Canetas e outros perigos que vêm do Paraguai e outros locais
Texto fala sobre os peptídeos, que são moléculas produzidas e formadas pelo nosso organismo e estão presentes em tratamentos estéticos, contra o diabetes e nas canetas emagrecedoras
Com o título de, “Infecções, dores e aumento de pressão: os riscos de usar peptídeos injetáveis sem aprovação da Anvisa”, vale a pena ler – e fica o alerta –, a matéria publicada nesta terça-feira, 16, no site do serviço brasileiro de comunicação e mídia da estatal britânica que segue abaixo.
Por
Simone
Machado, de São José do Rio Preto, SP, para a BBC News Brasil
Um
anjo chega ao céu e informa Deus sobre a onda de peptídeos que está
se popularizando na Terra.
"O
que tá rolando em story de influencer e clínica de estética são
peptídeos antienvelhecimento, pra pele, ganho de massa... e esses aí
não são aprovados nem pela Anvisa", diz o anjo.
A
conversa é parte de um vídeo de humor publicado no Instagram por
Mari Krüger, divulgadora científica e criadora de conteúdo. A
publicação já teve mais de 5,6 milhões de visualizações e soma
quase sete mil comentários.
"A
repercussão desse vídeo foi completamente inesperada. Não é uma
bobagem, é um assunto muito sério", diz Mari Krüger.
"A
gente trouxe o humor sem tirar a seriedade do assunto para conseguir
explicar isso melhor para as pessoas. Esse perigo [do uso
indiscriminado] e o quão urgente é falar sobre isso."
Os
peptídeos se transformaram em uma das palavras mais populares do
mercado de estética, longevidade e performance física nos últimos
anos.
Divulgados
em redes sociais, grupos de conversas e clínicas de estética, eles
são apresentados como substâncias capazes de acelerar a recuperação
muscular, estimular a produção de colágeno, melhorar a composição
corporal e até retardar o envelhecimento.
No
entanto, especialistas fazem um alerta: apesar das promessas, muitos
dos benefícios atribuídos aos peptídeos não têm nenhuma
comprovação científica e grande parte dessas substâncias não
possui aprovação regulatória para uso clínico.
O
que são peptídeos
Peptídeos são moléculas produzidas e
formadas pelo nosso organismo. Eles são pequenas cadeias de
aminoácidos, que são os mesmos componentes que formam as proteínas.
A diferença está no tamanho: enquanto proteínas
costumam ser estruturas maiores e mais complexas, os peptídeos
possuem cadeias menores.
Essas
moléculas desempenham funções importantes no organismo. Algumas
atuam como hormônios, outras participam da comunicação entre
células ou regulam processos biológicos como crescimento,
metabolismo, cicatrização e resposta imunológica.
“Esses
peptídeos, resumindo, funcionam como mensageiros biológicos e
enviam uma mensagem para a célula realizar determinada função”,
explica Elisa Minami, cirurgiã plástica e membro titular da
Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).
Nas últimas décadas, pesquisadores passaram a estudar versões sintéticas desses compostos, ou seja, desenvolvidas em laboratório para reproduzir ou potencializar determinadas funções naturais do corpo.
Um
dos peptídeos mais conhecidos é a insulina. Ela foi o primeiro
peptídeo a ser descoberto e ajuda as pessoas com diabetes do tipo 1
e algumas do tipo 2 a administrar o nível de açúcar no sangue,
controlando a doença.
Outros peptídeos que ganharam espaço são os GLP-1s, como a semaglutida e tirzepatida, que são medicamentos usados nas canetas emagrecedoras e que imitam o hormônio peptídeo similar a glucagon-1, que produzimos naturalmente no corpo e ajuda a regular o nível de saciedade.
Tanto
a insulina quanto os análogos do GLP-1 são peptídeos da classe dos
medicamentos e passaram por extensos e robustos testes em humanos até
serem aprovados por órgãos regulamentadores, como a Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A
existência desses medicamentos aprovados, porém, não significa que
todos os peptídeos disponíveis no mercado apresentem o mesmo nível
de segurança ou eficácia.
No
Brasil, os peptídeos aprovados pela Anvisa e com circulação
autorizada incluem apenas medicamentos injetáveis como a insulina,
os para obesidade com semaglutida (Ozempic, Wegovy), liraglutida
(Saxenda) e tirzepatida (Mounjaro), e cremes com peptídeos.
Há
um mercado paralelo de outros peptídeos, injetáveis ou
comercializados como suplementos alimentares com foco na beleza e
estética, e que não têm comprovação científica ou
regulamentação.
Em
2024, por exemplo, a Anvisa também baniu a comercialização e
manipulação dos chamados "chips da beleza", implantes
hormonais subcutâneos que poderiam conter peptídeos.
Quais
são os principais tipos de peptídeos?
Esse universo dos peptídeos é amplo e reúne centenas de moléculas diferentes. O corpo produz peptídeos naturalmente. Peptídeos sintéticos são fabricados para imitar ou potencializar essas funções naturais.
Peptídeos
como GHK-Cu, BPC-157 e TB-500 estão entre os mais difundidos no
Brasil e, apesar de não serem aprovados pela Anvisa, podem ser
encontrados em sites, plataformas de vendas e em clínicas de
estética.
"Estes
produtos não estão regularizados na Anvisa em nenhuma categoria,
sendo ilegais para qualquer uso em saúde, inclusive estético.
Produtos como estes não têm qualquer garantia de segurança, origem
e composição", disse a Anvisa, em nota.
A
principal propaganda para a venda desses produtos é de que eles
podem aumentar a produção de colágeno, acelerar a reparação da
pele, reduzir rugas e até mesmo reverter aspectos do envelhecimento
biológico.
Eles também são frequentemente promovidos
como agentes capazes de acelerar a cicatrização de lesões
musculares, tendíneas e articulares.
No
entanto, esses peptídeos não possuem evidências científicas de
seus efeitos em humanos, ou esses resultados ainda são limitados.
Alegações de que esses peptídeos citados (GHK-Cu,
BPC-157 e TB-500) ajudam a regenerar e reparar tecidos e a reduzir a
inflamação baseiam-se em poucos estudos de laboratório feitos em
células ou animais.
O
GHK-Cu, também conhecido como peptídeo de cobre, é produzido pelo
nosso corpo e é responsável pela estimulação da produção de
colágeno.
Ele pode ser usado topicamente, ou seja, uso
externo, em cremes e séruns para a pele para reduzir as linhas
finas, e nesse caso é autorizado.
A
proibição é para a injeção, pois ele não é considerado seguro
para ser usado em injetáveis devido à falta de pesquisas
científicas e aos riscos de despertar reações imunológicas que
podem ser perigosas.
Da
mesma forma, algumas pesquisas sugerem que o BPC-157 e o TB-500 podem
promover o crescimento de novas células sanguíneas, reduzir a
inflamação e cicatrizar tecidos em ratos.
Mas não há
estudos robustos sobre seus efeitos em humanos e com grupos de
controle adequados. Por isso, seu uso como injetável também não é
autorizado.
"Embora
existam estudos laboratoriais e em animais mostrando resultados
interessantes, as evidências clínicas em seres humanos ainda são
limitadas", diz Patricia Erazo, Coordenadora
Científica
Cosmiatria da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e
membro da Federação Ibero-Latino-Americana de Cirurgia Plástica
(FILACP).
"Isso
significa que precisamos seguir estudando e informar a nossos
pacientes sobre este tipo de medicina, sempre com segurança",
Nenhum
desses peptídeos citados possui registro para serem comercializados
no Brasil.
"Os
produtos que se apresentam como 'peptídeos' denominados 'GHK-CU,
BPC-157, TB500', que prometem melhoras estéticas, não se encontram
registrados perante a Anvisa", disse o órgão em nota.
"Da
mesma forma, não foram localizados registros de medicamentos
contendo estes princípios ativos. Portanto, não há informações
sobre a segurança de uso desses supostos produtos."
A
agência ressaltou ainda que, "apesar de suposta finalidade
estética, esses produtos também não são cosméticos".
"Produtos
cosméticos são unicamente para uso externo. Não existem cosméticos
injetáveis e se o produto for oferecido desta forma, trata-se, com
certeza, de produto irregular."
O
que é regulamentado?
Uma das principais confusões para consumidores é a diferença entre peptídeos aprovados por agências reguladoras, como a Anvisa, e substâncias comercializadas sem autorização para uso clínico.
Medicamentos
peptídicos que passaram por estudos clínicos rigorosos e receberam
aprovação de órgãos reguladores podem ser prescritos para
indicações específicas.
Neste
grupo, estão alguns hormônios, medicamentos para diabetes,
obesidade e algumas terapias voltadas para doenças raras.
Todos
eles precisam ser prescritos por um médico, e o uso é feito apenas
com acompanhamento desse profissional.
Outro
grupo que pode ser comercializado são os cosméticos que possuem
peptídeos em suas fórmulas. Esses podem ser em creme ou séruns,
sempre de uso externo na pele, nunca injetável.
Já
outros peptídeos divulgados em clínicas de performance ou vendidos
pela internet permanecem classificados como substâncias
experimentais.
No
Brasil, não há liberação para nenhum tipo de peptídeo injetável
para fins estéticos, de modo que procedimentos que consistem em
injetar essas substâncias na pele não são seguros.
Especialistas
destacam que a ausência de aprovação regulatória não representa
apenas uma questão burocrática.
Ela indica que ainda
não existem evidências suficientes para garantir que os potenciais
benefícios superem os riscos.
"Os
riscos dos injetados são muito sérios. Pode haver contaminação,
reação inflamatória ou infecção. A pessoa não sabe usar a dose
certa, então usa a dose errada e também há ausência de estudos
robustos e segurança. Então, por isso eles são ilegais",
acrescenta Minami.
Quais
são os riscos do uso sem orientação?
A
percepção de que peptídeos seriam alternativas "naturais"
ou livres de riscos é considerada equivocada pelos médicos.
Como
qualquer substância biologicamente ativa, eles podem provocar
efeitos colaterais. Entre os problemas relatados, estão retenção
de líquidos, alterações hormonais, dores articulares, aumento da
pressão arterial, alterações metabólicas e reações no local da
aplicação.
Outro
risco importante está relacionado à procedência dos produtos.
Peptídeos não regulamentados podem ser rotulados incorretamente,
contaminados ou dosados de forma inadequada.
Também
existem riscos biológicos. Peptídeos que influenciam o crescimento,
o reparo muscular ou as vias hormonais também podem estimular
processos indesejados.
Em
teoria, isso poderia incluir o crescimento de tumores existentes ou a
interrupção da função endócrina normal.
Esse risco
de câncer é amplificado pela alta presença de metais pesados nos
mercados ilícitos de drogas para aprimoramento.
Além
disso, quando não regulamentados pela Anvisa, esses peptídeos não
passam por controles rigorosos de qualidade, podendo haver
concentração incorreta, contaminação microbiológica e até
presença de substâncias diferentes das declaradas nos rótulos.
Existe
ainda a preocupação com efeitos desconhecidos de longo prazo. Como
esses compostos não foram amplamente estudados em humanos, possíveis
impactos após anos de uso ainda são incertos.
"Os
riscos maiores seriam falsificação e de produtos sem procedência.
Pode haver infecção por bactérias, a maneira de fabricação pode
não ser adequada", acrescenta Alessandra Romiti,
dermatologista, assessora do Departamento de Cosmiatria da Sociedade
Brasileira de Dermatologia (SBD).
"Além
disso, a gente não sabe se mais para frente vai ter algum prejuízo
do uso desses produtos de maneira injetável, porque eles não são
estudados."
Com informações: www.bbc.com/portuguese
Crédito imagem: reprodução redes sociais
