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Ana Clara Costa na piauí 236 e as entranhas da Faria Lima

Um panorama do ecossistema onde floresceram os esquemas que culminaram no escândalo Master

Ao caro leitor e à estimada leitora,

Este escrevinhador que ora vos fala é, como se pode perceber, um entusiasta da estoica e gloriosa (sem trocadilho com o time do coração do seu fundador) revista piauí.

Como tal, é seu assinante e, leitor desde a primeira edição, possui todas as 236 publicações impressas e aquela que talvez seja a sua única extra, em homenagem ao vencedor do Prêmio Fields, o “Nobel” da matemática, Arthur Ávila, ciência exata que é outra das paixões de João Moreira Salles, o alvinegro mecenas da publicação.


Aliás, a razão social da revista chama-se “Editora Alvinegra”. Dito isso, cumpre registrar a escolha por mais esta matéria “gigante” assinada pela repórter Ana Clara Costa, brilhante como costumam ser as repórteres da piauí_236.


Após a (justa) homenagem ao saudoso Adnan Demachki, a reportagem cujo resumo – sim, resumo -, que segue abaixo traça um panorama dos meandros, engrenagem e rede de falcatruas, leniência e desídia por trás de órgãos de controle como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o próprio Banco Central (BC), cujas consequências permitem a atuação, delinquências e crescimento de bancos fajutos como o Master, de Daniel Vorcaro, e a Reag, corretora financeira do não menos polêmico João Carlos Mansur.


O texto de Ana Clara Costa possui cerca de 28 laudas em fonte Times New Roman 12. Abaixo, seguem outras 16, em Arial, daquilo que considerei útil como informação, e necessário, na condição de alerta, tanto aos que poupam no mercado financeiro, quanto àqueles que guardam seus recursos em previdências privadas ou públicas em fundos estaduais, municipais ou mesmo federais.


Todo cuidado é pouco quando se desbaratam esquemas em Petrus (Petrobras), Previ (BB), ou Rio Previdência (estado do RJ) e Amprev, do Amapá, os dois últimos, ambos alvos do esbulho do trambiqueiro torrador do dinheiro alheio Daniel Vorcaro et caterva.


Leiam com atenção, releiam os trechos negritados e tirem o chapéu para o trabalho dessa jornalista safa, corajosa e up to date.


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A simbiose: como o crime e as finanças convivem na Faria Lima
Faria Lima: o BTG e a XP discutiram a suspensão de negociações com o Master, mas o BC pediu cautela, alegando que isso poderia gerar uma corrida bancária e uma crise de liquidez no sistema 
Por Ana Clara Costa 


Na Faria Lima, o crime de lavagem de dinheiro não costuma ser chamado pelo que é. Habitualmente, recorre-se a eufemismos como “infração grave” ou, melhor ainda, “gerenciamento inadequado de risco de liquidez”.


As primeiras descobertas eram falhas de governança. Havia regras de compliance ignoradas


Aos poucos, foram surgindo irregularidades operacionais. A Reag alocava ativos em fundos de forma indevida, reavaliava patrimônios sem critérios consistentes e deixava de divulgar demonstrações financeiras obrigatórias.

Mais adiante, as inconsistências deixaram de parecer mera desorganização, causando visível espanto até em Van Dijk.

Descobriu-se, por exemplo, que a Reag usava terrenos para inflar artificialmente o patrimônio de fundos e criar ativos sem lastro, produzidos apenas para encorpar investimentos. Era uma operação altamente irregular.

Enquanto as reuniões aconteciam, a Reag apresentou à Anbima o tal “termo de compromisso”.

A entidade não aceitou por concluir que o problema era sistêmico, não pontual. E então a coisa explodiu no dia 28 de agosto, quando as operações Quasar, Tank e Carbono Oculto, deflagradas pela Polícia Federal, mostraram que a Reag movimentava ao menos dez fundos para lavar dinheiro de empresas do setor de combustíveis que faziam negócios com o Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior organização criminosa do país.

João Carlos Mansur não era apenas o dono da gestora. Era também sócio de um dos principais fundos do esquema, o Mabruk II.


Além de ter abrigado operações sob suspeita de auxiliar o crime organizado, a Reag também usou sua estrutura para inflar ativos que permitiram ao Banco Master de Daniel Vorcaro expandir e alavancar seus negócios.

Sem a Reag na retaguarda, criando ativos fictícios em fundos do Master, o banco não conseguiria irrigar o mercado com a cachoeira de certificados de depósito bancários (CDBs) mais rentáveis que a média, o que terminou causando o rombo fenomenal de 50 bilhões de reais no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o órgão que garante aplicações de até 250 mil reais para qualquer investidor.


Apesar de todas as suspeitas, a Faria Lima convivia bem com a Reag. A Anbima, por exemplo, só retirou seu “selo” de boas práticas e excluiu a gestora de seu quadro de associados em 15 de janeiro deste ano, data em que a Reag foi liquidada pelo Banco Central.


A CVM, que havia instaurado 77 processos contra a gestora, transformou apenas oito deles em acusação e até hoje não condenou ninguém.


Os advogados de Mansur negam que ele tenha cometido qualquer crime.


A Reag e o Banco Master são exemplos eloquentes de como a Faria Lima é tolerante com os seus pares que praticam ilicitudes.

Na década passada, a gestora já havia sido investigada por seu envolvimento no desvio de recursos de fundos de previdência geridos por estados e municípios, conhecidos pela sigla RPPS.

Esses fundos bilionários – como a Rioprevidência dos servidores estaduais do Rio de Janeiro ou a BHPrev, dos funcionários da Prefeitura de Belo Horizonte – não sofrem a mesma fiscalização dos fundos federais, como a Funcef da Caixa Econômica e a Previ do Banco do Brasil.

Os RPPS são supervisionados por um grupo diminuto de servidores do Ministério da Previdência Social.


Em meados de 2017, ignorando que recursos previdenciários devem ser aplicados em investimentos conservadores, a Reag criou um fundo imobiliário com dinheiro de RPPS.

Portanto, um fundo arriscado, sem garantia de retorno, coisa que só o pessoal do “lado B” da Faria Lima ousa fazer.

A Reag fez – e fez mais que isso. Quando a CM Capital, a administradora espanhola que fiscalizava o fundo imobiliário, notou as primeiras violações de regras e cobrou explicações, Mansur substituiu-a por outras menos exigentes.

Aí, começou a nascer todo um ecossistema paralelo, com o qual a Reag – e em seguida o Master – pintou e bordou na Faria Lima.


A existência do ecossistema, formado por administradoras alinhadas aos interesses de Mansur, veio à luz no ano passado com a deflagração das operações da Polícia Federal e do Ministério Público.


As investigações revelaram uma rede formada por fintechs e estruturas de gestão de recursos cuja missão era própria do submundo das finanças: lavar os milhões de reais oriundos de adulteração e sonegação no mercado de combustíveis.

O esquema era comandado por dois empresários, Roberto Leme e Mohamad Mourad, conhecidos como Beto Louco e Primo.

Parte da venda de combustíveis abastecia postos controlados pelo PCC, que injetava dinheiro nas empresas da dupla para que os recursos fossem lavados.

Segundo a investigação, Beto Louco devolvia 95% do dinheiro à facção e retinha 5% pelos seus serviços.


A Reag desempenhava papel-chave no esquema.

Estruturava os canais financeiros que permitiam à dupla de empresários comprar ativos às escondidas, como terminais portuários, aeronaves, imóveis, redes de postos e usinas de álcool, usadas na adulteração com metanol.

A engrenagem oculta funcionava na Faria Lima, onde, para obter um salvo-conduto, bastava usar o uniforme do pedaço: camisas bordadas com iniciais, sapatos Ferragamo e alta relojoaria.


O arquiteto financeiro do esquema da dupla, de acordo com as investigações, era o advogado Rogério Garcia Peres, dono da Altinvest, empresa que ora funcionava como gestora, ora como administradora dos fundos usados na lavagem. Peres era muito bem relacionado na Faria Lima.

Seu papel no esquema clandestino era despistar as autoridades, esvaziando fundos quando despertavam suspeitas e migrando bilhões em ativos para outras estruturas.


Mensagens apreendidas pela polícia mostram Peres em ação, orientando a criação de um esquema para esconder a participação de Beto Louco e Primo numa licitação de terminal portuário.

O passo a passo é claro: parte do dinheiro para comprar o terminal sairia da conta de uma companhia dos empresários, a Aster, mantida na fintech BK Bank; outra parte sairia da conta da Aster no Banco do Brasil – o que mostra que a operação passava pelo sistema financeiro tradicional.

Em seguida, o dinheiro seria lavado com uma nota fiscal fictícia, depois convertido em um Fundo de Investimento em Participações (FIP) e, a partir daí, usado para dar um lance no certame do terminal no Porto de Santos.


Quando os irmãos Wesley e Joesley Batista, donos da J&F, estavam enrolados com a polícia na Operação Lava Jato, os bancos tradicionais, orientados por seus setores de compliance, tomaram distância da dupla tóxica.

Mansur, no entanto, lhes deu guarida e abriu pelo menos sete fundos para os Batista que somavam quase 18 bilhões de reais em ativos – um favor que os irmãos nunca esqueceram. 


A partir daí, o ecossistema operou de forma ainda mais integrada, criando um labirinto de fundos que dificultava o rastreamento do dono do dinheiro e prestando serviços tanto a Beto Louco e Primo quanto a Daniel Vorcaro, o dono do Master. No emaranhado de operações e falsificações, tudo podia se cruzar a qualquer hora.


Num diálogo revelado pelo portal UOL, um dos principais operadores de Daniel Vorcaro, Ascendino Madureira, diretor da Master Corretora, faz pressão para que Artur Martins de Figueiredo, ex-Planner e então diretor da Trustee, altere o valor de ativos de um fundo de 1 bilhão para 4 bilhões de reais.

“Porra, não fizeram nada, cara. A carteira continuou com 1 bi.” A alteração era totalmente irregular, mas Madureira insistiu em nome da “saúde” do Master: “Puta, cara, eu sei que é foda, mas isso vai impactar demais o resultado do banco”, diz.


A ciranda de abre e fecha fundo, descola recursos para cá e para lá, adultera valor de ativos aqui e ali acontecia com frequência, seja para montar operações, ocultar registros ou despistar as autoridades. 


E, no entanto, as barbaridades se multiplicavam. O Banco Central, soube-se depois, registrou num relatório que o Master nem sequer lhe enviava informações sobre risco de crédito.

Acima de todo esse emaranhado de empresas, Reag, Trustee, Banvox, Planner, havia uma estrutura em que Daniel Vorcaro depositava mais confiança: a Sefer Investimentos, de Benjamin Botelho, que atuou como braço direito do banqueiro, mas também de Maurício Quadrado e do empresário Nelson Tanure, suspeito de ser o sócio oculto do Master.

Vorcaro confiava tanto na Sefer de Botelho que lhe entregou a gestão dos fundos e empresas que controlavam seu patrimônio pessoal, incluindo seus imóveis milionários e até sua própria participação no Master.

A relação é tão estreita que, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, 48% do patrimônio da Sefer – o equivalente a 9,6 bilhões de reais – está ligado a Vorcaro e ao Master.


“Quando você pega a Compliance Zero”, diz o delegado, referindo-se à operação que prendeu Vorcaro e levantou o véu sobre os crimes do colarinho branco, “essas figuras – Botelho, Quadrado, Tanure e Mansur – operam no mercado há mais de trinta anos”.


Todas essas movimentações – esses desvios de recursos, essas operações de lavagem de dinheiro, essas manobras para ocultar ativos, esses sumiços de recursos, essas suspeitas antigas –, tudo isso ocorria diante dos olhos do mercado.

Sabia-se que o crescimento da Reag não era orgânico, desconfiava-se da Planner e de Maurício Quadrado, conhecia-se o histórico de Nelson Tanure e suas operações sempre no limiar da legalidade e havia ceticismo em relação à origem da riqueza que permitia a Vorcaro manter gastos que nenhum outro banqueiro mantinha.


Ainda assim, embora alheio aos detalhes das maracutaias, o sistema financeiro tolerava, absorvia e reorganizava as ilegalidades.


Criada em meados da década de 1970 para pôr ordem no mercado de valores mobiliários no país, a CVM, incumbida de fiscalizar a Faria Lima, passou a ser um alvo preferencial do escrutínio público com o escândalo do Master.

Como é possível que um órgão regulador tenha deixado passar, sem qualquer sanção, a criação de fundos bilionários compostos por ativos fictícios, inflados e irregulares?


Em março do ano passado, a CVM e o Banco Central enviaram dois documentos à Polícia Federal que serviram de base para a deflagração da Operação Compliance Zero.

A essa altura, o esquema já era insustentável e o Master estava na beira do abismo. 

A piauí conversou com servidores antigos e atuais da CVM, além de gestores que lidam com a autarquia com frequência.

O diagnóstico é de uma entidade depauperada, esvaziada, com orçamento reduzido e cada vez mais suscetível a pressões políticas, sobretudo depois das indicações feitas durante o governo de Jair Bolsonaro.

Num reflexo desse processo de deterioração, a sede da autarquia, no Centro do Rio, que não passa por uma reforma há décadas, sofreu uma invasão de ratos no ano passado. A rataria que mais preocupa, no entanto, não é a dos mamíferos roedores.


Em 2022, Flávio Bolsonaro indicou o advogado João Pedro Nascimento para presidir a CVM. E aí começou uma mudança de perfil do órgão, que passou de técnico para político.

Nascimento vinha de um escritório relativamente pequeno e pouco conhecido no Rio de Janeiro.

Ao ingressar na autarquia, fontes que conviveram com ele destacam sua escassa familiaridade com temas técnicos, combinada com uma forte necessidade de reconhecimento político e aprovação do mercado, expedientes incompatíveis com a atuação de um órgão de fiscalização.

Esse ambiente de frouxidão regulatória se aprofundou com a atuação de outro diretor, Otto Lobo, cuja indicação era apoiada por magistrados do Rio e em especial pelo ministro Luiz Fux, do STF.


A atuação de Lobo no caso da empresa ambiental Ambipar definiu seu papel dentro da CVM.

Ao aprovar uma manobra que inflou artificialmente o valor das ações da Ambipar, beneficiando Nelson Tanure e o Master, Lobo demonstrou disposição explícita para operar em favor de interesses opacos. No episódio, Nascimento chegou a votar contra Lobo.

Depois da divergência, deixou a CVM, abrindo espaço para que Lobo passasse a articular sua ascensão à presidência.


Já no governo atual, apesar da oposição do Ministério da Fazenda, Lobo foi formalmente indicado pelo presidente Lula para comandar a CVM.

Entre os padrinhos de sua indicação estão luminares do Centrão, como Davi Alcolumbre, além dos irmãos Batista e até mesmo Guido Mantega e João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT.

Se o nome de Lobo for aprovado pelo Senado, ele assume o cargo hoje ocupado interinamente por João Accioly.


Num dos principais processos envolvendo o Master na CVM, Lobo e Accioly travaram a pauta, num gesto que pareceu feito sob medida para ajudar Daniel Vorcaro, que, na época, negociava a venda do Master para o BRB, o banco estatal de Brasília.

Se arquivassem o processo, causariam péssima repercussão no mercado. Se punissem Vorcaro, poderiam atrapalhar a transação com o BRB. Só destravaram o processo depois que Vorcaro já estava preso.

Em dezembro passado, quando foi solto, o banqueiro propôs um termo de compromisso para pagar 13,8 milhões de reais pelos malfeitos. Accioly, o interino, não aceitou.


Em uma audiência no Senado, em fevereiro deste ano, Accioly deu sinais de que sabia da gravidade da situação.

“Os ativos eram inseridos no fundo por um determinado valor, aparentemente próximo do real. No momento seguinte, aquele imóvel que valia 100 milhões magicamente passava a valer 300 [milhões], e essas cotas do fundo eram vendidas para fundos cujos cotistas são fundos de pensão – como a gente sabe, problema antigo.” 


Para gestores e advogados que lidam com a CVM, a autarquia está contaminada pelas mesmas práticas heterodoxas do Judiciário, sobretudo sob a influência de Lobo.

Há pedidos de vista sem sentido, que abrem margem para reuniões particulares com interessados sem a presença dos outros diretores.

“Eu falei para o meu cliente para não fazermos a reunião porque seríamos achacados”, afirma um advogado, temeroso da má fama de Lobo.

Outro fator que desperta desconfianças é sua presença constante em Brasília, onde se reúne em gabinetes sem agenda pública.


Em novembro, com a Compliance Zero na rua e Vorcaro na prisão, Lobo estava em Nova York num evento chamado Roadshow Inovações Regulatórias CVM-EUA, acompanhado de Accioly.

Naquele momento, só havia uma pessoa dando expediente na diretoria colegiada, a advogada Marina Copola, que já trabalhara na autarquia antes.

Segundo as mais de dez fontes ouvidas pela piauí sobre a CVM, Copola é considerada a única ocupante do colegiado com perfil técnico e credibilidade no mercado.

Até por essa razão, Copola tem manifestado nos bastidores sua vontade de deixar a CVM devido à crise de imagem da autarquia.


O investidor Vladimir Timerman, da Esh Capital, que por anos foi uma voz solitária denunciando as fraudes do Master sem que os reguladores lhe dessem ouvidos, afirmou que Velloso era craque em transformar as investigações sobre a Reag e o Master em meros ofícios de alerta.

Quando Lobo chegou à CVM como diretor, Velloso logo se aproximou dele, acompanhando-o em viagens a Brasília.

Diante dos ataques que Lobo sofreu em razão de sua imagem pouco confiável, Velloso foi o único servidor a sair em sua defesa, chamando as acusações de “injustas” e elogiando o chefe.


As críticas à atuação da CVM nos casos Reag e Master levaram servidores de carreira a se mobilizarem.

Eles defendem a criação de uma cadeira para técnicos no colegiado. Hoje, a autarquia conta com apenas 379 servidores, bem menos do que os mais de novecentos que já teve.

O orçamento também encolheu: caiu 70% na última década, chegando a cerca de 20 milhões de reais por ano.

Mesmo depois de um aumento recente de 10 milhões, o valor ainda é considerado insuficiente para lidar com um mercado que hoje reúne mais de 30 mil fundos de investimento – mais que o dobro dos Estados Unidos.


Para os gestores ouvidos pela piauí, a evolução e a internacionalização do mercado de capitais levaram grandes bancos e gestoras a operar segundo padrões globais, o que reduziu a relevância da fiscalização local – e acabou expondo-a à captura por interesses políticos e financistas.

Um ex-diretor da CVM se diz indignado com o silêncio do mercado diante da indicação de Lobo. “Se as pessoas continuarem sem falar nada, ele vai virar presidente da instituição.”


O mercado continua em silêncio.


Até a ascensão de Daniel Vorcaro, o banqueiro André Esteves era o expoente do setor financeiro com mais trânsito junto ao poder desde a redemocratização do país.

Ecumênico e pragmático, sempre circulou bem na esquerda e na direita, mantendo pontes com o Legislativo e o Judiciário, no qual tinha relação especialmente próxima com o ministro Gilmar Mendes, do STF.

Ao longo do governo Lula, Esteves aproximou-se de Fernando Haddad, numa relação que rendeu ganhos a ambos.

O banqueiro ajudou o ministro na interlocução com o então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e atuou para distensionar sua relação com a Faria Lima.

Quando Haddad cogitou indicar Gabriel Galípolo para a diretoria do Banco Central, já prevendo que ele iria suceder a Roberto Campos Neto, Esteves e um de seus sócios, Marcos Maluf, também próximo de Haddad, trabalharam em favor da escolha.

Avaliavam que, ao levar um nome alinhado ao ministro para a autoridade monetária, o BTG ampliaria sua interlocução no centro da política econômica.


À custa das viagens em jatinhos, das negociatas via fundos e dos honorários advocatícios milionários, Vorcaro conquistou espaço central no Congresso e no STF, mas nunca teve trânsito semelhante no governo.

Haddad jamais o recebeu, e Lula só o fez por insistência de Guido Mantega – e ainda assim na presença de cinco assessores.

Sua abastada cesta de vantagens para abrir portas contrastava com a estratégia de Esteves, que, sobretudo depois da Operação Lava Jato, durante a qual chegou a ser preso, passou a privilegiar métodos mais discretos de relacionamento com o poder, embora não menos efetivos.


Sua fórmula, pelo menos desde 2016, é outra: atrair para o banco egressos de altos cargos da República, estreitando os laços entre sua instituição e os centros formais de decisão.

Empregou ex-ministros dos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro, empregou ex-advogado-geral da União, ex-deputados, filhos de ex-ministro do Supremo e do atual governador de São Paulo.

Muitos entraram no banco, outros tantos já saíram, mas o pioneiro desse movimento de relacionamento continua lá: o ex-ministro da Defesa e do STF, Nelson Jobim, que segue sendo passageiro frequente do jato Bombardier do BTG na ponte-aérea São Paulo-Brasília.


Em sua trajetória, Esteves nunca deixou de envolver-se em alguns dos grandes contenciosos do país, como a recuperação judicial da Americanas depois da descoberta do rombo estratosférico de 40 bilhões de reais na empresa.
“Risco Master”

Embora o BTG, assim como a XP Investimentos e outras plataformas, tenham distribuído os CDBs hoje sabidamente problemáticos de Vorcaro, o banco de Esteves foi um dos primeiros agentes de mercado a reagir ao chamado “risco Master”.

No fim de 2024, por meio de seus assessores de investimento, o BTG aconselhou seus clientes a não aportar mais que 250 mil reais em CDBs do Master – exatamente o teto de cobertura pelo Fundo Garantidor de Créditos. E interrompeu a distribuição de novos títulos do Master em suas plataformas.


No início de 2025, a XP também interrompeu a distribuição de novos títulos. O movimento foi decisivo para selar a derrocada do Master, que dependia de novas emissões para honrar os compromissos assumidos e a XP era sua principal distribuidora.

BTG e XP chegaram a discutir a suspensão total das negociações, inclusive no mercado secundário, que permitia a venda entre clientes, mas receberam um pedido inusitado, que ficou escondido até agora: a diretoria de Fiscalização do Banco Central telefonou aconselhando mais cautela.

Alegaram que uma interrupção abrupta do BTG e da XP poderia desencadear uma corrida bancária e resultar numa crise de liquidez no sistema. E assim o próprio BC contribuiu para manter ativa a cadeia de ardis do Master.


Para o BTG, porém, a deterioração do banco de Vorcaro já parecia inevitável.

Ainda no início de 2025, o BTG deixou de repassar ao Master os ganhos de uma carteira de crédito de 600 milhões de reais do Credcesta – um cartão de crédito consignado – na qual ambos detinham em sociedade.

Era um sinal eloquente de que a Faria Lima sabia o que estava acontecendo.

Esteves tomou essa decisão porque temia que novos fluxos não se materializassem em caso de quebra do Master.

Em uma reunião interna em março de 2025, diretores do BTG concluíram que seria menos oneroso enfrentar eventuais disputas judiciais por descumprimento contratual do que arcar com um possível default da operação.


Enquanto a crise do Master parecia não existir para os órgãos reguladores, os primeiros movimentos da Faria Lima foram no sentido de sempre: lucrar.

O BTG saltou à frente e se preparou para ganhar com qualquer desfecho do caso. Em 2025, um diretor do banco de Esteves, Oswaldo de Assis Filho, ocupava – e ainda ocupa – uma cadeira no Conselho Consultivo do FGC.

Entre os integrantes do FGC já havia consenso de que o Master extrapolara todos os limites. Mas o problema não era mais o banco em si.

Diante da dimensão das distorções, crescia o temor de que uma eventual quebra produzisse efeitos em cadeia, atingindo o próprio BTG e, em última instância, o sistema financeiro.


Com experiência em situações de estresse, o BTG tinha potencial para desempenhar papel central no dia seguinte à quebra do Master.

Sua área de “ativos estressados”, conhecida no jargão como special situations ou special sits, é especializada em identificar empresas em dificuldade e extrair valor de suas partes mais rentáveis.

Não surpreende, portanto, que Esteves tenha se movimentado para estruturar uma solução de mercado para assumir os ativos considerados mais saudáveis do Master e evitar sua liquidação.

Na proposta, segundo publicou o colunista Lauro Jardim, em O Globo, o FGC entraria com recursos para honrar os compromissos do banco, Vorcaro deixaria o negócio e o BTG ficaria com os ativos de seu interesse, como a carteira do Credcesta.


A proposta não avançou. A essa altura, os bancos já disputavam entre si.

As instituições que contribuem para o FGC, prevendo a derrocada do Master, avaliaram que o fundo arcaria com a maior parte das perdas, enquanto elas próprias acabariam assistindo ao BTG capturar os ativos mais valiosos.

Quando a negociação veio a público, o BTG negou envolvimento. Queria evitar dar a impressão de que interferia diretamente na situação do Master.


A crise do Master, assim, estava confrontando dois banqueiros de alta voltagem.

Esteves x Vorcaro
A relação de Vorcaro com Esteves era atravessada por admiração, uma certa dose de inveja e um quinhão de inimizade.

Vorcaro gostava de mostrar a interlocutores mensagens de WhatsApp em que Esteves elogiava determinados ativos do Master, o que o deixava visivelmente envaidecido.

Nas mensagens que Vorcaro trocava com sua ex-noiva, Martha Graeff, Esteves era assunto recorrente.

Ele avisava quando estava com Esteves, quando passava pela sala de reuniões de Esteves, quando Esteves prometia aparecer em seu camarote na Sapucaí, quando Esteves ofereceu sua vinícola na Itália para hospedar o casal – que recusou o convite.


Apesar disso, Vorcaro se descreve à ex-noiva como um perseguido. Diz que Esteves estaria determinado a destruí- lo, manipulando o Banco Central e plantando notícias desfavoráveis na imprensa.

Em diversas ocasiões, afirma estar em “guerra” e identifica o banqueiro como o seu “inimigo”. 


Dos diálogos, depreende-se que Esteves tentou comprar o Master em diferentes momentos, inclusive durante o período em que Vorcaro negociou a venda para o BRB. Vorcaro descreve Esteves como “desesperado”.

Quando o anúncio da venda foi feito, em março do ano passado, relata com risos – “kkkk” – que Esteves procurou o presidente do BC, Gabriel Galípolo, para reclamar do negócio.

Nas conversas, Vorcaro também se mostra envaidecido com a repercussão do caso envolvendo seu banco.

A batida do Esteves”
Em uma das mensagens que trocou com Alexandre de Moraes no dia de sua prisão, em novembro do ano passado, Vorcaro já sabia que seria alvo da Polícia Federal e se referiu à investida como “a batida do Esteves”.

Se a obsessão de Vorcaro em estreitar laços com ministros do STF tinha, por um lado, a busca por respaldo político, também funcionava como demonstração de poder diante do concorrente e de sua influência na corte.

Alexandre de Moraes nunca dera tanta abertura a Esteves quanto deu a Vorcaro. E, a exemplo de Vorcaro, passou a encarar Esteves como inimigo.


A interlocutores, Moraes disse acreditar que as informações sobre o milionário contrato de sua mulher com o Master haviam sido obtidas pela equipe econômica do governo e vazadas à imprensa por Esteves.

Chegou a desconvidar seu amigo Rodrigo Maia, ex- presidente da Câmara dos Deputados, para sua festa de aniversário, depois que Maia anunciou sua entrada no BTG no início deste ano. Hoje, fizeram as pazes.

Esteves tende a baixar a fervura da briga, enquanto Gilmar Mendes atua para apaziguar a relação entre Moraes e o banqueiro.

Mas o dono do BTG continua preocupado, pois teme acabar envolvido numa investigação criminal autorizada por Moraes – a que apura um possível crime de insider trading. 


A investigação, aberta em julho de 2025, quer identificar quem no mercado lucrou cerca de 500 milhões de reais no dia em que Donald Trump anunciou o tarifaço contra o Brasil. 


40 anos e 220 milhões
Em setembro de 2023, talvez pelo histórico de inação dos órgãos reguladores, Daniel Vorcaro parecia tranquilo na comemoração de seus 40 anos em Taormina, na Itália.

A festa reuniu artistas como Coldplay, Andrea Bocelli, David Guetta e Michael Bublé, e incluía hospedagem em hotel cinco estrelas para todos os convidados. O mimo custou 220 milhões de reais.

O banqueiro já era conhecido pelo padrão exorbitante de gastos e por financiar eventos com a presença de autoridades.

Ainda assim, os dias em Taormina surpreenderam até interlocutores habituados a extravagâncias.


Na mesma época, o Banco Central estava preparando uma medida destinada a barrar a farra que o Master vinha fazendo com os precatórios, como são chamadas as dívidas do poder público que já foram reconhecidas por decisão judicial definitiva – e, portanto, serão pagas, mais cedo ou mais tarde.

Os precatórios eram um instrumento útil para o esquema do Master: ao inflá-los em seus registros, como sempre fazia por meio de sua rede de mutretas, Vorcaro criava espaço para seu banco emitir mais dívida, sobretudo os CDBs, e assim mantinha sua roda girando.

O BC – assim como a Faria Lima inteira – sabia que o Master manipulava os precatórios, mas o banqueiro parecia despreocupado em Taormina.


E tinha razão. Um mês depois da festança na Itália, o BC enfim baixou novas medidas para reduzir a margem de manobra do Master com os precatórios, mas eram tão brandas que o banco continuou seus malabarismos com os papéis.

Nem sofreu qualquer tipo de punição. Mais tarde, quando o Master já estava nas cordas em 2025, o BTG cresceu o olho nos precatórios, mesmo sabendo que os valores estavam inflados.

Um lote que o Master registrava com valor de 8,7 bilhões de reais, o BTG calculava que valia cerca de 3 bilhões.

Em outro, num caso antigo envolvendo o Instituto do Açúcar e do Álcool, o Master contabilizava os precatórios em cerca de 1,5 bilhão de reais. Para o BTG, que já analisara a documentação, não valiam nem 100 milhões. Mesmo assim, tinham algum valor.


A leveza com que o BC atuou nos precatórios do Master explicou-se mais tarde. Na época, os principais cargos da área responsável pelo caso eram ocupados por funcionários que, hoje, estão afastados da função e sob investigação devido à suspeita de que receberam propina para atender aos interesses de Vorcaro.

Mensagens de WhatsApp e uma sindicância do BC sugerem que cada funcionário recebeu pelo menos 4 milhões de reais de Vorcaro.

Paulo Sérgio Neves de Souza, o ex-diretor de fiscalização, e Belline Santana, o chefe do departamento de supervisão bancária, aparentemente vinham atuando como interlocutores do Master no BC. (Ambos usam hoje tornozeleira eletrônica.)


Quando terminou seu mandato em 2023, o diretor Paulo Souza pediu a Roberto Campos Neto para permanecer no cargo.

Como o preenchimento é de nomeação do presidente da República, Campos Neto chegou a fazer um apelo para que Lula mantivesse Souza como diretor.

Lula, que queria colocar no posto um servidor negro, optou por Ailton de Aquino Santos, um dos mais experientes servidores da área.

Campos Neto, então, atendeu ao pedido incomum de Souza para, de algum modo, permanecer na área – e assim criou o cargo de “chefe-adjunto” da supervisão apenas para abrigar Souza.

Com isso, o adjunto pôde continuar atuando na área em favor do Master. O caso mostra que a contaminação do esquema de Vorcaro chegou aos mais altos escalões do BC.


Em 2024, apesar das crescentes dificuldades para levantar capital, Vorcaro continuou exibindo tranquilidade e não alterou sua rotina pública.

O Master seguiu patrocinando eventos com a presença de autoridades, em especial do Judiciário.

Em abril, despejou 38,7 milhões de reais para bancar o Fórum Jurídico Brasil de Ideias, em Londres, ao qual compareceram 24 autoridades, entre elas os ministros Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli.

Também estavam o procurador-geral Paulo Gonet e o diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, que hoje investigam o banco.

Todos ficaram hospedados no hotel The Peninsula, cuja diária ultrapassava 6 mil reais.

A essa altura, o BC já estava identificando uma nova leva de irregularidades no Master.

De modo geral, alastrava-se a percepção de que o modelo de remuneração dos CDBs era impraticável, tal o nível de endividamento do banco.

Em 2024, Vorcaro precisava captar pelo menos 15 bilhões de reais para reequilibrar o balanço do Master e pagar os investidores.

Não conseguiu mais do que 2 bilhões. Mas seu telhado de vidro na Faria Lima continuava intacto. 

No ambiente de tamanha leniência, o Master seguiu em frente. Só em 2024, o BC mandou nove ofícios pedindo ao banco que arrumasse dinheiro para honrar os rendimentos de seus títulos.

Um gestor da Faria Lima, que avaliou um bloco de ativos do Master nessa época, percebeu um alto “nível de sofisticação da sacanagem”.

“Em uma operação que analisamos, o Master comprava um título já com opção de venda. Na prática, fingia a aquisição apenas para inflar o valor do ativo”, diz o interlocutor, que tampouco denunciou o que viu a alguma autoridade.

Assimetria informacional”
Havia ainda indícios de fraude na prestação de informações sobre risco de crédito, o que mascarava a insuficiência de capital do banco. Na prática, a manobra fazia parecer que o Master tinha cerca de 900 milhões de reais a mais do que de fato possuía.

O BC, porém, tal como o mercado que gosta de recorrer a eufemismos, referia-se a essas suspeitas como “impropriedades contábeis”, “informações inexatas” e, a melhor de todas, “assimetria informacional”.


Roberto Campos Neto deixou a presidência do BC em 31 de dezembro de 2024. Nos bastidores, diz que não tinha conhecimento do problema do Master, já que a fiscalização de bancos médios não chegava à sua mesa.

A alegação seria plausível não fosse o fato de que ele circulava no mesmo ambiente em que todos comentavam que a conta do Master não fechava.

Não à toa, a nova regra sobre os precatórios – amena, mas ainda assim uma nova regra – surgiu por ordem de Campos Neto, numa evidência de que ele não estava alheio aos problemas. Apesar de tudo, um ex-sócio do BTG que acompanhou de perto a crise do Master defende Campos Neto:

“As pessoas batem nele, mas ele tentou uma saída negociada. Liquidar é um trauma.”


1,8 bilhão de reais

Enquanto se evitava o trauma da liquidação, o Master pulava de fraude em fraude para cobrir seus rombos. Como fizera no passado, voltou a morder os fundos de pensão de estados e municípios, os chamados RPPS, valendo-se da escassa fiscalização.

De 2023 em diante, fez 41 operações para fisgar dinheiro de pensionistas, capturando mais de 1,8 bilhão de reais. O grosso veio da Rioprevidência, do então governador Cláudio Castro, do PL.

O segundo maior pagador foi a Amprev, fundo do Amapá, então presidido pelo ex-tesoureiro de campanha do senador Davi Alcolumbre, do União Brasil.

O BC de Campos Neto concordou com essa caça aos fundos públicos, pois sabia que o mercado privado não colocaria mais dinheiro na mão de Vorcaro.

“O Master não conseguiu chegar nos fundos de pensão federais porque o Palácio do Planalto já sabia que o Master era um esquema que envolvia políticos da direita.

Então, o Master tentou a previdência de estados e municípios”, diz um ex-integrante da equipe econômica que acompanhou as discussões na época e pediu o anonimato.


Além dos RPPS, Vorcaro simulava a venda de carteiras de créditos para o BRB, o banco do governo de Ibaneis Rocha, do MDB, que servia de vaca leiteira do Master.

Essas operações só foram descobertas em março de 2025, quando o BRB formalizou uma proposta para comprar o banco – negócio que o BC não autorizou. A relação Master-BRB era um escárnio.

Um relatório da Procuradoria-Geral da República que embasou o primeiro pedido de prisão de Vorcaro levanta um questionamento elementar: como o Master, que no final de 2024 tinha 2 bilhões de reais em carteiras de crédito consignado, conseguiu vender 8 bilhões em carteiras ao BRB naquele ano e 6,7 bilhões em 2025? A resposta era simples: o Master vendia o que não tinha.

O mesmo documento da PGR afirma: “Há provas robustas da existência de um esquema criminoso para transferir recursos financeiros do BRB ao Master, de forma fraudulenta, por meio de falsidades documentais, empresas e pessoas interpostas, bem como de encobrir as transações e ludibriar a fiscalização do BC.” (Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, só foi preso em abril passado.)


Os caminhos para captar recursos eram múltiplos – e sempre enrolados. O Master também passou a comprar créditos inadimplentes de empresas altamente endividadas.


O caso mais acintoso – e cruel – de captação de recursos no mercado privado pelo Master deu-se com a Oncoclínicas, uma rede de hospitais e clínicas especializada no tratamento de câncer.

Aproveitando as dificuldades financeiras que a empresa enfrentava, Vorcaro apresentou-se como seu salvador com uma condição: pagaria 1,5 bilhão de reais desde que o dono da Oncoclínicas, o médico Bruno Ferrari, mantivesse o dinheiro aplicado no Master – e assim, com seu patrimônio inflado, Vorcaro poderia emitir mais CDBs. Ferrari aceitou e a Oncoclínicas, recapitalizada, começou a se endividar – e suas ações passaram a cair.

Em seguida, o gestor Renato Azevedo, da Latache, nome de Vorcaro dentro da Oncoclínicas, destituiu Ferrari.

Depois, com a quebra do Master, a Oncoclínicas ficou pior do que estava. Em 2024, antes da chegada de Vorcaro e sua turma, a rede chegou a ter um lucro de 106 milhões de reais.

Em 2025, o prejuízo bateu em 1,4 bilhão de reais. Com seus malabarismos, Vorcaro conseguiu praticamente destruir uma rede de clínicas que empregava 18% dos oncologistas do Brasil e tratava de milhares de pessoas.


Ao longo de 2025, o Banco Central continuou enviando ofícios para pedir que o Master reequilibrasse suas contas e apresentasse um plano de reestruturação.

Nos bastidores, o diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino Santos, tentava construir uma solução de mercado, antes de tomar conhecimento das operações fraudulentas do BRB.

Na CPI do Crime Organizado, Gabriel Galípolo afirmou que todas as opções precisavam ser esgotadas antes de um desfecho drástico.

Dentro do próprio governo, porém, ele era visto como refratário à liquidação, em contraste com Fernando Haddad, que ligou, mais de uma vez, para o presidente do BC pedindo o encerramento do Master.

Ao lembrar que servidores do BC até hoje respondem judicialmente por liquidações passadas, Galípolo deixou claro que preferia priorizar soluções de mercado.

“A gente precisa testar todas as alternativas de mercado antes de liquidar um banco”, disse.


Thiago Rodrigues Cavalcanti, que preside a associação dos auditores do BC, relata que, embora não possa falar em nome da autarquia, o Master começou a ser tratado como investigado no momento da análise de sua compra pelo BRB.

Naquela altura, todo o trabalho de análise passou a ser feito com a preocupação de proteger os servidores de possíveis processos, caso o Master viesse a ser liquidado.

“Em última instância, o cara que gasta 200 milhões numa festa não precisa de tudo isso para ferrar um servidor com a Justiça pelos próximos sessenta anos”, afirma.

O Banco Central foi procurado pela reportagem, mas não respondeu ao pedido de entrevista.


Conhecendo a tibieza do BC, Daniel Vorcaro achou que ainda tinha espaço para uma última manobra: vender o Master para a gestora Fictor. Era uma ousadia.

A Fictor nem tinha capital suficiente para comprar o banco e prosperara à base de uma fraude rudimentar: vendia contratos de um instrumento jurídico conhecido pela sigla SCP como se fossem aplicações de renda fixa.

Com o dinheiro que recolhia, irrigava o patrimônio dos sócios.

Mais uma vez, o trambique era conhecido no mercado. Mais uma vez, a CVM já havia recebido denúncias robustas sobre a atuação da Fictor e nem abriu um processo sancionador contra seus controladores.


Num derradeiro estratagema para salvar o Master, a compra pela Fictor foi fechada às pressas no dia 17 de novembro do ano passado.

No fim da tarde, numa mensagem ao ministro Alexandre de Moraes, Vorcaro avisou: “Fiz uma correria aqui para tentar salvar.”

Mais tarde, em outra mensagem, disse que a trama podia “inibir” uma ação policial no dia seguinte – o que chamou de “batidas do Esteves”. Não deu certo.

Assim que o negócio foi anunciado, a Fictor derreteu. (Entre os credores da Fictor estava a Sefer, a gestora do patrimônio pessoal de Vorcaro.

Daí, veio outra suspeita: Vorcaro estava ele próprio financiando a compra do Master e ficaria no seu comando por intermédio de terceiros.)

Na noite daquele 17 de novembro, Vorcaro foi preso quando tentava embarcar para Dubai. A epopeia criminosa do Master chegou ao fim, mas deixou imenso rastro na Faria Lima.

A CVM está moribunda e tão desaparelhada que até terceiriza a fiscalização para a Anbima, a associação mantida pelo mercado financeiro.

O papel da Anbima é promover a “autorregulação”, coisa que só funciona em ambientes onde se considera que todos agem de boa-fé. Os diretores da Anbima costumam vir de instituições financeiras tradicionais. 


Fiscalizar esse universo, no entanto, está longe de ser uma tarefa trivial.


Para tornar a fiscalização ainda mais complexa, esses ativos difíceis de avaliar vêm, em geral, empacotados em fundos fechados e exclusivos, de um único ou de poucos cotistas.

Eles proliferaram muito entre 2018 e 2025. No conjunto dos mais de 30 mil fundos no Brasil, cerca de 3 mil são fechados e exclusivos.

Por natureza, eles são menos transparentes. Não são obrigados a divulgar publicamente suas carteiras, nem seus demonstrativos financeiros.

A identidade dos cotistas é sigilosa e, não raro, um fundo pertence a outro, que pertence a um terceiro, criando assim sucessivas camadas que dificultam rastrear o dinheiro e identificar seus beneficiários.

“Para quem tem predisposição a cometer fraude sempre vão aparecer brechas. Não existe um sistema totalmente à prova de balas”, diz. André entende que a Reag é um caso isolado.

A Reag representa menos de 4% do mercado de fundos, que movimenta 10,8 trilhões de reais.

Em 2024, com um patrimônio de 4,7 bilhões de reais, o Master equivalia a 0,63% do setor bancário, que é de 750 bilhões de reais.

O economista Roberto Troster, que participou da criação do FGC e testemunhou momentos tensos com a quebra de bancos como o Santos e o Econômico, afirma que a lista de culpados é longa.

Além do BC, da CVM e do próprio FGC, ele diz que as empresas de auditoria (que sempre chancelaram as carteiras da Reag e do Master), as agências de classificação de risco (que elevaram a nota do Master um ano antes de sua quebra) e as próprias tesourarias dos bancos (que sabiam dos riscos e das trapaças e nada fizeram a respeito) também são responsáveis.

“Quem denunciou as operações foi o sindicato dos bancários, não os bancos!”, espanta-se Troster. De fato, o Sindicato dos Bancários de Brasília farejou as operações esquisitas do Master e do BRB e denunciou à CVM e ao BC.


A tolerância aos ardis e esquisitices do mercado financeiro ficou evidente. Tome-se o caso da Fictor.

A gestora só desmoronou depois do anúncio da compra do Master porque todo mundo sabia de sua forma de operar fraudulenta. Parece que só a CVM não sabia.

A autarquia emitiu 37 ordens para suspender a comercialização de títulos irregulares ao longo de 2025 – é a stop order, no jargão do mercado.

Nenhuma das 37 referia-se às SCPs da Fictor, mesmo que peixes graúdos do mercado, como o BTG e a XP, tenham denunciado as tramoias da gestora.


Na verdade, ocorria até o oposto. Um dos diretores da Fictor, André Vasconcellos, tentava se cacifar politicamente para virar diretor da CVM, contando com o apoio público de João Pedro Nascimento, o indicado de Flávio Bolsonaro que presidiu a CVM até o ano passado.

Enquanto isso, a Fictor tentava estreitar laços com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Boa parte desse mundo – ou desse submundo – continua de pé.


Reag onipresente
O fundo Rhodonite, aquele que viabilizou as operações de lavagem de dinheiro de Beto Louco e Primo e depois se tornou um veículo do Master, continua até hoje em operação.

Beto Louco e Primo oferecem devolver 1 bilhão de reais em troca de uma delação em que prometem revelar o mapa da corrupção, mas a Procuradoria-Geral da República não aceitou até agora.

A Reag, que mudou de nome para CBSF e passou a ser controlada pela Planner, continua como gestora de fundos, embora Mansur tenha se afastado da empresa.

A Planner, por sua vez, aquela que ofereceu o “fundo de prateleira” para que o grupo de criminosos participasse do leilão no Porto de Santos, segue operante. Com o escândalo da Reag, herdou os fundos dos irmãos Batista.


Outros braços da Reag que não foram comprados pela Planner seguem operando os fundos encrencados.

Outros quatro fundos sob investigação, tanto por desvios de recursos no caso ligado ao PCC quanto nas trapaças do caso Master, continuam em funcionamento.

São eles: Olaf 95, Hans 95, Maia 95 e Anna. Os quatro fundos compartilham a mesma gestora. Qual? A Reag.






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Toni Remigio
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