Ana Clara Costa na piauí 236 e as entranhas da Faria Lima
Um panorama do ecossistema onde floresceram os esquemas que culminaram no escândalo Master
Ao caro leitor e à estimada leitora,
Este
escrevinhador que ora vos fala é, como se pode perceber, um
entusiasta da estoica e gloriosa (sem trocadilho com o time do
coração do seu fundador) revista piauí.
Como tal, é
seu assinante e, leitor desde a primeira edição, possui todas as 236 publicações impressas e aquela que talvez seja a sua única extra, em homenagem
ao vencedor do Prêmio Fields, o “Nobel” da matemática, Arthur
Ávila, ciência exata que é outra das paixões de João Moreira
Salles, o alvinegro mecenas da publicação.
Aliás, a razão social da revista chama-se “Editora Alvinegra”. Dito isso, cumpre registrar a escolha por mais esta matéria “gigante” assinada pela repórter Ana Clara Costa, brilhante como costumam ser as repórteres da piauí_236.
Após a (justa) homenagem ao saudoso Adnan Demachki, a reportagem cujo resumo – sim, resumo -, que segue abaixo traça um panorama dos meandros, engrenagem e rede de falcatruas, leniência e desídia por trás de órgãos de controle como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o próprio Banco Central (BC), cujas consequências permitem a atuação, delinquências e crescimento de bancos fajutos como o Master, de Daniel Vorcaro, e a Reag, corretora financeira do não menos polêmico João Carlos Mansur.
O texto de Ana Clara Costa possui cerca de 28 laudas em fonte Times New Roman 12. Abaixo, seguem outras 16, em Arial, daquilo que considerei útil como informação, e necessário, na condição de alerta, tanto aos que poupam no mercado financeiro, quanto àqueles que guardam seus recursos em previdências privadas ou públicas em fundos estaduais, municipais ou mesmo federais.
Todo cuidado é pouco quando se desbaratam esquemas em Petrus (Petrobras), Previ (BB), ou Rio Previdência (estado do RJ) e Amprev, do Amapá, os dois últimos, ambos alvos do esbulho do trambiqueiro torrador do dinheiro alheio Daniel Vorcaro et caterva.
Leiam com atenção, releiam os trechos negritados e tirem o chapéu para o trabalho dessa jornalista safa, corajosa e up to date.
***
A
simbiose: como o crime e as finanças convivem na Faria Lima
Faria
Lima: o BTG e a XP discutiram a suspensão de negociações com o
Master, mas o BC pediu cautela, alegando que isso poderia gerar uma
corrida bancária e uma crise de liquidez no sistema
Por
Ana Clara Costa
Na
Faria Lima, o crime de lavagem de dinheiro não costuma ser chamado
pelo que é. Habitualmente, recorre-se a eufemismos como “infração
grave” ou, melhor ainda, “gerenciamento inadequado de risco de
liquidez”.
As primeiras descobertas eram falhas de governança. Havia regras de compliance ignoradas
Aos
poucos, foram surgindo irregularidades operacionais. A Reag alocava
ativos em fundos de forma indevida, reavaliava patrimônios sem
critérios consistentes e deixava de divulgar demonstrações
financeiras obrigatórias.
Mais adiante, as
inconsistências deixaram de parecer mera desorganização, causando
visível espanto até em Van Dijk.
Descobriu-se, por
exemplo, que a Reag usava terrenos para inflar artificialmente o
patrimônio de fundos e criar ativos sem lastro, produzidos apenas
para encorpar investimentos. Era uma operação altamente
irregular.
Enquanto as reuniões aconteciam, a Reag
apresentou à Anbima o tal “termo de compromisso”.
A
entidade não aceitou por concluir que o problema era sistêmico, não
pontual. E então a coisa explodiu no dia 28 de agosto, quando as
operações Quasar, Tank e Carbono Oculto, deflagradas pela Polícia
Federal, mostraram que a Reag movimentava ao menos dez fundos para
lavar dinheiro de empresas do setor de combustíveis que faziam
negócios com o Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior
organização criminosa do país.
João Carlos Mansur não
era apenas o dono da gestora. Era também sócio de um dos principais
fundos do esquema, o Mabruk II.
Além
de ter abrigado operações sob suspeita de auxiliar o crime
organizado, a Reag também usou sua estrutura para inflar ativos que
permitiram ao Banco Master de Daniel Vorcaro expandir e alavancar
seus negócios.
Sem a Reag na retaguarda, criando ativos
fictícios em fundos do Master, o banco não conseguiria irrigar o
mercado com a cachoeira de certificados de depósito bancários
(CDBs) mais rentáveis que a média, o que terminou causando o rombo
fenomenal de 50 bilhões de reais no Fundo Garantidor de Créditos
(FGC), o órgão que garante aplicações de até 250 mil reais para
qualquer investidor.
Apesar de todas as suspeitas, a Faria Lima convivia bem com a Reag. A Anbima, por exemplo, só retirou seu “selo” de boas práticas e excluiu a gestora de seu quadro de associados em 15 de janeiro deste ano, data em que a Reag foi liquidada pelo Banco Central.
A
CVM, que havia instaurado 77 processos contra a gestora, transformou
apenas oito deles em acusação e até hoje não condenou ninguém.
Os advogados de Mansur negam que ele tenha cometido qualquer crime.
A
Reag e o Banco Master são exemplos eloquentes de como a Faria Lima é
tolerante com os seus pares que praticam ilicitudes.
Na
década passada, a gestora já havia sido investigada por seu
envolvimento no desvio de recursos de fundos de previdência geridos
por estados e municípios, conhecidos pela sigla RPPS.
Esses
fundos bilionários – como a Rioprevidência dos servidores
estaduais do Rio de Janeiro ou a BHPrev, dos funcionários da
Prefeitura de Belo Horizonte – não sofrem a mesma fiscalização
dos fundos federais, como a Funcef da Caixa Econômica e a Previ do
Banco do Brasil.
Os RPPS são supervisionados por um grupo
diminuto de servidores do Ministério da Previdência Social.
Em
meados de 2017, ignorando que recursos previdenciários devem ser
aplicados em investimentos conservadores, a Reag criou um fundo
imobiliário com dinheiro de RPPS.
Portanto, um fundo
arriscado, sem garantia de retorno, coisa que só o pessoal do “lado
B” da Faria Lima ousa fazer.
A Reag fez – e fez mais
que isso. Quando a CM Capital, a administradora espanhola que
fiscalizava o fundo imobiliário, notou as primeiras violações de
regras e cobrou explicações, Mansur substituiu-a por outras menos
exigentes.
Aí, começou a nascer todo um ecossistema
paralelo, com o qual a Reag – e em seguida o Master – pintou e
bordou na Faria Lima.
A
existência do ecossistema, formado por administradoras alinhadas aos
interesses de Mansur, veio à luz no ano passado com a deflagração
das operações da Polícia Federal e do Ministério Público.
As
investigações revelaram uma rede formada por fintechs e estruturas
de gestão de recursos cuja missão era própria do submundo das
finanças: lavar os milhões de reais oriundos de adulteração e
sonegação no mercado de combustíveis.
O esquema era
comandado por dois empresários, Roberto Leme e Mohamad Mourad,
conhecidos como Beto Louco e Primo.
Parte da venda de
combustíveis abastecia postos controlados pelo PCC, que injetava
dinheiro nas empresas da dupla para que os recursos fossem
lavados.
Segundo a investigação, Beto Louco devolvia 95%
do dinheiro à facção e retinha 5% pelos seus serviços.
A
Reag desempenhava papel-chave no esquema.
Estruturava os
canais financeiros que permitiam à dupla de empresários comprar
ativos às escondidas, como terminais portuários, aeronaves,
imóveis, redes de postos e usinas de álcool, usadas na adulteração
com metanol.
A engrenagem oculta funcionava na Faria Lima,
onde, para obter um salvo-conduto, bastava usar o uniforme do pedaço:
camisas bordadas com iniciais, sapatos Ferragamo e alta relojoaria.
O
arquiteto financeiro do esquema da dupla, de acordo com as
investigações, era o advogado Rogério Garcia Peres, dono da
Altinvest, empresa que ora funcionava como gestora, ora como
administradora dos fundos usados na lavagem. Peres era muito bem
relacionado na Faria Lima.
Seu papel no esquema
clandestino era despistar as autoridades, esvaziando fundos quando
despertavam suspeitas e migrando bilhões em ativos para outras
estruturas.
Mensagens
apreendidas pela polícia mostram Peres em ação, orientando a
criação de um esquema para esconder a participação de Beto Louco
e Primo numa licitação de terminal portuário.
O passo a
passo é claro: parte do dinheiro para comprar o terminal sairia da
conta de uma companhia dos empresários, a Aster, mantida na fintech
BK Bank; outra parte sairia da conta da Aster no Banco do Brasil –
o que mostra que a operação passava pelo sistema financeiro
tradicional.
Em seguida, o dinheiro seria lavado com uma
nota fiscal fictícia, depois convertido em um Fundo de Investimento
em Participações (FIP) e, a partir daí, usado para dar um lance no
certame do terminal no Porto de Santos.
Quando
os irmãos Wesley e Joesley Batista, donos da J&F, estavam
enrolados com a polícia na Operação Lava Jato, os bancos
tradicionais, orientados por seus setores de compliance, tomaram
distância da dupla tóxica.
Mansur, no entanto, lhes deu
guarida e abriu pelo menos sete fundos para os Batista que somavam
quase 18 bilhões de reais em ativos – um favor que os irmãos
nunca esqueceram.
A
partir daí, o ecossistema operou de forma ainda mais integrada,
criando um labirinto de fundos que dificultava o rastreamento do dono
do dinheiro e prestando serviços tanto a Beto Louco e Primo quanto a
Daniel Vorcaro, o dono do Master. No emaranhado de operações e
falsificações, tudo podia se cruzar a qualquer hora.
Num
diálogo revelado pelo portal UOL, um dos principais operadores de
Daniel Vorcaro, Ascendino Madureira, diretor da Master Corretora, faz
pressão para que Artur Martins de Figueiredo, ex-Planner e então
diretor da Trustee, altere o valor de ativos de um fundo de 1 bilhão
para 4 bilhões de reais.
“Porra, não fizeram nada,
cara. A carteira continuou com 1 bi.” A alteração era totalmente
irregular, mas Madureira insistiu em nome da “saúde” do Master:
“Puta, cara, eu sei que é foda, mas isso vai impactar demais o
resultado do banco”, diz.
A
ciranda de abre e fecha fundo, descola recursos para cá e para lá,
adultera valor de ativos aqui e ali acontecia com frequência, seja
para montar operações, ocultar registros ou despistar as
autoridades.
E,
no entanto, as barbaridades se multiplicavam. O Banco Central,
soube-se depois, registrou num relatório que o Master nem sequer lhe
enviava informações sobre risco de crédito.
Acima
de todo esse emaranhado de empresas, Reag, Trustee, Banvox, Planner,
havia uma estrutura em que Daniel Vorcaro depositava mais confiança:
a Sefer Investimentos, de Benjamin Botelho, que atuou como braço
direito do banqueiro, mas também de Maurício Quadrado e do
empresário Nelson Tanure, suspeito de ser o sócio oculto do
Master.
Vorcaro confiava tanto na Sefer de Botelho que lhe
entregou a gestão dos fundos e empresas que controlavam seu
patrimônio pessoal, incluindo seus imóveis milionários e até sua
própria participação no Master.
A relação é tão
estreita que, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, 48% do
patrimônio da Sefer – o equivalente a 9,6 bilhões de reais –
está ligado a Vorcaro e ao Master.
“Quando
você pega a Compliance Zero”, diz o delegado, referindo-se à
operação que prendeu Vorcaro e levantou o véu sobre os crimes do
colarinho branco, “essas figuras – Botelho, Quadrado, Tanure e
Mansur – operam no mercado há mais de trinta anos”.
Todas
essas movimentações – esses desvios de recursos, essas operações
de lavagem de dinheiro, essas manobras para ocultar ativos, esses
sumiços de recursos, essas suspeitas antigas –, tudo isso ocorria
diante dos olhos do mercado.
Sabia-se que o crescimento da
Reag não era orgânico, desconfiava-se da Planner e de Maurício
Quadrado, conhecia-se o histórico de Nelson Tanure e suas operações
sempre no limiar da legalidade e havia ceticismo em relação à
origem da riqueza que permitia a Vorcaro manter gastos que nenhum
outro banqueiro mantinha.
Ainda
assim, embora alheio aos detalhes das maracutaias, o sistema
financeiro tolerava, absorvia e reorganizava as ilegalidades.
Criada
em meados da década de 1970 para pôr ordem no mercado de valores
mobiliários no país, a CVM, incumbida de fiscalizar a Faria Lima,
passou a ser um alvo preferencial do escrutínio público com o
escândalo do Master.
Como é possível que um órgão
regulador tenha deixado passar, sem qualquer sanção, a criação de
fundos bilionários compostos por ativos fictícios, inflados e
irregulares?
Em
março do ano passado, a CVM e o Banco Central enviaram dois
documentos à Polícia Federal que serviram de base para a
deflagração da Operação Compliance Zero.
A essa
altura, o esquema já era insustentável e o Master estava na beira
do abismo.
A
piauí conversou com servidores antigos e atuais da CVM, além de
gestores que lidam com a autarquia com frequência.
O
diagnóstico é de uma entidade depauperada, esvaziada, com orçamento
reduzido e cada vez mais suscetível a pressões políticas,
sobretudo depois das indicações feitas durante o governo de Jair
Bolsonaro.
Num reflexo desse processo de deterioração, a
sede da autarquia, no Centro do Rio, que não passa por uma reforma
há décadas, sofreu uma invasão de ratos no ano passado. A rataria
que mais preocupa, no entanto, não é a dos mamíferos roedores.
Em
2022, Flávio Bolsonaro indicou o advogado João Pedro Nascimento
para presidir a CVM. E aí começou uma mudança de perfil do órgão,
que passou de técnico para político.
Nascimento vinha de
um escritório relativamente pequeno e pouco conhecido no Rio de
Janeiro.
Ao ingressar na autarquia, fontes que conviveram
com ele destacam sua escassa familiaridade com temas técnicos,
combinada com uma forte necessidade de reconhecimento político e
aprovação do mercado, expedientes incompatíveis com a atuação de
um órgão de fiscalização.
Esse ambiente de frouxidão
regulatória se aprofundou com a atuação de outro diretor, Otto
Lobo, cuja indicação era apoiada por magistrados do Rio e em
especial pelo ministro Luiz Fux, do STF.
A
atuação de Lobo no caso da empresa ambiental Ambipar definiu seu
papel dentro da CVM.
Ao aprovar uma manobra que inflou
artificialmente o valor das ações da Ambipar, beneficiando Nelson
Tanure e o Master, Lobo demonstrou disposição explícita para
operar em favor de interesses opacos. No episódio, Nascimento chegou
a votar contra Lobo.
Depois da divergência, deixou a CVM,
abrindo espaço para que Lobo passasse a articular sua ascensão à
presidência.
Já
no governo atual, apesar da oposição do Ministério da Fazenda,
Lobo foi formalmente indicado pelo presidente Lula para comandar a
CVM.
Entre os padrinhos de sua indicação estão
luminares do Centrão, como Davi Alcolumbre, além dos irmãos
Batista e até mesmo Guido Mantega e João Vaccari Neto,
ex-tesoureiro do PT.
Se o nome de Lobo for aprovado pelo
Senado, ele assume o cargo hoje ocupado interinamente por João
Accioly.
Num
dos principais processos envolvendo o Master na CVM, Lobo e Accioly
travaram a pauta, num gesto que pareceu feito sob medida para ajudar
Daniel Vorcaro, que, na época, negociava a venda do Master para o
BRB, o banco estatal de Brasília.
Se arquivassem o
processo, causariam péssima repercussão no mercado. Se punissem
Vorcaro, poderiam atrapalhar a transação com o BRB. Só destravaram
o processo depois que Vorcaro já estava preso.
Em
dezembro passado, quando foi solto, o banqueiro propôs um termo de
compromisso para pagar 13,8 milhões de reais pelos malfeitos.
Accioly, o interino, não aceitou.
Em
uma audiência no Senado, em fevereiro deste ano, Accioly deu sinais
de que sabia da gravidade da situação.
“Os ativos eram
inseridos no fundo por um determinado valor, aparentemente próximo
do real. No momento seguinte, aquele imóvel que valia 100 milhões
magicamente passava a valer 300 [milhões], e essas cotas do fundo
eram vendidas para fundos cujos cotistas são fundos de pensão –
como a gente sabe, problema antigo.”
Para
gestores e advogados que lidam com a CVM, a autarquia está
contaminada pelas mesmas práticas heterodoxas do Judiciário,
sobretudo sob a influência de Lobo.
Há pedidos de vista
sem sentido, que abrem margem para reuniões particulares com
interessados sem a presença dos outros diretores.
“Eu
falei para o meu cliente para não fazermos a reunião porque
seríamos achacados”, afirma um advogado, temeroso da má fama de
Lobo.
Outro fator que desperta desconfianças é sua
presença constante em Brasília, onde se reúne em gabinetes sem
agenda pública.
Em
novembro, com a Compliance Zero na rua e Vorcaro na prisão, Lobo
estava em Nova York num evento chamado Roadshow Inovações
Regulatórias CVM-EUA, acompanhado de Accioly.
Naquele
momento, só havia uma pessoa dando expediente na diretoria
colegiada, a advogada Marina Copola, que já trabalhara na autarquia
antes.
Segundo as mais de dez fontes ouvidas pela piauí
sobre a CVM, Copola é considerada a única ocupante do colegiado com
perfil técnico e credibilidade no mercado.
Até por essa
razão, Copola tem manifestado nos bastidores sua vontade de deixar a
CVM devido à crise de imagem da autarquia.
O
investidor Vladimir Timerman, da Esh Capital, que por anos foi uma
voz solitária denunciando as fraudes do Master sem que os
reguladores lhe dessem ouvidos, afirmou que Velloso era craque em
transformar as investigações sobre a Reag e o Master em meros
ofícios de alerta.
Quando Lobo chegou à CVM como
diretor, Velloso logo se aproximou dele, acompanhando-o em viagens a
Brasília.
Diante dos ataques que Lobo sofreu em razão de
sua imagem pouco confiável, Velloso foi o único servidor a sair em
sua defesa, chamando as acusações de “injustas” e elogiando o
chefe.
As
críticas à atuação da CVM nos casos Reag e Master levaram
servidores de carreira a se mobilizarem.
Eles defendem a
criação de uma cadeira para técnicos no colegiado. Hoje, a
autarquia conta com apenas 379 servidores, bem menos do que os mais
de novecentos que já teve.
O orçamento também encolheu:
caiu 70% na última década, chegando a cerca de 20 milhões de reais
por ano.
Mesmo depois de um aumento recente de 10 milhões,
o valor ainda é considerado insuficiente para lidar com um mercado
que hoje reúne mais de 30 mil fundos de investimento – mais que o
dobro dos Estados Unidos.
Para
os gestores ouvidos pela piauí, a evolução e a internacionalização
do mercado de capitais levaram grandes bancos e gestoras a operar
segundo padrões globais, o que reduziu a relevância da fiscalização
local – e acabou expondo-a à captura por interesses políticos e
financistas.
Um ex-diretor da CVM se diz indignado com o
silêncio do mercado diante da indicação de Lobo. “Se as pessoas
continuarem sem falar nada, ele vai virar presidente da instituição.”
O
mercado continua em silêncio.
Até
a ascensão de Daniel Vorcaro, o banqueiro André Esteves era o
expoente do setor financeiro com mais trânsito junto ao poder desde
a redemocratização do país.
Ecumênico e pragmático,
sempre circulou bem na esquerda e na direita, mantendo pontes com o
Legislativo e o Judiciário, no qual tinha relação especialmente
próxima com o ministro Gilmar Mendes, do STF.
Ao longo do
governo Lula, Esteves aproximou-se de Fernando Haddad, numa relação
que rendeu ganhos a ambos.
O banqueiro ajudou o ministro
na interlocução com o então presidente da Câmara, Arthur Lira
(PP-AL), e atuou para distensionar sua relação com a Faria
Lima.
Quando Haddad cogitou indicar Gabriel Galípolo para
a diretoria do Banco Central, já prevendo que ele iria suceder a
Roberto Campos Neto, Esteves e um de seus sócios, Marcos Maluf,
também próximo de Haddad, trabalharam em favor da
escolha.
Avaliavam que, ao levar um nome alinhado ao
ministro para a autoridade monetária, o BTG ampliaria sua
interlocução no centro da política econômica.
À
custa das viagens em jatinhos, das negociatas via fundos e dos
honorários advocatícios milionários, Vorcaro conquistou espaço
central no Congresso e no STF, mas nunca teve trânsito semelhante no
governo.
Haddad jamais o recebeu, e Lula só o fez por
insistência de Guido Mantega – e ainda assim na presença de cinco
assessores.
Sua abastada cesta de vantagens para abrir
portas contrastava com a estratégia de Esteves, que, sobretudo
depois da Operação Lava Jato, durante a qual chegou a ser preso,
passou a privilegiar métodos mais discretos de relacionamento com o
poder, embora não menos efetivos.
Sua
fórmula, pelo menos desde 2016, é outra: atrair para o banco
egressos de altos cargos da República, estreitando os laços entre
sua instituição e os centros formais de decisão.
Empregou
ex-ministros dos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro, empregou
ex-advogado-geral da União, ex-deputados, filhos de ex-ministro do
Supremo e do atual governador de São Paulo.
Muitos
entraram no banco, outros tantos já saíram, mas o pioneiro desse
movimento de relacionamento continua lá: o ex-ministro da Defesa e
do STF, Nelson Jobim, que segue sendo passageiro frequente do jato
Bombardier do BTG na ponte-aérea São Paulo-Brasília.
Em
sua trajetória, Esteves nunca deixou de envolver-se em alguns dos
grandes contenciosos do país, como a recuperação judicial da
Americanas depois da descoberta do rombo estratosférico de 40
bilhões de reais na empresa.
“Risco Master”
Embora
o BTG, assim como a XP Investimentos e outras plataformas, tenham
distribuído os CDBs hoje sabidamente problemáticos de Vorcaro, o
banco de Esteves foi um dos primeiros agentes de mercado a reagir ao
chamado “risco Master”.
No fim de 2024, por meio de
seus assessores de investimento, o BTG aconselhou seus clientes a não
aportar mais que 250 mil reais em CDBs do Master – exatamente o
teto de cobertura pelo Fundo Garantidor de Créditos. E interrompeu a
distribuição de novos títulos do Master em suas plataformas.
No
início de 2025, a XP também interrompeu a distribuição de novos
títulos. O movimento foi decisivo para selar a derrocada do Master,
que dependia de novas emissões para honrar os compromissos assumidos
e a XP era sua principal distribuidora.
BTG e XP chegaram
a discutir a suspensão total das negociações, inclusive no mercado
secundário, que permitia a venda entre clientes, mas receberam um
pedido inusitado, que ficou escondido até agora: a diretoria de
Fiscalização do Banco Central telefonou aconselhando mais
cautela.
Alegaram que uma interrupção abrupta do BTG e
da XP poderia desencadear uma corrida bancária e resultar numa crise
de liquidez no sistema. E assim o próprio BC contribuiu para manter
ativa a cadeia de ardis do Master.
Para
o BTG, porém, a deterioração do banco de Vorcaro já parecia
inevitável.
Ainda no início de 2025, o BTG deixou de
repassar ao Master os ganhos de uma carteira de crédito de 600
milhões de reais do Credcesta – um cartão de crédito consignado
– na qual ambos detinham em sociedade.
Era um sinal
eloquente de que a Faria Lima sabia o que estava
acontecendo.
Esteves tomou essa decisão porque temia que
novos fluxos não se materializassem em caso de quebra do Master.
Em
uma reunião interna em março de 2025, diretores do BTG concluíram
que seria menos oneroso enfrentar eventuais disputas judiciais por
descumprimento contratual do que arcar com um possível default da
operação.
Enquanto
a crise do Master parecia não existir para os órgãos reguladores,
os primeiros movimentos da Faria Lima foram no sentido de sempre:
lucrar.
O BTG saltou à frente e se preparou para ganhar
com qualquer desfecho do caso. Em 2025, um diretor do banco de
Esteves, Oswaldo de Assis Filho, ocupava – e ainda ocupa – uma
cadeira no Conselho Consultivo do FGC.
Entre os
integrantes do FGC já havia consenso de que o Master extrapolara
todos os limites. Mas o problema não era mais o banco em si.
Diante
da dimensão das distorções, crescia o temor de que uma eventual
quebra produzisse efeitos em cadeia, atingindo o próprio BTG e, em
última instância, o sistema financeiro.
Com
experiência em situações de estresse, o BTG tinha potencial para
desempenhar papel central no dia seguinte à quebra do Master.
Sua
área de “ativos estressados”, conhecida no jargão como special
situations ou special sits, é especializada em identificar empresas
em dificuldade e extrair valor de suas partes mais rentáveis.
Não
surpreende, portanto, que Esteves tenha se movimentado para
estruturar uma solução de mercado para assumir os ativos
considerados mais saudáveis do Master e evitar sua liquidação.
Na
proposta, segundo publicou o colunista Lauro Jardim, em O Globo, o
FGC entraria com recursos para honrar os compromissos do banco,
Vorcaro deixaria o negócio e o BTG ficaria com os ativos de seu
interesse, como a carteira do Credcesta.
A
proposta não avançou. A essa altura, os bancos já disputavam entre
si.
As instituições que contribuem para o FGC, prevendo
a derrocada do Master, avaliaram que o fundo arcaria com a maior
parte das perdas, enquanto elas próprias acabariam assistindo ao BTG
capturar os ativos mais valiosos.
Quando a negociação
veio a público, o BTG negou envolvimento. Queria evitar dar a
impressão de que interferia diretamente na situação do Master.
A
crise do Master, assim, estava confrontando dois banqueiros de alta
voltagem.
Esteves
x Vorcaro
A relação de Vorcaro com Esteves
era atravessada por admiração, uma certa dose de inveja e um
quinhão de inimizade.
Vorcaro gostava de mostrar a
interlocutores mensagens de WhatsApp em que Esteves elogiava
determinados ativos do Master, o que o deixava visivelmente
envaidecido.
Nas mensagens que Vorcaro trocava com sua
ex-noiva, Martha Graeff, Esteves era assunto recorrente.
Ele
avisava quando estava com Esteves, quando passava pela sala de
reuniões de Esteves, quando Esteves prometia aparecer em seu
camarote na Sapucaí, quando Esteves ofereceu sua vinícola na Itália
para hospedar o casal – que recusou o convite.
Apesar
disso, Vorcaro se descreve à ex-noiva como um perseguido. Diz que
Esteves estaria determinado a destruí- lo, manipulando o Banco
Central e plantando notícias desfavoráveis na imprensa.
Em
diversas ocasiões, afirma estar em “guerra” e identifica o
banqueiro como o seu “inimigo”.
Dos
diálogos, depreende-se que Esteves tentou comprar o Master em
diferentes momentos, inclusive durante o período em que Vorcaro
negociou a venda para o BRB. Vorcaro descreve Esteves como
“desesperado”.
Quando o anúncio da venda foi feito,
em março do ano passado, relata com risos – “kkkk” – que
Esteves procurou o presidente do BC, Gabriel Galípolo, para reclamar
do negócio.
Nas conversas, Vorcaro também se mostra
envaidecido com a repercussão do caso envolvendo seu banco.
“A
batida do Esteves”
Em uma das mensagens que
trocou com Alexandre de Moraes no dia de sua prisão, em novembro do
ano passado, Vorcaro já sabia que seria alvo da Polícia Federal e
se referiu à investida como “a batida do Esteves”.
Se
a obsessão de Vorcaro em estreitar laços com ministros do STF
tinha, por um lado, a busca por respaldo político, também
funcionava como demonstração de poder diante do concorrente e de
sua influência na corte.
Alexandre de Moraes nunca
dera tanta abertura a Esteves quanto deu a Vorcaro. E, a exemplo de
Vorcaro, passou a encarar Esteves como inimigo.
A
interlocutores, Moraes disse acreditar que as informações sobre o
milionário contrato de sua mulher com o Master haviam sido obtidas
pela equipe econômica do governo e vazadas à imprensa por
Esteves.
Chegou a desconvidar seu amigo Rodrigo Maia, ex-
presidente da Câmara dos Deputados, para sua festa de aniversário,
depois que Maia anunciou sua entrada no BTG no início deste ano.
Hoje, fizeram as pazes.
Esteves tende a baixar a fervura
da briga, enquanto Gilmar Mendes atua para apaziguar a relação
entre Moraes e o banqueiro.
Mas o dono do BTG continua
preocupado, pois teme acabar envolvido numa investigação criminal
autorizada por Moraes – a que apura um possível crime de insider
trading.
A
investigação, aberta em julho de 2025, quer identificar quem no
mercado lucrou cerca de 500 milhões de reais no dia em que Donald
Trump anunciou o tarifaço contra o Brasil.
40
anos e 220 milhões
Em setembro de 2023, talvez
pelo histórico de inação dos órgãos reguladores, Daniel Vorcaro
parecia tranquilo na comemoração de seus 40 anos em Taormina, na
Itália.
A festa reuniu artistas como Coldplay, Andrea
Bocelli, David Guetta e Michael Bublé, e incluía hospedagem em
hotel cinco estrelas para todos os convidados. O mimo custou 220
milhões de reais.
O banqueiro já era conhecido pelo
padrão exorbitante de gastos e por financiar eventos com a presença
de autoridades.
Ainda assim, os dias em Taormina
surpreenderam até interlocutores habituados a extravagâncias.
Na
mesma época, o Banco Central estava preparando uma medida destinada
a barrar a farra que o Master vinha fazendo com os precatórios, como
são chamadas as dívidas do poder público que já foram
reconhecidas por decisão judicial definitiva – e, portanto, serão
pagas, mais cedo ou mais tarde.
Os precatórios eram um
instrumento útil para o esquema do Master: ao inflá-los em seus
registros, como sempre fazia por meio de sua rede de mutretas,
Vorcaro criava espaço para seu banco emitir mais dívida, sobretudo
os CDBs, e assim mantinha sua roda girando.
O BC – assim
como a Faria Lima inteira – sabia que o Master manipulava os
precatórios, mas o banqueiro parecia despreocupado em Taormina.
E
tinha razão. Um mês depois da festança na Itália, o BC enfim
baixou novas medidas para reduzir a margem de manobra do Master com
os precatórios, mas eram tão brandas que o banco continuou seus
malabarismos com os papéis.
Nem sofreu qualquer tipo de
punição. Mais tarde, quando o Master já estava nas cordas em 2025,
o BTG cresceu o olho nos precatórios, mesmo sabendo que os valores
estavam inflados.
Um lote que o Master registrava com
valor de 8,7 bilhões de reais, o BTG calculava que valia cerca de 3
bilhões.
Em outro, num caso antigo envolvendo o Instituto
do Açúcar e do Álcool, o Master contabilizava os precatórios em
cerca de 1,5 bilhão de reais. Para o BTG, que já analisara a
documentação, não valiam nem 100 milhões. Mesmo assim, tinham
algum valor.
A
leveza com que o BC atuou nos precatórios do Master explicou-se mais
tarde. Na época, os principais cargos da área responsável pelo
caso eram ocupados por funcionários que, hoje, estão afastados da
função e sob investigação devido à suspeita de que receberam
propina para atender aos interesses de Vorcaro.
Mensagens
de WhatsApp e uma sindicância do BC sugerem que cada funcionário
recebeu pelo menos 4 milhões de reais de Vorcaro.
Paulo
Sérgio Neves de Souza, o ex-diretor de fiscalização, e Belline
Santana, o chefe do departamento de supervisão bancária,
aparentemente vinham atuando como interlocutores do Master no BC.
(Ambos usam hoje tornozeleira eletrônica.)
Quando
terminou seu mandato em 2023, o diretor Paulo Souza pediu a Roberto
Campos Neto para permanecer no cargo.
Como o preenchimento
é de nomeação do presidente da República, Campos Neto chegou a
fazer um apelo para que Lula mantivesse Souza como diretor.
Lula,
que queria colocar no posto um servidor negro, optou por Ailton de
Aquino Santos, um dos mais experientes servidores da área.
Campos
Neto, então, atendeu ao pedido incomum de Souza para, de algum modo,
permanecer na área – e assim criou o cargo de “chefe-adjunto”
da supervisão apenas para abrigar Souza.
Com isso, o
adjunto pôde continuar atuando na área em favor do Master. O caso
mostra que a contaminação do esquema de Vorcaro chegou aos mais
altos escalões do BC.
Em
2024, apesar das crescentes dificuldades para levantar capital,
Vorcaro continuou exibindo tranquilidade e não alterou sua rotina
pública.
O Master seguiu patrocinando eventos com a
presença de autoridades, em especial do Judiciário.
Em
abril, despejou 38,7 milhões de reais para bancar o Fórum Jurídico
Brasil de Ideias, em Londres, ao qual compareceram 24 autoridades,
entre elas os ministros Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias
Toffoli.
Também estavam o procurador-geral Paulo Gonet e
o diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, que hoje investigam
o banco.
Todos ficaram hospedados no hotel The Peninsula,
cuja diária ultrapassava 6 mil reais.
A
essa altura, o BC já estava identificando uma nova leva de
irregularidades no Master.
De modo geral, alastrava-se a
percepção de que o modelo de remuneração dos CDBs era
impraticável, tal o nível de endividamento do banco.
Em
2024, Vorcaro precisava captar pelo menos 15 bilhões de reais para
reequilibrar o balanço do Master e pagar os investidores.
Não
conseguiu mais do que 2 bilhões. Mas seu telhado de vidro na Faria
Lima continuava intacto.
No
ambiente de tamanha leniência, o Master seguiu em frente. Só em
2024, o BC mandou nove ofícios pedindo ao banco que arrumasse
dinheiro para honrar os rendimentos de seus títulos.
Um
gestor da Faria Lima, que avaliou um bloco de ativos do Master nessa
época, percebeu um alto “nível de sofisticação da
sacanagem”.
“Em uma operação que analisamos, o
Master comprava um título já com opção de venda. Na prática,
fingia a aquisição apenas para inflar o valor do ativo”, diz o
interlocutor, que tampouco denunciou o que viu a alguma autoridade.
“Assimetria
informacional”
Havia ainda indícios de fraude
na prestação de informações sobre risco de crédito, o que
mascarava a insuficiência de capital do banco. Na prática, a
manobra fazia parecer que o Master tinha cerca de 900 milhões de
reais a mais do que de fato possuía.
O BC, porém, tal
como o mercado que gosta de recorrer a eufemismos, referia-se a essas
suspeitas como “impropriedades contábeis”, “informações
inexatas” e, a melhor de todas, “assimetria informacional”.
Roberto
Campos Neto deixou a presidência do BC em 31 de dezembro de 2024.
Nos bastidores, diz que não tinha conhecimento do problema do
Master, já que a fiscalização de bancos médios não chegava à
sua mesa.
A alegação seria plausível não fosse o fato
de que ele circulava no mesmo ambiente em que todos comentavam que a
conta do Master não fechava.
Não à toa, a nova regra
sobre os precatórios – amena, mas ainda assim uma nova regra –
surgiu por ordem de Campos Neto, numa evidência de que ele não
estava alheio aos problemas. Apesar de tudo, um ex-sócio do BTG que
acompanhou de perto a crise do Master defende Campos Neto:
“As
pessoas batem nele, mas ele tentou uma saída negociada. Liquidar é
um trauma.”
1,8
bilhão de reais
Enquanto se evitava o trauma da
liquidação, o Master pulava de fraude em fraude para cobrir seus
rombos. Como fizera no passado, voltou a morder os fundos de pensão
de estados e municípios, os chamados RPPS, valendo-se da escassa
fiscalização.
De 2023 em diante, fez 41 operações para
fisgar dinheiro de pensionistas, capturando mais de 1,8 bilhão de
reais. O grosso veio da Rioprevidência, do então governador Cláudio
Castro, do PL.
O segundo maior pagador foi a Amprev, fundo
do Amapá, então presidido pelo ex-tesoureiro de campanha do senador
Davi Alcolumbre, do União Brasil.
O BC de Campos Neto
concordou com essa caça aos fundos públicos, pois sabia que o
mercado privado não colocaria mais dinheiro na mão de Vorcaro.
“O
Master não conseguiu chegar nos fundos de pensão federais porque o
Palácio do Planalto já sabia que o Master era um esquema que
envolvia políticos da direita.
Então, o Master tentou a
previdência de estados e municípios”, diz um ex-integrante da
equipe econômica que acompanhou as discussões na época e pediu o
anonimato.
Além
dos RPPS, Vorcaro simulava a venda de carteiras de créditos para o
BRB, o banco do governo de Ibaneis Rocha, do MDB, que servia de vaca
leiteira do Master.
Essas operações só foram
descobertas em março de 2025, quando o BRB formalizou uma proposta
para comprar o banco – negócio que o BC não autorizou. A relação
Master-BRB era um escárnio.
Um relatório da
Procuradoria-Geral da República que embasou o primeiro pedido de
prisão de Vorcaro levanta um questionamento elementar: como o
Master, que no final de 2024 tinha 2 bilhões de reais em carteiras
de crédito consignado, conseguiu vender 8 bilhões em carteiras ao
BRB naquele ano e 6,7 bilhões em 2025? A resposta era simples: o
Master vendia o que não tinha.
O mesmo documento da PGR
afirma: “Há provas robustas da existência de um esquema criminoso
para transferir recursos financeiros do BRB ao Master, de forma
fraudulenta, por meio de falsidades documentais, empresas e pessoas
interpostas, bem como de encobrir as transações e ludibriar a
fiscalização do BC.” (Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB,
só foi preso em abril passado.)
Os
caminhos para captar recursos eram múltiplos – e sempre enrolados.
O Master também passou a comprar créditos inadimplentes de empresas
altamente endividadas.
O
caso mais acintoso – e cruel – de captação de recursos no
mercado privado pelo Master deu-se com a Oncoclínicas, uma rede de
hospitais e clínicas especializada no tratamento de
câncer.
Aproveitando as dificuldades financeiras que a
empresa enfrentava, Vorcaro apresentou-se como seu salvador com uma
condição: pagaria 1,5 bilhão de reais desde que o dono da
Oncoclínicas, o médico Bruno Ferrari, mantivesse o dinheiro
aplicado no Master – e assim, com seu patrimônio inflado, Vorcaro
poderia emitir mais CDBs. Ferrari aceitou e a Oncoclínicas,
recapitalizada, começou a se endividar – e suas ações passaram a
cair.
Em seguida, o gestor Renato Azevedo, da Latache,
nome de Vorcaro dentro da Oncoclínicas, destituiu Ferrari.
Depois,
com a quebra do Master, a Oncoclínicas ficou pior do que estava. Em
2024, antes da chegada de Vorcaro e sua turma, a rede chegou a ter um
lucro de 106 milhões de reais.
Em 2025, o prejuízo bateu
em 1,4 bilhão de reais. Com seus malabarismos, Vorcaro conseguiu
praticamente destruir uma rede de clínicas que empregava 18% dos
oncologistas do Brasil e tratava de milhares de pessoas.
Ao
longo de 2025, o Banco Central continuou enviando ofícios para pedir
que o Master reequilibrasse suas contas e apresentasse um plano de
reestruturação.
Nos bastidores, o diretor de
Fiscalização, Ailton de Aquino Santos, tentava construir uma
solução de mercado, antes de tomar conhecimento das operações
fraudulentas do BRB.
Na CPI do Crime Organizado, Gabriel
Galípolo afirmou que todas as opções precisavam ser esgotadas
antes de um desfecho drástico.
Dentro do próprio
governo, porém, ele era visto como refratário à liquidação, em
contraste com Fernando Haddad, que ligou, mais de uma vez, para o
presidente do BC pedindo o encerramento do Master.
Ao
lembrar que servidores do BC até hoje respondem judicialmente por
liquidações passadas, Galípolo deixou claro que preferia priorizar
soluções de mercado.
“A gente precisa testar todas as
alternativas de mercado antes de liquidar um banco”, disse.
Thiago
Rodrigues Cavalcanti, que preside a associação dos auditores do BC,
relata que, embora não possa falar em nome da autarquia, o Master
começou a ser tratado como investigado no momento da análise de sua
compra pelo BRB.
Naquela altura, todo o trabalho de
análise passou a ser feito com a preocupação de proteger os
servidores de possíveis processos, caso o Master viesse a ser
liquidado.
“Em última instância, o cara que gasta 200
milhões numa festa não precisa de tudo isso para ferrar um servidor
com a Justiça pelos próximos sessenta anos”, afirma.
O
Banco Central foi procurado pela reportagem, mas não respondeu ao
pedido de entrevista.
Conhecendo
a tibieza do BC, Daniel Vorcaro achou que ainda tinha espaço para
uma última manobra: vender o Master para a gestora Fictor. Era uma
ousadia.
A Fictor nem tinha capital suficiente para
comprar o banco e prosperara à base de uma fraude rudimentar: vendia
contratos de um instrumento jurídico conhecido pela sigla SCP como
se fossem aplicações de renda fixa.
Com o dinheiro que
recolhia, irrigava o patrimônio dos sócios.
Mais uma
vez, o trambique era conhecido no mercado. Mais uma vez, a CVM já
havia recebido denúncias robustas sobre a atuação da Fictor e nem
abriu um processo sancionador contra seus controladores.
Num
derradeiro estratagema para salvar o Master, a compra pela Fictor foi
fechada às pressas no dia 17 de novembro do ano passado.
No
fim da tarde, numa mensagem ao ministro Alexandre de Moraes, Vorcaro
avisou: “Fiz uma correria aqui para tentar salvar.”
Mais
tarde, em outra mensagem, disse que a trama podia “inibir” uma
ação policial no dia seguinte – o que chamou de “batidas do
Esteves”. Não deu certo.
Assim que o negócio foi
anunciado, a Fictor derreteu. (Entre os credores da Fictor estava a
Sefer, a gestora do patrimônio pessoal de Vorcaro.
Daí,
veio outra suspeita: Vorcaro estava ele próprio financiando a compra
do Master e ficaria no seu comando por intermédio de terceiros.)
Na
noite daquele 17 de novembro, Vorcaro foi preso quando tentava
embarcar para Dubai. A epopeia criminosa do Master chegou ao fim, mas
deixou imenso rastro na Faria Lima.
A CVM está moribunda
e tão desaparelhada que até terceiriza a fiscalização para a
Anbima, a associação mantida pelo mercado financeiro.
O
papel da Anbima é promover a “autorregulação”, coisa que só
funciona em ambientes onde se considera que todos agem de boa-fé. Os
diretores da Anbima costumam vir de instituições financeiras
tradicionais.
Fiscalizar
esse universo, no entanto, está longe de ser uma tarefa trivial.
Para
tornar a fiscalização ainda mais complexa, esses ativos difíceis
de avaliar vêm, em geral, empacotados em fundos fechados e
exclusivos, de um único ou de poucos cotistas.
Eles
proliferaram muito entre 2018 e 2025. No conjunto dos mais de 30 mil
fundos no Brasil, cerca de 3 mil são fechados e exclusivos.
Por
natureza, eles são menos transparentes. Não são obrigados a
divulgar publicamente suas carteiras, nem seus demonstrativos
financeiros.
A identidade dos cotistas é sigilosa e, não
raro, um fundo pertence a outro, que pertence a um terceiro, criando
assim sucessivas camadas que dificultam rastrear o dinheiro e
identificar seus beneficiários.
“Para quem tem
predisposição a cometer fraude sempre vão aparecer brechas. Não
existe um sistema totalmente à prova de balas”, diz. André
entende que a Reag é um caso isolado.
A Reag
representa menos de 4% do mercado de fundos, que movimenta 10,8
trilhões de reais.
Em 2024, com um patrimônio de 4,7
bilhões de reais, o Master equivalia a 0,63% do setor bancário, que
é de 750 bilhões de reais.
O economista Roberto Troster,
que participou da criação do FGC e testemunhou momentos tensos com
a quebra de bancos como o Santos e o Econômico, afirma que a lista
de culpados é longa.
Além do BC, da CVM e do próprio
FGC, ele diz que as empresas de auditoria (que sempre chancelaram as
carteiras da Reag e do Master), as agências de classificação de
risco (que elevaram a nota do Master um ano antes de sua quebra) e as
próprias tesourarias dos bancos (que sabiam dos riscos e das
trapaças e nada fizeram a respeito) também são
responsáveis.
“Quem denunciou as operações foi o
sindicato dos bancários, não os bancos!”, espanta-se Troster. De
fato, o Sindicato dos Bancários de Brasília farejou as operações
esquisitas do Master e do BRB e denunciou à CVM e ao BC.
A
tolerância aos ardis e esquisitices do mercado financeiro ficou
evidente. Tome-se o caso da Fictor.
A gestora só
desmoronou depois do anúncio da compra do Master porque todo mundo
sabia de sua forma de operar fraudulenta. Parece que só a CVM não
sabia.
A autarquia emitiu 37 ordens para suspender a
comercialização de títulos irregulares ao longo de 2025 – é a
stop order, no jargão do mercado.
Nenhuma das 37
referia-se às SCPs da Fictor, mesmo que peixes graúdos do mercado,
como o BTG e a XP, tenham denunciado as tramoias da gestora.
Na
verdade, ocorria até o oposto. Um dos diretores da Fictor, André
Vasconcellos, tentava se cacifar politicamente para virar diretor da
CVM, contando com o apoio público de João Pedro Nascimento, o
indicado de Flávio Bolsonaro que presidiu a CVM até o ano
passado.
Enquanto isso, a Fictor tentava estreitar laços
com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Boa parte desse mundo –
ou desse submundo – continua de pé.
Reag
onipresente
O fundo Rhodonite, aquele que
viabilizou as operações de lavagem de dinheiro de Beto Louco e
Primo e depois se tornou um veículo do Master, continua até hoje em
operação.
Beto Louco e Primo oferecem devolver 1 bilhão
de reais em troca de uma delação em que prometem revelar o mapa da
corrupção, mas a Procuradoria-Geral da República não aceitou até
agora.
A Reag, que mudou de nome para CBSF e passou a ser
controlada pela Planner, continua como gestora de fundos, embora
Mansur tenha se afastado da empresa.
A Planner, por sua
vez, aquela que ofereceu o “fundo de prateleira” para que o grupo
de criminosos participasse do leilão no Porto de Santos, segue
operante. Com o escândalo da Reag, herdou os fundos dos irmãos
Batista.
Outros
braços da Reag que não foram comprados pela Planner seguem operando
os fundos encrencados.
Outros quatro fundos sob
investigação, tanto por desvios de recursos no caso ligado ao PCC
quanto nas trapaças do caso Master, continuam em funcionamento.
São
eles: Olaf 95, Hans 95, Maia 95 e Anna. Os quatro fundos compartilham
a mesma gestora. Qual? A Reag.
