Edições regionais de O Pasquim em SP e RS ganham acervo digital
Biblioteca Nacional disponibiliza 98% dos exemplares publicados
Abertura
política no país, lançamento do Plano Cruzado, fim da fabricação
do fusca, acidente radioativo em Chernobyl. Foi em meio a esse
cenário que, em 1986, os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul
ganharam edições regionais de O Pasquim.
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O
periódico, que havia se consolidado no Rio de Janeiro em plena
ditadura militar, com uma linha editorial irreverente, crítica e,
não raro, censurada, passou a falar com o sotaque desses dois
estados por um curto período de tempo.
Para
celebrar essa história, que completa quatro décadas, as 114 edições
regionais do Pasquim foram digitalizadas e colocadas à disposição
dos leitores na Biblioteca Nacional Digital. O acervo já incluía as
1.072 edições cariocas do jornal alternativo.
Quando
surgiu a ideia de levar o Pasquim para São Paulo e para o Rio Grande
do Sul, o tabloide já não tinha mais a relevância que teve nos
anos 60 e 70.
Dois jornalistas tomaram lideraram o
projeto, movidos pela admiração que sentiam por essa que foi uma
das marcas do jornalismo brasileiro.
Em
São Paulo, o jovem Paulo Markun embarcou na aventura (definição
dele próprio), levando consigo Manoel Canabarro e apoiado por Dante
Matiussi.
Assim
que soube que o jornal se abriria a outros mercados, Flávio Braga
pegou um ônibus do Rio Grande do Sul rumo ao Rio de Janeiro,
disposto a convencer o cartunista Jaguar ─ na época, diretor de O
Pasquim ─ a autorizar uma sucursal gaúcha.
Flávio
acredita que as pessoas podem até saber da importância do Pasquim,
mas dificilmente têm a real dimensão do que ele significou para
toda uma geração.
O
jornalista exalta o papel transgressor expresso em artigos e
entrevistas comandadas por nomes como Millôr Fernandes, Tarso de
Castro, Sergio Cabral, Ruy Castro e Paulo Francis, além das charges
e caricaturas de Jaguar, Henfil, Ziraldo. Tudo entremeado de
palavrões, sátiras políticas e contracultura. "E isso em
plena ditadura militar", pontua.
Pautas
locais com a mesma irreverência
Uma das particularidades
das edições regionais era a pauta. Os assuntos tratados eram
locais, ainda que, eventualmente, utilizassem entrevistas e
reportagens da matriz carioca.
No
Sul, o Pasquim manteve o tom satírico para, por exemplo, falar do
típico "macho sulino", o que provocou confrontos e
debates, lembra Flávio.
Já
em São Paulo, espelhou a "efervescência política, fruto do
fim da ditadura, que tinha acabado pouquíssimo tempo antes",
diz Markun.
As
edições regionais expuseram também aspectos comportamentais
típicos da contracultura e que eram muito mais visíveis no Rio de
Janeiro, como, por exemplo, a liberdade sexual e o uso recreativo de
drogas.
As
sátiras políticas, responsáveis por boa parte do sucesso de O
Pasquim, encontraram em políticos como Paulo Maluf um prato cheio.
Governador do estado de São Paulo e, por duas vezes, prefeito da
capital, Maluf não tinha o apoio político de nenhum dos
colaboradores na regional paulista.
"Todos
eram contra o Maluf. Tinha os defensores do Eduardo Suplicy, que era
do PT, do Orestes Quércia, que era do PMDB, e até do Antônio
Ermínio de Moraes, que era, na época, do PTB, um empresário
candidato pelo Partido Trabalhista Brasileiro, veja só", conta
Markun.
Outra
das particularidades de O Pasquim em suas edições regionais foi dar
relevância ao trabalho de cartunistas e jornalistas locais. Em São
Paulo, Markun, cita nomes como Marangoni, Régis, Laerte, Jau
(Jaguar), Jô Soares, Augusto Nunes, Gabriel Priolli, Alberto Dines e
Fernando Morais.
“Aliás,
os dois tiveram uma briga pública no Pasquim São Paulo, por conta
da defesa de seus candidatos a governador", conta sobre Dines e
Morais.
No
Rio Grande do Sul, Flávio lembra: "Edgard Vasquez, que até
hoje continua desenhando, Santiago, Bier (Augusto Franke Bier),
Canini (Renato Vinícius Canini), o jornalista Reverbel e muitos
outros. O jornal não existiria sem eles".
Sobrevivência
no pós-ditadura
A subsistência financeira, crucial para
qualquer publicação ontem e hoje, foi um dos aspectos determinantes
para que O Pasquim durasse pouco mais de um ano, tanto em São Paulo
quanto no Rio Grande do Sul.
No
Sul, a redação ficava em Porto Alegre, e o tabloide se sustentou
com parcerias estratégicas e anunciantes de peso, como a extinta
companhia aérea Varig.
Em
São Paulo, diz Markun, os anunciantes não eram muitos, e a venda
avulsa era razoável, mas aquém do necessário.
"Havia
muita gente que ainda resistia à ideia de anunciar no Pasquim, por
conta do passado mais irreverente", analisa Markun.
"Os
cenários eram diferentes: no tempo da ditadura, o Pasquim foi um tal
êxito de vendas que não foram os anúncios que deram dinheiro, foi
a venda avulsa. Ele vendia 200 mil exemplares, um número
impressionante", pontua.
Para
Markun, a falta de clareza sobre qual seria o papel de um jornal
alternativo, finda a ditadura, foi outro aspecto que tornou a
sobrevivência das edições regionais difícil.
"A
imprensa tradicional já abria espaço para debates e discussões
anteriormente proibidas, então, sobrava uma franja muito reduzida
para a gente operar".
Digitalização
Esta
semana, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2) manteve,
por unanimidade, a decisão que obriga uma produtora cultural a
devolver à União R$ 812 mil captados por meio da Lei Rouanet, para
o projeto de digitalização de “O Pasquim”.
A
produtora já tinha sido condenada em primeira instância pela
Justiça Federal no Rio de Janeiro. O projeto havia sido aprovado
pelo Ministério da Cultura e recebeu patrocínio da Petrobras.
O
problema surgiu na hora da prestação de contas, já que não foi
comprovado que todo o acervo do jornal seria disponibilizado
gratuitamente na internet.
Já
a digitalização do acervo pela Biblioteca Nacional foi coordenada
de forma voluntária pelo corretor de seguros Fernando Coelho dos
Santos, outro admirador de O Pasquim, além de amigo de vários
dos jornalistas e cartunistas que fizeram a fama do jornal.
Depois
que se aposentou, em 2016, Fernando trabalhou gratuitamente na
digitalização do acervo original, das edições cariocas, e também
coordenou uma exposição no SESC no cinquentenário do jornal, em
2019.
Em
seguida, o admirador do periódico alternativo trabalhou nas edições
regionais de São Paulo e Rio Grande do Sul em conjunto com a
Biblioteca Nacional, em um extenso trabalho de "formiguinha",
que incluiu desde a reunião do material até a operacionalização
técnica.
De todas as edições publicadas regionalmente,
faltou digitalizar apenas duas, que o corretor não conseguiu
encontrar.
"Hoje,
o site do Pasquim dentro da Biblioteca Nacional Digital tem 100% do
principal e 98% das duas franquias. E as franquias são uma coisa
inédita, porque muitas pessoas não se lembram que elas existiram",
conta.
Segundo
Fernando, o trabalho foi uma espécie de doação.
"Eu
doei minha parte para essa história ficar. Tem tanta história! E
fico muito feliz da Biblioteca Nacional Digital ter apoiado a ideia e
ter ido além, porque o site é o único que tem tudo de um periódico
que marcou época e é um dos mais importantes do Brasil".
Quem
quiser saber mais sobre como era e o que significou O Pasquim, tanto
nas edições originais, quanto na das franquias regionais, pode
acessar o endereço: https://bndigital.bn.gov.br/dossies/o-pasquim/.
Com informações e imagem: Agência Brasil
