Escândalo Master: apuração da PF acusa Jaques Wagner de receber vantagens.
Operação investiga irregularidades envolvendo o banco de Daniel Vorcaro, preso desde março
A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que autorizou a nona fase da Operação Compliance Zero deflagrada nesta quinta-feira, 18, foi baseada em uma investigação da Polícia Federal.
De acordo com a apuração policial, o senador Jaques Wagner
(PT-BA) teria recebido um apartamento avaliado em R$ 2,45 milhões do
banqueiro Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Banco Master.
Em
entrevista à Band News, Wagner negou irregularidades e afirmou estar
"absolutamente tranquilo" em relação à investigação.
“Até
agora, não sou réu; não sou culpado; não sou nada. É uma
investigação em cima do que eu imagino que a Polícia Federal
encontrou em celulares [apreendidos] ou em alguma delação de alguém
que eu desconheço”.
Em
sua decisão, Mendonça afirma que a PF, ao pedir que o STF imponha
restrições legais aos alvos da 9ª fase da operação, sustentou
ter “elementos indicativos de recebimento de vantagens econômicas
indevidas pelo parlamentar, direta ou indiretamente, por intermédio
de familiares, pessoas de confiança e estruturas societárias
vinculadas ao grupo econômico investigado”.
Os
investigadores também dizem que “a possível relação ilícita”
entre Wagner e Lima “seria antiga, próxima e marcada por elevado
grau de confiança pessoal”. Fato que “teria criado ambiente
propício à realização de tratativas reservadas em prol da defesa
de interesses privados do Banco Master”.
Ainda de acordo
com a Polícia Federal, o próprio senador teria escolhido um
apartamento do residencial Poème Horto, construído em um bairro
nobre de Salvador, o Horto Florestal.
O documento afirma
que Wagner encaminhou a Lima dados do empreendimento e do corretor
responsável pela venda da unidade.
De
posse dos dados, Lima teria acionado Valério Marega Júnior,
apontado como “operador financeiro” do Banco Master, a fim de
tratar da compra do imóvel.
A negociação foi efetivada
com a participação de Daniel e David Lopes Monteiro, dupla que a PF
afirma estar vinculada ao núcleo empresarial e jurídico-financeiro
do Banco Master.
Wagner admitiu conhecer o banqueiro
Augusto Lima há algum tempo, mas negou ter qualquer vínculo com o
Banco Master ou com Daniel Vorcaro, com quem garante ter se
encontrado apenas duas vezes.
O parlamentar também
admitiu ter pedido a Lima que comprasse um apartamento do residencial
Poème Horto, com a intenção de adquiri-lo em um segundo
momento.
“Eu tinha interesse de dar, de ajudar a minha
filha a comprar um apartamento destes. Como o Guga [Augusto Lima] é
um investidor, disse a ele: “Você pode comprar? Depois eu vou
recomprar. Porque o apartamento está em construção, não está
pronto, e eu teria que vender o apartamento da minha filha para poder
complementar e pagar o apartamento. Ou ela financiar”, contou
Wagner, destacando não haver registros de transferência patrimonial
para o seu nome.
Repasses
A
PF aponta que o senador teria recebido outras vantagens econômicas
do banqueiro, incluindo o repasse de mais de R$ 5,5 milhões à BN
Financeira, empresa administrada por parentes do político e que,
para os investigadores, ocupa papel central no “eixo dos pagamentos
supostamente destinados ao núcleo familiar de Jaques Wagner”.
Ainda
entre as vantagens supostamente recebidas, a PF cita o uso gratuito
de aeronaves custeadas por Lima e pelo Banco Master e o recebimento
de ingressos para shows no exterior.
Parte dessas
informações foram obtidas a partir dos dados extraídos de
telefones celulares de Lima, apreendidos durante a primeira fase da
Operação Compliance Zero, em 18 de novembro de 2025.
Na
representação entregue a Mendonça, a PF reproduziu áudios e
mensagens em que Wagner e Lima combinam de se encontrar em uma ilha
pertencente ao banqueiro, que colocou uma aeronave à disposição do
político para levá-lo.
Taylor Swift
A PF
também extraiu mensagens em que o senador questiona um funcionário
de Lima sobre os ingressos para o camarote em um show em Los Angeles
da cantora Taylor Swift, que o banqueiro ofereceu a parentes de
Wagner e que, segundo os investigadores, foram adquiridos com
recursos da Reag Investimentos, por R$ 63,33 mil.
“Emenda
Master”
A investigação da PF aponta a atuação do
senador em temas regulatórios de interesse do grupo Master. Cita,
como exemplo, o fato de Wagner ter apresentado uma emenda parlamentar
(nº 30), durante o trâmite da Medida Provisória nº 1.106/2022,
com limites para cobrança de juros.
A MP resultou na Lei
nº 14.431, de 2022, que ampliou a margem de crédito consignado aos
segurados do Regime Geral de Previdência Social (RGPS) e autorizou a
realização de empréstimos e financiamentos mediante crédito
consignado para beneficiários do Benefício de Prestação
Continuada (BPC) e de programas federais de transferência de
renda.
“De acordo com a representação [da PF], o
Senador teria mantido interlocução direta com Augusto Lima sobre
temas relacionados à elevação da margem consignável da
remuneração disponível”, destaca Mendonça, acrescentando que,
ainda de acordo com a PF, Wagner também apresentou a Emenda nº 26 à
Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 65/2023, que confere
autonomia orçamentária, financeira e operacional ao Banco
Central.
O senador refutou ter atuado para favorecer
interesses privados do grupo econômico, destacando ter votado contra
uma proposta defendida pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), a chamada
“Emenda Master”, que defendia que o limite do Fundo Garantidor de
Crédito (FGC) fosse ampliado dos atuais R$ 250 mil para R$ 1 milhão
por CPF ou CNPJ.
“O governo foi contra o aumento da
garantia do FGC. Eu, como líder do governo, encaminhei contra essa
emenda”, lembrou Wagner, sem mencionar outras propostas
parlamentares que, segundo a PF, beneficiariam o Master. O
parlamentar também minimizou o fato de ter recebido, de Lima, um
link para a emenda.
“É normal. Qualquer senador é
procurado pelos interessados na votação de uma matéria, que tentam
convencê-lo votar naquela matéria”.
Por fim, o senador
garantiu que sua candidatura ao Senado está mantida e que não
acredita que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva o retire da
liderança do governo federal no Senado.
“Continuo na
liderança até que o presidente Lula peça para eu me retirar. Não
acho que ele vai fazer isso, mas se fizer, é um direito dele. O
cargo de líder do governo é do presidente da República”.
Em
nota, a defesa de Augusto Lima classificou as diligências desta
manhã como "desnecessárias".
"Augusto
Lima está há seis meses à disposição das autoridades para
esclarecer os fatos em apuração. De todo modo, as medidas
contribuirão para demonstrar que os fatos apurados nesta fase da
investigação são rigorosamente lícitos".
Dinheiro
apreendido
O parlamentar confirmou que, ao cumprirem mandado
de busca e apreensão em sua residência, em Brasília, os policiais
federais apreenderam US$ 49 mil dólares em dinheiro (o equivalente a
cerca de R$ 250 mil).
Segundo nota divulgada pela
assessoria do senador, parte do dinheiro provém de diárias oficiais
pagas em espécie pelo próprio Senado Federal, para missões
parlamentares oficiais ao exterior, além de recursos próprios,
devidamente declarados no Imposto de Renda.
“Comprei,
via Banco do Brasil, dólares ou euros para fazer a viagem. Não
tenho nada a esconder sobre este dinheiro. Ele está guardado em um
cofre porque [quando] eu vou viajar, nem sempre eu levo a diária. Às
vezes eu gasto com cartão e o dinheiro está lá”, afirmou Wagner,
assegurando que o dinheiro apreendido estava dentro de envelopes com
o timbre do Senado.
Confira
a íntegra da nota da assessoria do senador Jaques Wagner:
O
senador Jaques Wagner (PT-BA) esclarece que não é réu, não foi
denunciado e não foi acusado em nenhum processo relacionado aos
fatos investigados. O parlamentar acompanha com tranquilidade o
andamento das investigações e mantém a confiança na condução
delas.
Cabe
esclarecer que o apartamento mencionado jamais integrou o patrimônio
do parlamentar. O senador também nega atuação em favor do Banco
Master ou qualquer outra instituição financeira.
Sobre
os valores em espécie apreendidos, a assessoria informa que o
montante é fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em
missões internacionais oficiais.
Por fim, o senador
Jaques Wagner reitera que permanece à inteira disposição das
autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos, com a certeza de
que a verdade prevalecerá.
Com
informações e imagem: Agência Brasil
