Em Marabá, Uepa capacita agentes ambientais para identificar fraudes no transporte de madeira
Treinamento prático promovido pela universidade atende agentes da PRF Ibama e Semma no combate ao desmatamento ilegal
A pesquisa científica desenvolvida na Universidade do Estado do Pará (Uepa) ganha uma aplicação direta na proteção das florestas amazônicas por meio de uma capacitação voltada ao aperfeiçoamento de agentes responsáveis pela fiscalização ambiental.
De
9 a 13 de novembro, a Universidade realiza, no Campus VIII, em
Marabá, a primeira edição deste ano do curso de Identificação
Anatômica de Madeira e de Carvão Vegetal de Espécies Comerciais da
Amazônia.
A iniciativa terá uma segunda turma, de 30 de
novembro a 4 de dezembro, e é direcionada a profissionais da Polícia
Rodoviária Federal (PRF), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e
dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Secretaria Municipal
de Meio Ambiente de Marabá (Semma).
Promovida
por meio da Xiloteca “Joaquim Ivanir Gomes” (JIGw), em parceria
com o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), a capacitação
busca aproximar o conhecimento produzido na Universidade das
necessidades enfrentadas pelos órgãos de fiscalização no controle
do transporte e da comercialização de produtos florestais.
O
curso possui carga horária de 32 horas por edição e reúne
atividades teóricas e práticas para ensinar os participantes a
reconhecer características anatômicas da madeira e do carvão
vegetal, identificar espécies e verificar possíveis
incompatibilidades entre os produtos transportados e as informações
declaradas nos documentos florestais.
A
importância desse trabalho está relacionada a um dos desafios da
fiscalização ambiental na Amazônia: identificar quando a madeira
ou o carvão vegetal transportado não corresponde à espécie
informada na documentação que acompanha a carga.
A
extensão territorial da região, a diversidade de espécies
florestais e a semelhança entre determinadas madeiras tornam esse
processo complexo.
Nesse cenário, a anatomia da madeira
se apresenta como uma ferramenta técnico-científica capaz de
auxiliar os agentes na triagem dos produtos, oferecendo elementos
para identificar possíveis irregularidades e, quando necessário,
encaminhar amostras para análises especializadas.
Pesquisa
aplicada à realidade da fiscalização
No
Campus VIII, a Universidade desenvolve pesquisas nessa área por meio
do Laboratório de Ciência e Tecnologia da Madeira e da Xiloteca
“Joaquim Ivanir Gomes”, estruturas que reúnem conhecimento
científico, acervo de amostras e experiência técnica na
identificação de produtos florestais.
Sob a coordenação
do professor Luiz Eduardo de Lima Melo, docente do Departamento de
Ciências Florestais e curador da Xiloteca, os estudos desenvolvidos
na Uepa têm contribuído para qualificar o trabalho de instituições
que atuam diretamente no controle do transporte e da comercialização
de madeira na região.
A
atuação do grupo nessa área de identificação forense de madeira
ocorre desde 2017. O acervo da Xiloteca, que reúne mais de 1.500
amostras, constitui uma importante infraestrutura de pesquisa,
formação de recursos humanos e apoio técnico-científico às ações
de fiscalização ambiental.
Em
2025, os laudos e registros sistematizados de cargas fiscalizadas
pela equipe totalizaram 457,86 metros cúbicos de madeira e 1.173,5
metros cúbicos de carvão vegetal.
As análises
identificaram incompatibilidades entre as espécies declaradas nos
documentos florestais e os grupos taxonômicos reconhecidos por meio
das características anatômicas dos materiais examinados.
Entre
as ocorrências, foram identificadas cargas de carvão vegetal
declaradas como provenientes de Eucalyptus, mas que apresentavam
características anatômicas de espécies nativas.
Os
resultados demonstram como o conhecimento científico pode contribuir
para o enfrentamento de irregularidades na cadeia de produtos
florestais.
A identificação anatômica permite
confrontar as informações documentais com as características
efetivamente observadas na madeira ou no carvão, oferecendo
subsídios técnicos para o trabalho dos agentes públicos.
O
professor Luiz Melo explica a contribuição desse conhecimento para
a fiscalização:
“O nosso estudo subsidia a informação técnica
para que esses profissionais possam fazer a triagem e identificação
desse material biológico nas cargas e assim possam fazer a checagem
se esse material é de origem legal ou não, verificando se a espécie
que consta no documento de fato é espécie madeireira que vem sendo
transportada”.
O
curso amplia essa contribuição ao incorporar informações
extraídas da própria rotina de fiscalização. Para definir as
espécies e os grupos taxonômicos prioritários a serem trabalhados,
a equipe de pesquisadores da Uepa sistematizou 573 Termos
Circunstanciados de Ocorrência (TCOs) registrados pela PRF entre
2023 e 2025.
A análise permitiu identificar a frequência
das espécies declaradas e constatadas nas cargas fiscalizadas,
direcionando o conteúdo do curso para situações recorrentes e de
maior relevância operacional no Sudeste do Pará.
Conhecimento
científico a serviço da preservação ambiental
A
iniciativa ganha ainda mais relevância diante dos desafios
históricos de conservação da Amazônia.
Dados do
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados em
outubro de 2026, apontam que a Amazônia registrou 3.335 quilômetros
quadrados de desmatamento entre agosto de 2025 e julho de 2026, uma
redução de 41,8% em relação ao período anterior.
No
Pará, foram registrados 1.130 quilômetros quadrados, uma queda de
45,3%. Embora os indicadores apontem uma redução importante, o
estado ainda concentra a maior área de desmatamento entre as
unidades da Federação que integram a Amazônia Legal.
Nesse
contexto, o fortalecimento dos mecanismos de controle e
rastreabilidade dos produtos florestais é parte importante das
estratégias de proteção ambiental.
A fiscalização do
transporte e da comercialização de madeira e carvão vegetal
contribui para identificar possíveis fraudes na documentação,
combater a circulação de produtos de origem irregular e dificultar
a inserção de materiais provenientes de exploração ilegal nos
mercados consumidores.
Ao
aproximar pesquisadores e profissionais que atuam diretamente nas
operações de fiscalização, a Uepa também fortalece a
transferência de conhecimento e tecnologia entre a Universidade e as
instituições públicas.
A proposta é que os
participantes desenvolvam habilidades para realizar a identificação
macroscópica dos produtos florestais, utilizando instrumentos como a
lupa conta-fios, chaves de identificação e ferramentas digitais,
além de compreender os limites dessa análise e os procedimentos
necessários para o encaminhamento de amostras a exames
especializados.
Formação
teórica e atividades práticas
A
programação contempla conteúdos de anatomia da madeira,
nomenclatura científica e comercial das espécies florestais,
reconhecimento de características macroscópicas e identificação
de grupos taxonômicos de interesse para a fiscalização.
Também
serão abordadas questões relacionadas à documentação florestal,
à cadeia de custódia da madeira, à coleta de amostras e à
produção de evidências técnicas em procedimentos de apuração de
irregularidades ambientais.
Entre
as atividades estão uma palestra sobre padrões operacionais e
fragilidades na cadeia de custódia da madeira na Amazônia Oriental,
ministrada pelo mestre Carlos Eduardo da Silva Fernandes, e uma
mesa-redonda sobre fiscalização e perícia de produtos florestais
na Amazônia, com discussão de desafios operacionais, identificação
de espécies e produção de evidências.
As
atividades práticas serão realizadas na própria Xiloteca, com
treinamento para observação de caracteres anatômicos, preparação
de superfícies, utilização de instrumentos de identificação e
simulação de triagem de cargas.
Os participantes também terão
contato com procedimentos de identificação de carvão vegetal,
incluindo exercícios para reconhecer possíveis incompatibilidades
entre o material examinado e a espécie declarada nos documentos de
transporte.
A
primeira edição receberá 15 participantes: nove policiais
rodoviários federais da Delegacia da PRF de Marabá, quatro
servidores do Ibama e dois servidores da Semma. A segunda edição
será destinada a outros 15 policiais rodoviários federais de
diferentes delegacias do Pará.
A
formação contará com a participação de profissionais com
experiência em fiscalização ambiental, identificação anatômica
e perícia criminal, incluindo pesquisadores e especialistas da
Polícia Federal, da Polícia Científica de Rondônia e do Instituto
de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso.
Com
a iniciativa, a Universidade reafirma o compromisso de colocar a
pesquisa, o ensino e a extensão a serviço de demandas concretas da
sociedade.
No caso da fiscalização ambiental, o conhecimento
desenvolvido no Campus VIII representa uma contribuição para
qualificar a atuação dos agentes públicos, ampliar a capacidade de
identificação de produtos florestais e fortalecer as ações de
enfrentamento ao comércio ilegal de madeira e carvão vegetal na
Amazônia.
Com
informações e imagem: Agência Pará
