falar
"De 15 em 15 anos, o Brasil esquece
o que aconteceu nos últimos 15
anos"
Ivan
Lessa (1935-2012),
Oráculo
e erudito brasileiro
Belém,
18 de outubro do ano da graça de 2026.
Me cobrem, como
de hábito, o que vai abaixo ao longo dos próximos tempos. Mas
cobrem valendo, e contradigam o aforismo de Ivan, O Terrível…
se possível.
O duelo que se avizinha
Em
2002, quando as “virgens”, o PT e Lula, que de “paz e amor”,
ficaria claro no curso dos seus mandatos, só tinha o verniz da
campanha criada para vencer a peleja pelo genial mago do marketing
político Duda Mendonça, chegou ao poder central no Brasília, no
Pará, o ex-governador por duas vezes e senador que havia renunciado
para não ser cassado, Jader Barbalho, se elegeria deputado federal
com centenas de milhares de votos.
Cálculo
Para
Jader, era o freio de arrumação na carreira política iniciada em
1966 como vereador de Belém, e que chegara ao auge de dividendos e
capital político 20 anos depois, no ano de 1986, quando seu apoio e
o estelionato eleitoral chamado “Plano Cruzado” elegeram quase
todos os deputados federais da bancada local, a absoluta maioria dos
estaduais e os dois senadores.
Quatro anos depois, numa
acirradíssima disputa, o ex-governador, então oposicionista,
vencera novamente para governador, deixando o cargo em 1994 para
disputar o Senado da República, onde chegaria ao topo, se elegendo
presidente da Casa exatamente com os 41 votos mínimos necessários,
deixando o cargo e o Senado pouco mais de oito meses depois.
Mensalão e aliança
Após
um escândalo aqui, outra denúncia ali, a queda de um operador da
Casa Civil acolá e um governo até então sem marcas aparentes,
incontinente o apoio das torcidas do Flamengo e do Corinthians, da
então inalcançável em sua audiência e influência Rede Globo, do
Centrão velho de guerra e, pasmem, até de amplos setores do seu
grande rival de então a quem derrotara em 2002, o PSDB, este um que
jaz, pelo menos desde a operação Lava Jato e a humilhante
derrota na sua fortaleza, São Paulo, em 2022.
Chega o
ano de 2005 e eclode o escândalo do Mensalão. De tão grave, o
esculacho de colocar o Parlamento de cócoras, derrubou o todo
poderoso Zé Dirceu e implodiu a sustentação capaz de frear um
pedido de impeachment, a crise fez com que Lula chamasse, na calada
da noite, como de hábito, e sem anotação na sua agenda oficial, o
mesmo PMDB a quem humilhara ao lado do mensaleiro Dirceu ainda
durante a fase de “presidente eleito”, convidando e desconvidando
o partido para fazer parte do governo “imaculado” que iniciava.
Muito que bem, após o erro fatal de cálculo – sempre
ele – do PSDB em deixar Lula “sangrar” no cargo para derrotá-lo
nas urnas em 2006, o resto todo mundo já sabe: O partido de Ulysses
Guimarães passou a integrar oficialmente o condomínio petista e, de
mala e cuia, viu uma ala poderosa e majoritária da agremiação
composta, além de JB e Michel Temer, pelos inesgotáveis e
insaciáveis José Sarney (aliado desde a campanha de 2002) e Renan
Calheiros.
Abro um parêntese, como escreveria Mario
Sabino, para festejar com cubanos e Veuve Clicquot a menos 5º a
derrota do coroné Renan na paupérrima Alagoas, dois domingos atrás.
Fecho o parêntese.
Afinal, como diria outro dia o Hamlet de
Castanhal, Simão Jatene, após saber da dianteira de Daniel Santos, de que “não há noite que seja eterna”, e, finalmente, gravar um vídeo em apoio à sua
candidatura, se associando na vitória que aquela altura estava
cristalizada; que se descortinava iminente. Ainda que a das Alagoas tenha durado 32
anos só de Câmara Alta. Ufa!
Jatene este que, dono de um
vozeirão de barítono, cacoete de professor, exímio gestor, mas que
em 2002, no apagar das luzes dos oito anos de um governo apoiado por
¾ dos paraenses, se mostrava pesado como uma balsa do Estaleiro
Maguari, dos filhos do ex-governador Hélio Gueiros.
O
economista e músico enfrentava sua primeira disputa eleitoral que
trouxe, na esteira do então cavalo paraguaio do início da refrega,
Lula, a onda vermelha que varreu o *Bananão entre o meio e o
crepúsculo de setembro, trazendo consigo outro poste, a candidata
Maria do Carmo, do PT, a qual, dizem as más e boas línguas
testemunhas oculares daquele momento, se tivesse “pego uma gripe”
e ficado pianinho e caladinha no calor da cama em casa, teria levado
o caneco no ano do penta.
Pois bem, naquele ano, quase um
quarto de século atrás, a campanha guardava semelhanças com a de
agora. Ninguém queria enfrentar a máquina de votos, investimentos,
obras e inaugurações do saudoso e eterno Dr Almir Gabriel, e a vaga
sobrou para o sacrifício da então deputada estadual do Tapajós,
promotora de Justiça licenciada.
Detalhe fundamental: A
vice do tucano José Serra, deputada federal (e gata) Rita Camata,
era do PMDB-ES. Sacou? Abertas as urnas do 1º turno, estava posta a
disputa do 2º: Lá, Lula x Serra. Aqui, Jatene x Maria e a onda
vermelha varrendo o Bananal… Do Oiapoque ao Chuí.
A
surpresa local tornou imperativa a aliança que se formara em segundo
turno: Jatene pediu vênia, digo, permissão ao chefe político,
Almir, e “atravessou a Almirante Barroso” indo até a imponente
sede do Grupo RBA, onde pediu e levou o apoio do PMDB local e do
então adversário quase figadal do Gabriel (como o então afilhado o
chamava), Jader. Pediu e levou. E, evidentemente, sem este apoio,
Maria o venceria.
Preste
atenção neste detalhe: de “dono da porra toda” em 1986, mesmo
com o seu candidato Gueiros perdendo na capital para um “dark
horse” da época, o folclórico bancário e sindicalista Carlos
Levy, Jader passara a “controlar” cerca de ⅓ do eleitorado,
fazendo dele um campeão de votos ao Parlamento, mas deixando de ser
majoritário nas disputas… majoritárias. Sacou?
“Donatário”
desse ⅓ cativo do eleitor paraense, majoritariamente no interior do
estado, ele fora fundamental para as vitórias eleitorais dos seus
apoiados em 2002, 2006 (PT) e 2010, PSDB novamente.
A
Lava Jato e a mudança do “pêndulo” eleitoral
Em 2014,
ano da Copa no Brasil, das vaias recorrentes à “presidenta”
Dilma Rousseff, o poste que Lula legou ao Bananão, Jatene, após
descumprir o compromisso de apoiar o então ex-prefeito Helder ao
governo, parte do acordo que o levara de volta ao governo
quatro anos antes, em 2010, com o apoio fundamental do pai dele,
Jader, e, na esteira, rifar e trair a leal vice de 2002, Valéria
Pires Franco, deixando uma das duas vagas à Câmara Alta em aberto
na sua coligação para garanti-la ao cacique peemedebista local (e
nacional), depois de perder no 1º turno para Helder, virou no 2º,
naquela que seria na avaliação sociopolítica do intelectual FHC,
uma vitória com ares de derrota, e Helder, a derrota que fora quase
uma vitória.
FHC, o estadista poliglota, pai do Real,
da LRF, da modernização do estado, da privatização das teles, de
outros mastodontes e paquidermes estatais, da reeleição e do que
dera pra fazer diante das brigas fratricidas (ACM x Jader), da
oposição raivosa e antipatriótica petista do “quanto pior
melhor” e outros males menores locais e das crises econômicas
externas.
Vaticínio de Almir
Pior para Jatene
que, paradoxalmente, aquela virada corrobororara a tese de Almir
Gabriel, em 2006, na dolorosíssima derrota para o PT e Jader, de que
“governador não perde eleição no Pará”.
Sim, na
ótica dos Almiristas como este que vos fala, e das torcidas de Remo
e Paysandu, depois da queda de Almir em 2006 forçada por inação ou
omissão, segundo o próprio, da desídia dele, do Hamlet da Cidade
Modelo, o pescador metera o coice em Valéria, em 2010, trazendo
Jader e cia., e abandonando seu filho quatro anos depois.
O
Petrolão, a Lava Jato e Jair Bolsonaro
Nas peças deste
quebra-cabeças, caminhando para o encerramento da peroração em
tela, cumpre registrar outro macro, mega, ultra, super, o maior
escândalo de corrupção do Ocidente: o Petrolão.
Os
bilhões, as prisões, os presidiários, condenados (e descondenados)
foram capazes de introjetar no tecido social do país a figura
histriônica, fora da curva, disruptiva de Jair Messias Bolsonaro,
até então um parlamentar exótico, nacionalista, eleitor de Ciro
Gomes e Lula, do baixo-clero, que viu o cavalo passar selado, incluiu
Deus e a economia de mercado na sua “plataforma” e, farejando a
migração do eleitorado majoritariamente conservador nos costumes e
liberal na economia que votava no PSDB mais pelo antipetismo do que
em face dos perfis de suas excelências e emplumadas figuras
tucanas.
Algumas delas, como o quase presidente de 2014,
Aécio Neves, implodido pelas traficâncias do mega bandido Joesley
Batista, o qual, se não frequenta o Alvorada, não sai das
cerimônias e negociatas chanceladas pelo e no Palácio do Planalto
lulista.
Âmbar,
Eldorado Celulose, agora fábrica de armamentos, qual o chefão
petista, os Batista voltaram com tudo e muito prosas de 2023 pra
cá.
Direita x Esquerda
Às vésperas do 2º
turno incerto que se descortinou, com Lula nas cordas, mas, pra
variar, com chances de vitória na undécima hora, nasce e floresce o
governo Daniel Santos.
Tantas foram as apostas (inclusive
nossa), muito mais torcida do que certeza no nosso modesto caso, da
vitória da máquina, ops, qual Lula neste momento, de Hana Ghassan,
que até mesmo na coligação do vencedor de 04 de outubro ninguém
parecia crer em uma vitória.
Ocorre que, diferente
do cálculo de outros candidatos derrotados nessa e noutras pelejas,
o doutor acertou na mosca a migração gravitacional para si e usufruiu dos benefícios da onda
azul que varreu o país.
Como Jatene em 2002 e 2010,
quando o “poste” da primeira disputa se elegera graças ao
prestígio do padrinho Almir e do restante necessário no 2º turno
de Jader, e em 2010, quando, pelo menos, ⅓ da sua votação (menor
que a de Flexa Ribeiro) veio do agora emedebista, posto que o partido
tirou o “pê” voltando a origem do que virou o velho PSD extinto
por Costa e Silva no famigerado AI5, assinado na noite de 13 de
dezembro de 1968, quando vinha ao mundo no mesmo dia e hora o
detestado carrasco Careca de Moraes.
Dito isso, convém lembrar que, finalmente, o Hamlet de Castanhal vencera em 2014 com uma votação pra chamar de sua.
Isso
precisa ser dito por que, qual nos EUA, quando um candidato
presidencial atinge o número mínimo de delegados e, independente de
onde vêm os votos, “the winner takes all”, o vencedor
leva tudo.
Todavia, não pense o doutor, doravante “agente
laranja”, que terá vida fácil depois dessa fase gloriosa de
“governador eleito”. Afinal, as paredes da sua residência, da
sede da Prefeitura de Ananindeua, do auditório do TRE-PA, das
representações do PL ao Psol, “everybody knows that” ele
deve o triunfo, em primeiro lugar à sua pertinácia e, na esteira,
dos ¾ dos eleitores paraenses divididos entre os antipetistas do
sul-sudeste-oeste paraenses, do rebanho do pastor Marinho e, cerca de
2/4 dos votos no capitão, sim, do Jair.
Dito isso, a
família Barra, o moderado Joaquim Passarinho, o prefeito de Marabá,
Toni Cunha, e o campeão de votos para a Câmara Federal, o
folclórico Delegado Caveira, vão cobrar essa fatura com juros e
correção, além, é óbvio, do pastor Zequinha que, a cada eleição,
por motivos diversos, navega em canoa e partidos diferentes.
2030
é bem ali na esquina
Reza a lenda que no Bananão todo
senador em meio de mandato é candidato natural ao governo do seu
estado natal. Daniel Santos obteve 2.345.721 ou 51,37% votos dos
válidos contra 2.125.084 (46,53%) ou 220.637 a mais que a
governadora.
Helder Barbalho foi eleito senador com
2.335.774 ou 9.947 votos a menos que Daniel. Donde se infere, numa
conta de padaria, que mais de 190 mil paraenses que votaram no
doutor apertaram o 151 para uma das vagas ao Senado Federal.
Movimento que rifou de uma tacada só as chances do
popular e campeão de votos Delegado Éder Mauro e do sempre muito
bem votado pastor Zequinha.
O clima de ódio
Chamou
a atenção dos observadores da cena na semana a (primeira)
escaramuça virtual via Instagram entre os eleitos Helder e
Daniel.
Sobre uma postagem do doutor chamando de câncer o
prefeito de Tucuruí, do partido do ex-governador, Helder fez outra se solidarizando com o alcaide, iniciativa que culminou na
extensão da ofensa a si pelo aparente neo inimigo.
Pelo andar da
carruagem, tirem as crianças da sala, pois o clima ficou pra lá de
tenso, mega pesado, exteriorizando um ódio recíproco que se formou
entre os antigos “aliados”.
Conclusão
Em
face dessas, outras e mais algumas, da vitória na disputa
presidencial de domingo que vem dependem não só o futuro político
do deputado Celso Sabino, mas, idem, as chances de nivelar o jogo em
solo local na oposição que permanecerá.
Falo dos
mandatários “raiz” que permanecerão sob a liderança de Helder,
o moribundo e rejeitado PT que, de “virgem” em 2002 virou uma
“plock pirenta do job” desde 2006 e, sobretudo, após a Lava
Jato, e a combativa deputada do PSol, Lívia Duarte.
Os
restantes, como previra com exatidão o então aliado de Daniel,
deputado reeleito Érick Monteiro, cuja altivez do pronunciamento da
tribuna da Alepa, no primeiro semestre de 2024, lembrou ao então
governador que todos os deputados de fora do MDB que o apoiavam
estariam na base de Daniel tão logo ele se elegesse neste 04 de
outubro último. No alvo.
Diz-se por aí que os
“emedebistas do ônibus” e as duas veteranas que apunhalaram
Jatene em 2021, ainda assentadas no PSDB, já estão dando o abra
valendo…
Helder tem recall, seu grupo político,
traquejo para fazer oposição de verdade que, associada ao poder de
fogo do Grupo RBA prometem infernizar impiedosamente a vida do governador eleito.
Diante do modus operandi de Daniel,
do apetite por cargos e verbas dos “aliados” de ocasião do
Centrão paraoara, da legião de votos do PL do Jair, o senador
eleito deve apostar em tudo isso e mais um pouco, digo, do fogo amigo
e da fricção com os partidários dos Bolsonaro com vistas a manter
Daniel nas ou próximo as cordas.
Dito isso, restam o
imponderável e o resultado de domingo. Dando Jair, ops, Flávio, a
corrida de obstáculos inclui a aprovação ou não da PEC do fim da
reeleição e a quem ela, vez que apresentada e aprovada,
atinge.
Caso o 01 cumpra a palavra e os eleitos em 2026
não possam mais ser reeleitos, o doutor governará. Se Lula vencer,
além da força de Helder aumentar em âmbito nacional, decerto a
reeleição continuará a pontificar por aqui.
Agora, se
der Flávio e a promessa de trabalhar pela reeleição minguar, qual
Jair em 2018/2019 e Lula na eleição anterior, a de 2022, a única
chance do agente Laranja vingar é ele ser aceito e introduzido ao
PL, sob as bênçãos do novo presidente (novo), com idade pra ser
filho e até neto de Lula.
Do
contrário, um Helder sem presidente aliado e em meio de mandato tem tudo pra jogar com a “lei do pêndulo”, aquela que seu pai manejou com
maestria em 2002, 2006 e 2010 e que agora teve o próprio ex-prefeito
como beneficiado, recebendo os votos que eram tucanos e de centro,
somados ao condomínio agro-evangélicos-PL.
Quem viver
verá e, os que ainda têm memória hão de se lembrar.
Ivan,
meu guru insubstituível, eu te amo sempre e pra sempre. Receba de
novo minha eterna gratidão.
Inté
e, se Deus quiser, até lá. Amém!
*Royalties
para Ivan Lessa
PS: dedico este texto à memória do meu querido irmão de vida, o brilhante cirurgião, cristão caridoso e amigo de fé, Dr. Alessandro Lobato, que deixou este vasto mundo neste sábado, para tristeza de dezenas de amigos e milhares de pacientes. Que Deus o receba em meio a luz, amém.
