Na BBC: O plano da China para se livrar da dependência do agro brasileiro (e por que isso assusta o Brasil).
Preocupação com possíveis impactos de mudanças de cenário já chegou ao agronegócio brasileiro
Por Thayz Guimarães, de Brasília para a BBC News Brasil
Em
pouco mais de duas décadas, a China passou de parceiro secundário a
principal destino das exportações brasileiras, impulsionando uma
sucessão de recordes de vendas do agronegócio nacional.
Apenas
em 2025, o Brasil faturou US$100 bilhões com o mercado chinês —
mais do que com qualquer outro país do mundo. O ritmo segue forte em
2026.
De janeiro a junho, as vendas brasileiras para o
mercado chinês atingiram US$58,322 bilhões, um crescimento de 21,9%
em comparação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados
consolidados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento,
Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
No
mesmo intervalo, as exportações para os Estados Unidos recuaram
13%, uma perda de US$ 2,6 bilhões, após o governo de Donald Trump
impor tarifas de 50% sobre parte dos produtos brasileiros em 2025.
Na quarta-feira, 22, entrou em vigor uma nova tarifa
adicional de 25%, ampliando a pressão para que o Brasil encontre
outros destinos para os produtos afetados.
Mas
as barreiras comerciais que vem sendo impostas por Trump também
podem acelerar uma mudança mais ampla no comércio agrícola global.
Uma
reportagem publicada na terça-feira, 21, no britânico Financial
Times, um dos principais jornais de finanças do mundo, afirma que os
EUA correm o risco de perder para o Brasil o posto de maior
exportador agrícola do mundo.
Segundo
o Departamento de Agricultura americano e o Ministério da
Agricultura brasileiro, os EUA exportaram US$171 bilhões em produtos
agrícolas no ano passado, apenas US$2 bilhões a mais do que o
Brasil. Em 2021, essa diferença foi de US$56 bilhões.
Analistas
ouvidos pelo jornal apontam que um dos principais fatores por trás
desse avanço foi a guerra comercial iniciada por Donald Trump,
principalmente contra a China.
Desde seu primeiro
mandato, quando tarifas foram impostas ao país asiático em 2018,
Pequim reduziu significativamente as compras de produtos agrícolas
americanos e ampliou suas importações de países como o Brasil.
Esse
cenário reforça, no curto prazo, a importância do mercado chinês
para compensar perdas em outros parceiros comerciais.
Mas,
enquanto o Brasil se volta para a China como parte de sua estratégia
de diversificação, Pequim trabalha para reduzir justamente a
dependência externa que ajudou a transformar o país em uma potência
agrícola.
"A
China identificou que estar muito exposta a importações é um
elemento de vulnerabilidade para um país com uma população tão
grande e por isso está promovendo uma mudança estrutural",
afirma Larissa Wachholz, coordenadora do Programa Ásia e do Grupo de
Análise da China do Cebri (Centro Brasileiro de Relações
Internacionais) e ex-assessora especial do Ministério da
Agricultura.
Essa
mudança aparece de forma explícita no recém-lançado 15º Plano
Quinquenal Nacional (2026-2030) da China.
O documento
elevou a segurança alimentar à condição de prioridade estratégica
nacional e estabeleceu metas para ampliar a produção doméstica de
grãos, aumentar a autossuficiência em sementes agrícolas, acelerar
o uso de inteligência artificial no campo e desenvolver novas fontes
de proteína.
“Obviamente,
a China não vai renunciar às exportações brasileiras de soja num
prazo visível, mas ela vai começar a depender num grau cada vez
menor dessas importações, porque está investindo seriamente em
tecnologias de substituição dessas proteínas vegetais por
aminoácidos industriais e outras formas de produção de proteína
para consumo animal”, afirma o professor sênior do Instituto de
Estudos Avançados da Universidade de São Paulo Ricardo Abramovay.
O
alerta encontra respaldo em projeções do relatório China's Food
Future, da consultoria Systemiq, segundo o qual as importações
chinesas de soja podem cair cerca de 25% até 2030 — uma redução
equivalente a aproximadamente 23,5 milhões de toneladas.
Entre
os fatores apontados estão melhorias na alimentação animal, ganhos
de produtividade e o avanço de proteínas produzidas por novos
processos industriais.
O estudo destaca tecnologias como
fermentação de precisão, biomanufatura e carne cultivada em
laboratório, métodos que podem reduzir a necessidade de soja
destinada à produção convencional de proteína animal.
"Essa
ideia de que a produção brasileira de soja é importantíssima para
alimentar o mundo é uma ficção. Nós não alimentamos pessoas, nós
alimentamos animais", afirma Abramovay.
Questão
de segurança nacional
A transformação da China em
potência econômica foi acompanhada por uma mudança igualmente
profunda na forma como sua população se alimenta.
Desde
o início das reformas econômicas lançadas por Deng Xiaoping no fim
dos anos 1970, centenas de milhões de chineses deixaram a pobreza e
ingressaram na classe média.
Com mais renda disponível,
a dieta do país passou por uma rápida diversificação: o consumo
de carne, leite, ovos e alimentos processados cresceu de forma
acelerada.
Essa
mudança teve efeitos diretos sobre o comércio global de alimentos.
Para produzir mais fontes de proteína, a China precisou ampliar
fortemente a oferta de ração animal — que tem como um dos insumos
principais a soja.
Foi essa demanda crescente que ajudou
a transformar o Brasil em um dos principais fornecedores agrícolas
do país asiático.
Isso
porque o território chinês enfrenta limitações estruturais para
expandir sua produção agrícola: o país abriga cerca de um quinto
da população mundial, mas dispõe de menos de 10% das terras
agricultáveis do planeta e de cerca de 6% dos recursos hídricos
globais.
Assim,
durante décadas, a solução encontrada por Pequim foi combinar
produção doméstica com importações crescentes de alimentos e
insumos agrícolas.
Esse modelo permitiu sustentar a
expansão do consumo sem exigir que o país produzisse internamente
tudo aquilo que sua população demandava.
Agora,
porém, a mesma dependência externa que ajudou a impulsionar seu
crescimento passou a ser vista internamente com apreensão,
especialmente em um contexto marcado por guerras, disputas
comerciais, sanções econômicas e interrupções nas cadeias
globais de suprimento.
A
preocupação não é teórica. Segundo o relatório China's Food
Future, da consultoria Systemiq, a China é hoje o maior importador
de alimentos do mundo e acumula um déficit comercial agrícola de
US$ 124,5 bilhões.
No
caso da soja, cerca de 84% do consumo doméstico depende de
importações. Mais da metade desse abastecimento vem do Brasil, que
responde por cerca de 71% das compras chinesas do grão.
Na
carne bovina, a dependência externa é menor, mas ainda relevante:
aproximadamente 32% do consumo é importado, e o Brasil responde por
54% dessas compras.
Modelo
industrial
O historiador econômico Adam Tooze, da
Universidade Columbia, enxerga paralelos entre a atual estratégia de
soberania alimentar chinesa e a política industrial que permitiu ao
país assumir posições de liderança global em setores como energia
solar, baterias e veículos elétricos.
Em
artigo recente publicado no jornal britânico Financial Times, ele
aponta o caminho percorrido por Pequim em ambos os casos:
planejamento estatal, financiamento direcionado, coordenação entre
universidades, empresas e centros de pesquisa e forte
aposta em
inovação tecnológica.
"Se
o desacoplamento alimentar for perseguido com a mesma energia da
política industrial da China, ele irá subverter a economia agrícola
global do último quarto de século", alerta Tooze.
O
historiador argumenta que a dependência de importações ajudou a
sustentar a rápida melhora do padrão de vida da população
chinesa, mas também criou vulnerabilidades que passaram a preocupar
a liderança do país.
"É
para os atuais líderes de mercado que a formidável guinada da China
em direção à segurança tecnoindustrial traz uma incerteza
radical", conclui.
Para
Wachholz, a lógica por trás dessa transformação vai além da
produção agrícola. Segundo ela, Pequim passou a tratar a segurança
alimentar como uma questão estratégica porque precisa garantir o
abastecimento de uma população cada vez mais urbana, rica e
exigente.
"A
China não depende de importações para assegurar o mínimo de
calorias para a sua população. Ela depende delas para garantir uma
alimentação mais diversa", afirma.
Essa
mudança ajuda a explicar por que o governo chinês tem direcionado
investimentos para áreas como biotecnologia, agricultura de precisão
e novas formas de produção de proteína.
Ela também
reflete transformações no comportamento do consumidor chinês, cada
vez mais atento à relação entre alimentação, saúde e
sustentabilidade.
"É
muito comum usar o termo 'verde' na China. E esse termo está
associado não apenas a algo que seja benéfico para o meio ambiente,
mas também para a saúde. Os chineses tendem a compreender esses
dois conceitos de forma associada", diz Wachholz.
Sinal
amarelo ligado
A preocupação com os possíveis impactos
dessas mudanças já chegou ao agronegócio brasileiro.
Uma
das principais lideranças políticas do setor no país, a senadora
pelo Mato Grosso do Sul e ex-ministra da Agricultura (2019-2022)
Tereza Cristina (PP) tem conversado com representantes do setor sobre
o assunto.
"O
Brasil tem que estar com o sinal amarelo ligado", disse. "Não
vai acontecer da noite para o dia [a redução das importações],
mas o Brasil tem que estar de olho e se preparar para novos mercados
ou para a diminuição da área plantada de soja", afirmou.
Para
ela, um dos pontos de atenção é a possível expansão do uso de
sementes geneticamente modificadas pelos produtores chineses.
Embora a China importe há décadas grandes volumes de
soja transgênica produzida em países como Brasil e EUA, o cultivo
doméstico dessas variedades avançou mais lentamente por razões
regulatórias e políticas.
Nos
últimos anos, porém, Pequim passou a flexibilizar gradualmente
essas restrições e a investir pesadamente em melhoramento genético,
biotecnologia e desenvolvimento de sementes próprias.
O
15º Plano Quinquenal estabelece como meta elevar a autossuficiência
em sementes consideradas estratégicas para 85%.
"A
hora que eles passarem para os transgênicos e aumentarem essa
produção própria para diminuir a dependência, o Brasil será o
primeiro país impactado, já que nós somos os maiores exportadores
de soja", diz Tereza Cristina.
Na
visão de Abramovay, há também um fator geopolítico em jogo: uma
eventual acomodação das tensões comerciais entre Washington e
Pequim poderia levar a China a ampliar compras de produtos agrícolas
americanos como parte de acordos mais amplos entre as duas potências.
"É
um horizonte que nem de longe pode ser tomado como seguro para o
Brasil", afirma.
Resposta
brasileira
Para Tereza Cristina, o alerta não significa que
o Brasil esteja condenado a perder espaço, mas que precisa começar
a se adaptar a um cenário diferente daquele que predominou nas
últimas duas décadas.
"O
Brasil tem que pensar no que fazer estrategicamente, se terá que
diminuir a produção de soja ou passar para outros produtos",
avalia.
"Não existem outros países para onde a
gente possa exportar esse volume que podemos vir a perder se a China
diminuir a demanda".
Segundo
ela, a experiência recente mostra que metas anunciadas por Pequim
costumam ser perseguidas de forma consistente:
"Quando
a China fala, ela cumpre. Então isso é um alerta para a produção
brasileira."
A
ex-ministra defende a agregação de valor à produção agrícola
brasileira como alternativa para a potencial redução das
importações da China.
"A
soja não é só um produto, um grão. Ela tem muita tecnologia
dentro", afirma. "O Brasil hoje é o maior exportador de
carne bovina e de frango do mundo. Isso é agregação de valor, é
transformar soja e milho em proteína".
Ela
também vê oportunidades na transição energética:
"Se
a gente investir em SAF, que é o combustível sustentável de
aviação, e em combustíveis para navegação, podemos direcionar
boa parte dessa produção para esses mercados, aí quem terá que
ficar de olho aberto é a China".
O
presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e
Investimentos (Apex-Brasil), Laudemir Müller, acredita que a
instabilidade internacional pode favorecer as exportações
brasileiras para a China, mesmo diante da nova estratégia de Pequim:
"A
gente vê um reposicionamento de todos os países, mas em um mundo
mais instável, uma reação natural é olhar para quem realmente é
um bom parceiro", respondeu, ao ser questionado pela reportagem
durante entrevista coletiva na sede da Apex, em Brasília, na
sexta-feira, 17.
"Nesse mundo de instabilidade e de
redução de dependência, o Brasil aparece com destaque como um país
amigo e um fornecedor estável."
Para
Tereza Cristina, o governo deveria manter estruturas permanentes de
inteligência estratégica para monitorar tendências globais e
antecipar mudanças de mercado.
Wachholz, que estabeleceu
o "Programa China" na gestão da ministra, também vê
falhas na resposta brasileira, mas direciona suas críticas
principalmente ao setor privado.
"Ele
deveria estar mais presente na China, fazendo mais ações de
monitoramento e de acompanhamento e promoção dos nossos produtos",
afirma.
"O governo brasileiro trabalha para abrir o
mercado, mas mesmo depois de aberto, os fluxos de negócio demoram a
acontecer. Não é como se o Estado brasileiro fosse o exportador".
Apesar
dos alertas, nenhum dos entrevistados prevê um colapso da relação
comercial entre Brasil e China. O consenso é que Pequim continuará
importando grandes volumes de alimentos brasileiros por muitos anos.
O risco, segundo Wachholz, está em continuar tomando
decisões de investimento de longo prazo como se a demanda chinesa
fosse crescer indefinidamente.
Desde
que a China se tornou o principal destino das exportações
brasileiras, em 2009, a ascensão do país asiático ajudou a
transformar o Brasil em uma potência agrícola.
Em
um momento em que as tarifas dos Estados Unidos aumentam a
importância da diversificação de mercados, o próximo desafio,
afirmam os especialistas, será entender como responder a um parceiro
que continua sendo o maior comprador do mundo, mas que investe cada
vez mais para precisar comprar menos.
Com
informações: www.bbc.com/portuguese
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