Em OESTADONET: O fogo que vem do Chapadão assoprado no dia seguinte ao 1º turno das eleições presidenciais
Em Santarém não chove há mais de dois meses. A última chuva registrada no município foi em 23 de julho
De Santarém
O avanço do fogo volta a colocar
a região Oeste do Pará em estado de alerta máximo. Monitoramentos
do sistema FIRMS (Fire Information for Resource Management System),
mantido pela NASA, registraram uma intensa densidade de focos de
calor nas últimas 24 horas, com especial gravidade no corredor da
rodovia PA-370.
No local, os focos de incêndios se
alastraram desde a madrugada da última segunda-feira, 05, um dia
após o fechamento das urnas do 1º turno das eleições
presidenciais e estaduais.
A região do Chapadão, na altura da rodovia Transuruará, é onde ocorre os mais variados crimes ambientais e foi alvo de intensa fiscalização do Ibama para retirada de gado criado em área de preservação e áreas da União.
Por isso, a presença de produtores rurais ligados ou apoiados por candidatos da extrema-direita transformou a região do Chapadão num campo fértil para queimadas e desmatamento.
Nessa região, o resultado das urnas para a presidência da república é revelador, mas não inesperado. Flávio Bolsonaro venceu Lula em todas as cinco sessões eleitorais - Bom Futuro (2), Cícero Mendes (1), Chapadão (1) e Novo Horizonte (1) -, onde o candidato do PL obteve no total 656 votos, enquanto o presidente da república registrou apenas 114 votos.
Estimulados com a vitória de Flávio Bolsonaro no 1º turno, há suspeitas que esses produtores tenham recebido uma permissão informal para desmatar e queimar. Antes do dia da eleição, não havia praticamente focos de fogo naquela região.
Em
outras áreas do longo da PA-30, a combinação da estiagem severa
típica do período com o uso do fogo para limpeza de áreas e
expansão agropecuária transforma vastas extensões florestais e
produtivas em um cenário de altíssima vulnerabilidade ambiental.
Os dados capturados pelos sensores orbitais VIIRS e MODIS apontam que o eixo formado pelos municípios de Novo Progresso e Itaituba, e na calha do Rio Tapajós, estendendo-se em direção à divisa com o estado de Mato Grosso, concentra a maior densidade de anomalias térmicas da região.
Historicamente
pressionada pelo desmatamento e pela conversão de floresta em
pastagens, a faixa territorial ao longo da BR-163, com reflexos nas
divisas territoriais de Altamira e São Félix do Xingu, apresenta
múltiplos focos contínuos e de elevada Potência Radiativa do Fogo
(FRP).
A
dispersão dos pontos quentes no mapa de monitoramento sinaliza que a
ameaça não se restringe às propriedades rurais consolidadas.
O
avanço da linha de fogo aproxima-se perigosamente de limites de
Unidades de Conservação, como o Parque Nacional do Jamanxim, além
de contornar Terras Indígenas e territórios de comunidades
ribeirinhas ao longo do Tapajós.
Na região do Baixo Amazonas, que abrange polos como Santarém, Belterra e Mojuí dos Campos, embora a densidade absoluta de focos seja inferior à do sul do estado, os registros de queimadas agrícolas somam-se à pluma de fumaça transportada pelos ventos, deteriorando a qualidade do ar nas zonas urbanas e rurais.
O
panorama atual reflete o ápice do ‘verão amazônico’, período
em que a drástica redução das chuvas, aliada às altas
temperaturas e à baixa umidade relativa do ar, cria as condições
ideais para a propagação incontrolável de incêndios.
O
fogo utilizado tradicionalmente no manejo do solo facilmente ganha
proporções de incêndio florestal de grande escala ao encontrar a
biomassa seca acumulada na vegetação.
Em
Santarém, não chove há mais de dois meses. A última chuva
registrada no município foi no dia 23 de julho.
A
capacidade do sistema FIRMS de fornecer dados georreferenciados quase
em tempo real, indicando o horário exato da passagem dos satélites
e o nível de confiança de cada queimada, torna-se a principal
ferramenta para o direcionamento estratégico das brigadas do Ibama,
do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio)
e das forças de proteção estadual e municipal.
Especialistas reforçam que, sem a intensificação imediata da fiscalização e a proibição temporária do uso do fogo, o oeste paraense enfrentará um dos períodos mais críticos de degradação ambiental dos últimos anos.
Com
informações: www.oestadonet.com.br
Crédito ilustração: Imagens com focos de calor registrados pelo satélite da NASA, nesta sexta, 09
