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Corrupção, tráfico de influência e a gula de operadores como causas do atraso e da impunidade no Brasil.

Como se vê pelas últimas revelações e operações policiais, o caldo da roubalheira desenfreada sempre tem duas opções: entornar ou aumentar.

Soure, “capital do Marajó dos campos”, alvorada de sexta-feira, 22 de agosto de 2025. Naquela data e hora, a Polícia Federal (PF) desbaratou a “Operação Souris”, cujo objetivo foi combater desvios de recursos públicos destinados à obras de saneamento básico após investigações descobrirem indícios de irregularidades licitatórias e pagamentos de serviços não executados, entre outras práticas ilícitas.

Após revelar a ação policial, duas fotos com imagens daquela que seria a residência de um (a) dos acusados (as), uma delas contendo bolsas e caixas de grifes de alto luxo, e outra que parecia ser a um computador apreendido, a matéria distribuída pela assessoria da comunicação da corporação não divulgou os nomes dos alvos, tampouco a origem dos recursos

Daí que, por se tratar de uma operação da PF no Pará, das duas uma ou ambas: tratam-se de recursos federais e a origem tanto pode ser das famigeradas emendas parlamentares ou verbas de ministérios, bancos públicos ou autarquias federais, destinadas a diminuir o esgoto a céu aberto em mais um município pobre localizado no arquipélago que ostenta no seu vasto território alguns dos piores IDHs e rendas per capita de todo o país.  

Corta para domingo, 24 de agosto, edição do jornal O Estado de S. Paulo, primeiro caderno, seção de Política, página A12, cuja manchete informa: “Deputados empregam em gabinetes assessores com mandados de prisão”. 

Lido isso, o pai e a mãe que orientam os filhos para que sejam honestos, trabalhadores, estudiosos, terem comportamento ético e cristão, hão de dizer o quê aos representantes do “futuro da nação”? 

Esquecimento e impunidade

Ambas as notícias seriam mais do mesmo, reveladoras de uma simples rotina de práticas comuns e seculares fundamentadas, entre outras justificativas, por uma moral duvidosa que teríamos herdado da nossa origem ibérica (ou latina).

Ou, ainda pior, por se tratar o governo central ser composto por políticos de um partido, o PT, cujo passado recente lembra escândalos de corrupção e impunidade dos tamanhos de um Mensalão e um Petrolão, ambos considerados entre os mais corruptos em todos os relatos na vastidão do Ocidente global.

Governo no qual foram revelados o escândalo bilionário das fraudes do INSS, o mesmo em que os irmãos Batista, do escândalo JBS, voltaram às cenas dos crimes, a frequentar reuniões em ministérios e no Palácio do Planalto e a terem benefícios em medida provisória nada republicana com vistas a impulsionar uma usina termoelétrica de sua propriedade, a Âmbar, a partir do encarecimento das tarifas de energia dos amazonenses, trama somente ainda não levada adiante por conta da vigilância da sociedade e após vazamento sobre  o escandaloso favorecimento ter sido denunciado.   

Esses e outros males derivam da crença que impera no esquecimento e, sobretudo, na impunidade que grassa entre políticos e seus operadores de todos os matizes que, após serem pegos com a boca na botija no Bananão, ops, Brasil, voltam a operar, uns “perdoados pelas urnas” enquanto outros, agindo e tramando contra o país nas caladas das noites. 

No Pará e no Brasil

Inspirado no dístico de Ibrahim Sued, o saudoso jornalista Luiz Paulo Freitas, o Zing, costumava disparar o seu inverso toda vez - inúmeras - em que vazava um “furo” nas suas colunas durante as décadas em que premiava os leitores de O Liberal, toda semana, com informações responsáveis por causar verdadeiro rebuliço na cidade.

E ele o fazia por meio de notas exclusivas e tiradas de craque afirmando que “em sociedade nem tudo se sabe”. No seu caso, a conjunção coordenativa “nem” fazendo toda diferença ao maneirismo original do mestre carioca.  

Aos fatos

Em Belém muito se comenta de um político com assento importante em parlamento que seria sócio oculto de uma rede de hospitais que cresce como fermento no bolo quente em contratos e convênios oriundos de verbas públicas. 

Trata-se do mesmo político que também teria discricionária preferência por uma construtora que, curiosamente, leva as melhores obras no poderoso âmbito da sua área de influência. 

Sempre envolvendo milhões e vantagens pessoais, semana sim e outra também, a imprensa local revela uma nova denúncia envolvendo o prefeito de um importante município já marcado pelo enriquecimento, ambições pessoais, descumprimento de acordos e traição a partidos e aliados políticos. 

Tal qual aquele um que adora uma obra e um hospital, dizem as más e as boas línguas também, o dito cujo almeja novos saltos, sendo pré-candidato ao governo do estado e lembrado nas intenções de voto de maneira que não pode ser subestimado, bem como na pergunta de como seguiria os destinos do Pará caso fosse conduzido por um político com este perfil?

Outro questionamento que não quer calar diz respeito ao que ainda pode surgir no horizonte em meio ao já tamanho vulto que as denúncias na área de saúde, saneamento básico e enriquecimento pessoal já o atingem. 

Vazamentos

Mais recentemente, a “indústria de vazamentos” sediada em Brasília escolheu outro parlamentar, este de atuação federal, como alvo de denúncias a acusações de lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa, envolvendo ainda uma rede que incluiria lobistas, laranjas, servidores públicos, tráfico de influência e peculato entre os crimes praticados pelos investigados.

Ocorre que há uma diferença entre lobby, uma atividade legítima, e o crime de tráfico de influência. O Código Penal é claro e direto ao qualificar este último em seu artigo 332, que vem a ser “solicitar, exigir, cobrar ou obter, para si ou outrem, vantagem ou promessa de vantagem, a pretexto de influir em ato praticado por funcionário público no exercício da função”. 

O crime ocorre quando um sujeito (operador) demonstra ter acesso ao poder público constituído por meio de alguma autoridade, requerendo o pagamento de valores em dinheiro para influenciar decisões que venham a favorecer o hipotético pagador.

 Tráfico e peculato

A pena prevista para quem comete o crime de tráfico de influência é de prisão de 2 a 5 anos, somada ao pagamento de multa, podendo haver o aumento, vez que o autor do crime diga que a vantagem não fora somente para a si, mas destinada ainda a servidor público que praticaria, por sua vez, o crime de peculato por coonestar na trama. 

 Lobby

Já um lobista procura influenciar agentes públicos e políticos sobre pautas, segmentos e temas, muitas vezes trabalhando nos bastidores nas legislaturas de parlamentos, promovendo e participando de eventos, seminários e, sobretudo, atuando na capital federal, sem exigir favores ou benefícios para si. 

Esses profissionais são representados pela Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig). Ainda que não regulamentada no país, a atividade não é proibida. 

Gula e impunidade

Lobista com ele maiúsculo e sem vergonha da sua atividade, especialista em crimes de tráfico de influência e conhecedor dos bastidores do poder nas últimas quatro décadas, desde a redemocratização do país, confirma a tese levantada nesta coluna revelando que o mal da roubalheira só piora, incontinenti os rombos bilionários revelados nos últimos anos e operações midiáticas dos órgãos de controle, em razão da permanente crença na impunidade.

Outro aspecto fundamental, diz ele, é a certeza que esses operadores costumam passar de que são capazes de resolver seus problemas por meio da proteção de poderosos padrinhos  e via grandes escritórios de advocacia especializados nos crimes do colarinho branco, cujos proprietários circulam com desenvoltura em tribunais superiores e se jactam de hipotéticas relações que descambam na contratação de parentes de magistrados, tudo associado ao silêncio parcimonioso de parte da imprensa com lado, ainda e apostando na memória pra lá de curta do brasileiro em geral.  

Como se vê pelas últimas revelações e operações policiais, o caldo da roubalheira desenfreada sempre tem duas opções: entornar ou aumentar. 




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Toni Remigio
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