Na BBC: Por que Trump suspendeu várias sanções contra a Rússia em meio a tensões com Ucrânia
Volodymyr Zelensky lamentou que os EUA tenham decidido "ignorar completamente" as sanções
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, bloqueou diversas
sanções contra a Rússia dois dias antes de as medidas entrarem em
vigor, em meio ao agravamento de um impasse com o presidente
ucraniano, Volodymyr Zelensky.
As
sanções haviam sido aprovadas pelo Congresso dos EUA e
transformadas em lei por Trump em setembro.
No
entanto, na noite de sexta-feira, 16, o presidente americano emitiu
uma ordem executiva afirmando que a suspensão de algumas dessas
medidas atendia ao "interesse nacional" dos EUA — uma
decisão que provocou reações contrárias de legisladores
americanos.
Zelensky lamentou que os EUA tenham decidido "ignorar completamente" as sanções. As relações entre Washington e Kiev se deterioraram após os EUA firmarem um acordo controverso para a importação de diesel russo.
A Ucrânia acusou, então, a administração Trump
de retirar um apoio militar fundamental ao país na guerra contra a
Rússia. Trump
e Zelensky trocaram críticas ácidas um sobre o outro nos últimos
dias.
O
presidente da Ucrânia declarou que era bom estar entre "líderes
de verdade" durante uma cúpula da União Europeia, depois que
Trump afirmou que Zelensky era "mais difícil de lidar" do
que o presidente russo, Vladimir Putin.
A
nova lei de sanções dos EUA teve como alvo a economia russa, e
conferiu a Trump amplos poderes para impor tarifas de até 100% sobre
importações provenientes dos cinco maiores compradores de petróleo
e gás da Rússia — com destaque para a China e a Índia.
A
medida também incluiu sanções contra autoridades russas de alto
escalão, incluindo Putin, e também contra instituições
financeiras russas, além da chamada "frota fantasma" de
Moscou — um conjunto de embarcações utilizadas para contornar
embargos já existentes.
Embargos
suspensos
No entanto, muitas dessas disposições foram agora suspensas por Trump. O representante russo Kirill Dmitriev classificou a suspensão como "um momento importante e verdadeiramente histórico".
Em
uma publicação no X, ele afirmou que as sanções teriam causado
"danos graves", principalmente aos EUA e ao mercado global,
e que a cooperação econômica beneficia as duas nações.
Representantes
do Partido Democrata, incluindo o congressista pela Virgínia, Don
Beyer, criticaram a medida e acusaram Trump de capitular diante de
Moscou e de virar as costas para Kiev e Zelensky.
"A mais recente rendição de Trump a Putin trai, mais uma vez, nossos parceiros ucranianos e desafia a clara intenção do Congresso, expressa em uma legislação concebida para punir a Rússia por sua guerra de agressão ilegal", escreveu Beyer no X.
É
provável que a medida provoque ainda mais indignação na Ucrânia,
onde Zelensky tem enfatizado, há muito tempo, a necessidade de
sanções rigorosas para limitar os recursos que a Rússia pode
utilizar em seu esforço de guerra.
Zelensky declarou, na
manhã de sábado (17/10), que as sanções "poderiam ter
ajudado enormemente" e que a lei "deveria ter exercido uma
pressão verdadeiramente eficaz sobre a Rússia para pôr fim a esta
guerra".
Ele
mencionou os ataques russos ocorridos na noite de sexta-feira para
sábado (17/10) contra 15 instalações energéticas ucranianas —
que provocaram cortes de energia em várias regiões — e
afirmou:
"A Rússia está tentando causar um apagão
na Ucrânia, justamente antes do inverno."
Zelensky ressaltou que é "importante que todos na América também vejam o que realmente está acontecendo".
Zelensky
e Trump trocaram farpas recentemente
Mais tarde, o presidente ucraniano disse a repórteres que acreditava que a administração Trump suspenderia mais sanções contra a Rússia.
Ele
também afirmou que negociadores ucranianos conversaram com seus
homólogos americanos na sexta-feira, 16, e que as equipes dos países
poderiam se reunir na próxima semana.
Trump
foi inicialmente criticado por Zelensky e pelos aliados europeus da
Ucrânia por suspender temporariamente algumas sanções dos EUA para
permitir a importação de diesel russo, em uma tentativa de reduzir
os preços de energia nos Estados Unidos, que dispararam por causa da
guerra contra o Irã.
O
presidente americano passou meses lidando com as consequências
políticas do conflito no
Oriente Médio, que fez com que os
custos dos combustíveis subissem drasticamente às vésperas das
eleições de meio de mandato nos EUA.
A
inflação crescente prejudicou a imagem de Trump diante do público
americano. Zelensky
sugeriu que o acordo equivalia a um investimento dos EUA no esforço
de guerra da Rússia.
Poucos
dias depois, Trump afirmou que tanto a Rússia quanto a Ucrânia
haviam concordado com um "cessar-fogo energético" para
facilitar a exportação de diesel russo. Ambas
as nações têm atacado intensamente a infraestrutura energética
uma da outra.
Zelensky
expressou, inicialmente, surpresa com o anúncio de Trump e disse que
Kiev interromperia os ataques caso a Rússia fizesse o mesmo.
Após
três dias marcados por novos ataques russos, Kiev retomou suas
investidas contra refinarias de petróleo na Rússia. Isso
provocou uma condenação contundente por parte de Trump, que
classificou os ataques como uma "vergonha".
Zelensky
respondeu dizendo que estava "apenas defendendo os interesses da
Ucrânia".
As
preocupações de que Trump esteja alinhado à Rússia
intensificaram-se após problemas no funcionamento de um sistema de
satélites fornecido pelos EUA, que era utilizado pela Ucrânia.
Na
semana passada, a Starlink restringiu, de forma repentina e
inesperada, a velocidade com que drones podiam operar e mantinham a
conexão com a internet.
Segundo
a Ucrânia, isso prejudicou algumas missões no campo de batalha e
dificultou a capacidade de Kiev de se defender contra ataques russos.
Durante
o período de lentidão, a Rússia lançou diversos ataques letais
contra a Ucrânia — tanto os moradores quanto o governo afirmaram
que não houve qualquer aviso prévio.
Zelensky
declarou na sexta-feira, 16, que a velocidade da Starlink ainda não
havia sido totalmente restabelecida.
Trump
negou ter interrompido o compartilhamento de informações de
inteligência ou ter reduzido, deliberadamente, a velocidade da rede
Starlink na Ucrânia.
Autoridades
ucranianas confirmaram que, nas últimas 24 horas, pelo menos nove
pessoas morreram e cerca de 60 ficaram feridas em ataques russos em
todo o país.
Elas
informaram também que, na manhã de sábado (17/10), um motorista de
ambulância foi morto e outras 20 pessoas ficaram feridas em ataques
russos à cidade de Kherson.
O
Ministério da Defesa da Rússia afirmou ter como alvo instalações
ligadas ao setor de defesa ucraniano — o que inclui siderúrgicas,
uma subestação elétrica e um navio de carga no Mar Negro.
*Com
reportagem de Helen Sullivan
Com
informações e reprodução de imagem: www.bbc.com/portuguese
