Em Marabá, professoras conquistam reconhecimento nacional por práticas de incentivo à leitura
Educadoras da rede municipal foram selecionadas em edital do Programa Literatura Atlântica, do Projeto Coral Vivo, com experiências que unem leitura, educação ambiental, criatividade e participação dos alunos
A educação municipal de Marabá celebra uma conquista de alcance nacional. Três professoras que atuam nos espaços de leitura da rede pública foram selecionadas no edital de Boas Práticas do Programa Literatura Atlântica, iniciativa promovida pelo Projeto Coral Vivo.
As
educadoras Seane Bezerra, da EMEF Paulo Freire; Francisca Fabiane dos
Santos, do NEI Cidade Jardim; e Antônia de Melo, da EMEF Prof.
Raimundinho, tiveram suas experiências reconhecidas entre práticas
desenvolvidas a partir da literatura e da educação ambiental.
Como
parte do reconhecimento, as professoras participarão, nos dias 6 e 7
de novembro, de um encontro na cidade do Rio de Janeiro, com as
despesas custeadas pela organização do evento.
A
conquista evidencia um trabalho que vem sendo construído
coletivamente pela Secretaria Municipal de Educação de Marabá
(Semed), por meio da Coordenadoria de Bibliotecas Escolares e Espaços
de Leitura e do programa Leitura que Transforma.
Um
trabalho que começou com livros e ganhou as escolas
A trajetória que resultou no reconhecimento nacional começou em abril de 2025, quando a Semed participou de um processo seletivo nacional ligado ao Programa Literatura Atlântica.
À
frente da Coordenadoria de Bibliotecas Escolares e Espaços de
Leitura, Patrícia Câmara explica que a equipe elaborou uma proposta
pedagógica com atividades literárias voltadas a diferentes etapas
de ensino, da Educação Infantil ao Ensino Fundamental.
A
proposta de Marabá foi selecionada e possibilitou a chegada de 2.340
livros literários à rede municipal. Atualmente, os exemplares estão
distribuídos pelos 126 espaços de leitura das escolas municipais,
ampliando o acesso dos estudantes à literatura e fortalecendo
projetos desenvolvidos pelos educadores.
Foi
dentro desse movimento que as três professoras transformaram os
livros em experiências que ultrapassaram a leitura do texto e
alcançaram temas como sustentabilidade, protagonismo estudantil,
responsabilidade ambiental e participação das famílias.
Segundo
a professora Seane Bezerra, a experiência demonstra que
resultados significativos surgem quando o trabalho pedagógico é
planejado e permite que os estudantes assumam papel ativo no
processo.
“Mostramos
que é possível obter resultados quando o trabalho é bem pensado e
planejado e quando colocamos o aluno como protagonista e responsável
pelo cuidado com o meio ambiente”, acrescenta.
Literatura
para imaginar o que está distante
No NEI Cidade Jardim, Francisca Fabiane Oliveira dos Santos encontrou na literatura uma ponte entre a realidade das crianças e temas que, à primeira vista, poderiam parecer distantes da Educação Infantil.
Com formação inicial em Biologia, a professora viu nos livros uma oportunidade de aproximar leitura e consciência ambiental desde os primeiros anos da formação escolar.
“A
literatura nos deu a oportunidade de trabalhar isso desde a Educação
Infantil. Essa conquista mostra que não precisamos estar diante do
oceano ou dos corais para fazer a diferença. Podemos chegar a esses
lugares por meio da imaginação e da literatura”, destaca.
O
resultado apareceu também fora da escola. Francisca relata que, após
o trabalho desenvolvido em sala, as crianças começaram a contar
situações vividas com as famílias e a relacioná-las às histórias
que haviam conhecido.
“Elas
começaram a falar sobre adultos jogando lixo no chão e algumas
contaram que levaram sacolas para recolher o próprio lixo durante os
passeios com os pais. Foi quando percebi que algo estava ficando. A
literatura saiu da escola e chegou à família e à comunidade”,
afirma.
Reconhecimento
que também pertence aos alunos
Na EMEF Prof. Raimundinho, Antônia Moura de Melo destaca que o prêmio representa o reconhecimento de uma construção que depende diretamente da participação dos estudantes.
“Essa
conquista veio abrilhantar o nosso trabalho. É maravilhoso ter
aquilo que fazemos visto, analisado e reconhecido”, comenta.
Para a professora, o envolvimento das turmas foi decisivo para que as propostas ultrapassassem o planejamento e se transformassem em experiências concretas.
“Não
considero uma conquista apenas minha. Os estudantes abraçaram a
ideia, participaram das atividades e contribuíram com os materiais.
Fiquei muito feliz por levar o nome da nossa escola e de Marabá ao
cenário nacional”, afirma.
Quando
a leitura muda comportamentos
As experiências das três educadoras também mostram que o incentivo à leitura pode produzir resultados que não se limitam à interpretação de textos.
Seane
percebeu mudanças tanto na procura pelos livros quanto nas atitudes
dos estudantes. “Os alunos passaram a frequentar mais a sala de
leitura, pedir indicações e pegar livros emprestados.
Também
trabalhamos leitura e escrita, porque uma prática está ligada à
outra”, relata.
No
desenvolvimento das atividades ambientais, os estudantes passaram a
observar com mais atenção o espaço onde vivem e a cobrar novas
atitudes dos próprios colegas.
“Hoje, eles mesmos
chamam a atenção quando alguém joga lixo no chão. A conquista é
essa: formar leitores e perceber mudanças de atitude”, destaca.
Antônia
observou processo semelhante. Para ela, compreender um poema ou uma
história também significou aprender a relacionar o texto com o
cotidiano.
“Eles precisavam ler, reler e compreender o
que os poemas queriam dizer para, depois, chegar ao tema da
sustentabilidade e refletir sobre a forma como cuidamos do planeta e
convivemos com os outros”, explica.
Essa
aprendizagem começou a aparecer no ambiente escolar. “A escola
ficou mais limpa e os próprios estudantes passaram a observar e
orientar os colegas. Não posso dizer que mudou 100%, mas melhorou
muito”, completa.
Desafios
vão da formação do leitor à falta de recursos
O reconhecimento nacional também carrega a história dos desafios enfrentados pelas professoras dentro da realidade das escolas públicas.
Para
Seane, uma das principais dificuldades é despertar o interesse pela
leitura em estudantes que nem sempre convivem com os livros fora do
ambiente escolar. “Precisamos mostrar que a leitura é importante,
que é conhecimento e também é poder”, afirma.
A
professora também aponta limitações materiais e logísticas. Em
algumas atividades, foi necessário trabalhar em duplas, reproduzir
materiais e adaptar propostas diante da quantidade reduzida de
exemplares. Atividades externas também esbarraram na disponibilidade
de transporte.
Antônia
viveu situação semelhante. Com poucos livros disponíveis para
determinadas atividades, organizou grupos e utilizou cópias de
poemas para garantir a participação das turmas.
“Outro
desafio é conseguir incluir os alunos nas atividades externas. Nem
sempre há transporte suficiente para levar todos, e isso é
frustrante, porque eles criam expectativas. Mas vamos encontrando
caminhos e colocando o projeto em prática aos poucos”, relata.
Francisca,
por sua vez, enfrentou o desafio de transformar temas complexos em
experiências significativas para crianças pequenas.
“Meu
maior desafio foi pensar em como levar a história de maneira que
sensibilizasse as crianças. Eu tinha dois objetivos: contribuir para
a formação de leitores e, ao mesmo tempo, trabalhar a educação
ambiental”, explica.
Produção
dos alunos ganha protagonismo
Entre tantos momentos vivenciados ao longo dos projetos, cada professora guarda episódios que simbolizam a dimensão alcançada pelas atividades. Seane destaca a construção de um grande mural coletivo após ações realizadas no bairro e às margens do rio.
“O
que mais me emocionava era ver os alunos diante do mural procurando
seus trabalhos e mostrando uns aos outros. Eles cuidaram daquele
espaço e respeitaram a produção coletiva”, recorda.
Francisca
aponta como um dos pontos altos a participação das famílias na
produção de figurinos com materiais reutilizáveis para uma
apresentação.
“Foi
uma experiência muito rica porque aproximou a família da escola e
mostrou, na prática, as possibilidades da reutilização”, afirma.
A
educadora também ressalta a inclusão das crianças com deficiência
nas atividades desenvolvidas a partir do livro Grude-Grude.
“Houve
interesse e participação de todos. Foi um trabalho em que não
houve exclusão, e considero isso muito importante”, enfatiza.
Para
Antônia, um dos momentos mais significativos foi perceber que as
produções desenvolvidas pelos próprios estudantes continuaram
circulando pela escola e despertando o interesse de outras turmas.
Esse mesmo entusiasmo se manifesta no empréstimo dos
livros. “Muitas vezes, no dia seguinte, eles já estão na porta
querendo devolver o livro, entregar o resumo e escolher outro”,
conta.
Ao
falarem sobre o que a conquista pode representar para outros
educadores da rede municipal, as três professoras convergem em um
mesmo ponto: é necessário acreditar na capacidade transformadora da
leitura, mesmo diante das dificuldades.
Seane
resume essa missão em uma expressão que traduz a essência do
trabalho.
“Nós somos semeadores de leitores. Se conseguirmos transformar a vida de um ou dois alunos, isso já é uma grande conquista”, afirma.
Francisca
incentiva especialmente os profissionais que trabalham com a primeira
infância a não subestimarem a capacidade das crianças de
compreender temas socialmente relevantes.
“Às
vezes, assuntos como oceanos e corais podem parecer muito distantes
da realidade da Educação Infantil, mas podemos trabalhá-los desde
a infância. Vale a pena, porque estamos contribuindo para formar
cidadãos com sensibilidade e preocupação com o meio ambiente”,
destaca.
Antônia
reforça a importância de acreditar nas possibilidades existentes
dentro da própria escola.
“Muitas vezes colocamos dificuldades antes mesmo de começar, mas as coisas podem ser mais simples do que parecem. É preciso querer, abraçar a ideia e fazer acontecer”, conclui.
Com informações e imagem: www.maraba.pa.gov.br
