Na BBC: Qual o futuro do bolsonarismo após Flávio Bolsonaro ir para os EUA?
Para o cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV, a atuação dos irmãos nos EUA não terá apoio da maioria da sociedade
Mariana
Schreiber, de Brasília para BBC News Brasil
A
saída do senador Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil para os Estados
Unidos, após ser derrotado na eleição presidencial para o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), deixa em aberto o futuro
do bolsonarismo.
Na quarta-feira, 28, o candidato
derrotado divulgou um primeiro pronunciamento escrito, em sua conta
na rede social X, em que se autodeclarava "o verdadeiro
presidente do Brasil" e dizia que houve "fraude eleitoral",
sem apresentar provas.
Depois, apagou essa manifestação
e publicou uma outra, quase idêntica, reafirmando a suposta fraude,
mas se declarando "o líder do Brasil" em vez de "o
verdadeiro presidente".
Flávio Bolsonaro disse ainda
que vai liderar a oposição a Lula dos Estados Unidos.
"Nos
próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e
apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso
apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos,
para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil. Peço
a cada um que permaneça firme e jamais desista", reforçou na
manifestação.
Analistas políticos, porém, são
céticos sobre a capacidade de Flávio Bolsonaro liderar a oposição
e o movimento bolsonarista de fora do país, ao lado de seu irmão,
Eduardo Bolsonaro (PL), que vive nos Estados Unidos desde fevereiro
de 2025.
O resultado da eleição foi reconhecido pelo
Tribunal Superior Eleitoral (TSE), presidido pelo ministro Kassio
Nunes Marques, indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo
ex-presidente Jair Bolsonaro. Os principais partidos políticos
brasileiros também reconheceram a vitória de Lula, incluindo o
PL.
Para o cientista político Marco Antonio Carvalho
Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a atuação
dos irmãos nos Estados Unidos não terá apoio da maioria da
sociedade.
Ele lembra que o tarifaço adotado pela Casa
Branca contra o Brasil para tentar impedir a condenação do
ex-presidente Jair Bolsonaro, após articulação de Eduardo
Bolsonaro no ano passado, foi mal visto pela maioria da
população.
"É muito claro que Flávio vai pra lá
tentar fazer uma articulação de fora pra dentro. Agora, quanto a
classe política brasileira, inclusive o próprio PL, vai dar
ressonância? Ao que parece, os partidos, quase de maneira uníssona,
até o PL, já abriram mão de contestar qualquer coisa em relação
à eleição de Lula", disse.
O presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump, não quis comentar a autodeclaração
de Flávio como "verdadeiro presidente", ao ser questionado
por jornalistas.
"Eu não vou fazer um comentário
sobre isso, mas eu sei que nós demos a ele um visto para entrar no
país, então vamos ver. Mas eu não vou me envolver, foi uma eleição
muito estranha, isso com certeza", disse Trump.
Já o
governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos),
divulgou um pronunciamento em que diz entender a "revolta"
de Flávio, mas não apoia sua contestação do resultado
eleitoral.
"O caminho é respeitar o resultado das
urnas e seguir em frente. O momento exige responsabilidade,
serenidade e a construção de uma oposição forte, capaz de exercer
seu papel. É assim, respeitando o processo democrático e
trabalhando dentro das instituições, que vamos fortalecer o sistema
de freios e contrapesos que sustenta a nossa democracia".
Flávio Bolsonaro deixou o país após o ministro do STF
Alexandre de Moraes determinar a apreensão de seu passaporte,
atendendo a um pedido da Polícia Federal em um inquérito que apura
suposta lavagem de dinheiro do senador em parceria com o seu amigo
Willer Tomaz, advogado e empresário.
O senador nega as
acusações e disse, em seu pronunciamento, sofrer "perseguição
política" com objetivo de "silenciar qualquer pessoa que
não concorde com o regime de exceção instaurado no Brasil, através
de uma Suprema Corte aparelhada pela organização criminosa
petista".
Os especialistas entrevistados se dividem
sobre o futuro do bolsonarismo após uma série de reveses da
família: duas derrotas presidenciais seguidas, a prisão de Jair
Bolsonaro (PL) e o êxodo de seus dois filhos com maior projeção
política.
Por outro lado, a ex-primeira-dama Michele
Bolsonaro (PL) estreará em 2027 em seu primeiro mandato eletivo,
como senadora pelo Distrito Federal.
Já os filhos Carlos
Bolsonaro (PL) e Jair Renan (PL), que até então só haviam atuado
como vereadores, também chegarão ao Congresso Nacional no próximo
ano — Carlos como senador e Renan como deputado federal, ambos por
Santa Catarina.
Os analistas apontam ainda outros nomes
que poderiam liderar o movimento e ampliar seu alcance, com destaque
para Tarcísio de Freitas, que se projetou nacionalmente com apoio de
Jair Bolsonaro, mas é visto como alguém que tem certa autonomia da
família e acaba de reeleger no primeiro turno para governar o Estado
mais rico do país.
A cientista política Daniela
Costanzo, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e
Planejamento (Cebrap), diz que o bolsonarismo se organiza como um
"partido digital", com uma organização coordenada nas
redes que está para além da estrutura tradicional de uma legenda
política.
Na sua avaliação, isso garante uma base
sólida para o movimento.
"A derrota presidencial é
uma derrota importante, mas o bolsonarismo vai continuar forte porque
ele tem hoje um partido que o organiza, que a gente chama de partido
digital bolsonarista".
"Agora, o que vai
acontecer é que a liderança do Flávio, que vinha sendo construída,
que talvez até pudesse ter ganhado a eleição, vai ficar muito
fraca, provavelmente vão subir outras lideranças, e o partido tem
muitas opções".
Além de Tarcísio, Costanzo
destaca outros nomes que se fortaleceram nesta eleição, como Sergio
Moro (PL), eleito governador do Paraná; Cleitinho Azevedo
(Republicanos), governador eleito de Minas Gerais; ou o deputado
reeleito Nikolas Ferreira (PL-MG), embora ele ainda seja novo para
disputar a Presidência da República.
Já no clã
Bolsonaro, vê Michelle Bolsonaro com mais potencial — ela se
projetou como liderança política na presidência do PL Mulher,
alavancando a eleição de candidaturas femininas na sigla.
"Michelle continua muito forte. Ela tem vida
própria, não depende só do resto da família estar bem".
Na
terça-feira, 27, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, se reuniu
com a futura senadora. Em post no Instagram, disse que a recebeu
"para uma conversa sobre o futuro do nosso partido e os desafios
que temos pela frente".
Por outro lado, Costanzo não
vê Carlos e Jair Renan com potencial para liderar o campo
bolsonarista.
"Agora, com a queda do Flávio, já
são dois irmãos que estão fora do Brasil, os dois com muito
problema na Justiça. Eu acho difícil embalar um Carlos ou um Jair
Renan como próxima liderança. Eles têm menos estofo do que o resto
das lideranças".
Marco Antonio Carvalho Teixeira,
da FGV, vê dificuldades para Michelle, Carlos ou Jair Renan
assumirem a liderança do movimento e aposta em lideranças de fora
do clã familiar.
Michelle, ressalta, sempre teve
conflitos com os filhos do presidente e chegou a brigar publicamente
com Flávio Bolsonaro na pré-campanha.
Carlos, continua,
tem perfil mais de bastidor, tendo atuado na comunicação digital do
grupo durante o governo do pai. E Renan é "infantil" e
"sem qualquer projeção política", na sua percepção.
"Vai haver uma lacuna. Então, talvez essa seja uma
oportunidade também de os partidos que se dizem mais à direita
diminuírem a sua dependência da família e buscarem outras
lideranças", ressalta.
'Bolsonarismo atuará em três
frentes: no Congresso, nas redes e na articulação a partir dos
EUA'
Professor do Instituto Federal da Bahia (IFBA) e um
dos autores do livro Bolsonarismo e o Brasil Profundo, Fábio Baldaia
considera que o movimento se manterá forte mesmo após a derrota de
Flávio e sua saída do Brasil.
Na sua visão, o
bolsonarismo é uma movimento que aglutinou diferentes sentimentos e
práticas que já existiam no Brasil antes da ascensão de Jair
Bolsonaro, como "a relação entre política e religião, um
certa concepção da moralidade pública, e uma relação entre
Estado e mercado". Isso, diz, o fortalece.
"Então,
mesmo com essa fuga de Flávio, o bolsonarismo não vai ser
enterrado, porque esse movimento fez um partido que integrava um
grupo de partidos não ideológicos, que compunham o que se chama de
Centrão, que é o PL, virar o maior partido brasileiro no
Congresso", afirma.
"Eles têm muita força no
Senado e na Câmara, têm lideranças jovens como Nikolas Ferreira, o
Lucas Pavanato [eleito deputado federal mais votado de São Paulo] e
outras lideranças importantes. Tem o governador do principal Estado
da federação, [Tarcísio de Freitas], que atua dentro da
institucionalidade com muita habilidade", continua.
Para
Baldaia, o bolsonarismo agora atuará a partir de três frentes. A
primeira delas "por dentro da institucionalidade, como se fosse
antissistema, talvez tentando articular o impeachment do presidente
reeleito e de ministro do STF".
A segunda,
"mobilizando a opinião pública a partir de pautas que geram
engajamento", por meio da atuação nas redes de Nikolas
Ferreira e outras lideranças.
E a terceira com Flávio,
reforçando a articulação de Eduardo Bolsonaro para uma oposição
a partir dos Estados Unidos, com outros influenciadores e aliados que
estão lá.
'Ostracismo do bolsonarismo pode levar ao
fortalecimento de uma direita menos extremista'Para o cientista
político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana
Mackenzie, a família Bolsonaro está em seu momento de maior
fragilidade após acumular derrotas nas disputas presidenciais e na
Justiça.
Na sua visão, esse momento pode favorecer a
ascensão de lideranças menos radicalizadas dentro do movimento.
"Há um núcleo dentro do bolsonarismo que não se
liga às ideias mais radicalizadas e que, obviamente, na ausência
das figuras do clã, vai buscar outras alternativas. Então, talvez a
gente tenha um ostracismo do bolsonarismo e o fortalecimento de uma
direita menos extremista e radicalizada", analisa.
"Jair
Bolsonaro e Flávio, claro que têm capital político, mas também
têm rejeição altíssima. E essa rejeição espanta o centro, o
eleitor mais moderado. Então, eu creio que pode ocorrer um
deslocamento do eixo do poder do sobrenome do clã para outra figura
que cresceu no bojo do bolsonarismo, como Tarcísio, que é um
presidenciável natural como governador de São Paulo, ou até mesmo
Michelle Bolsonaro", reforça.
Com
informações: www.bbc.com/portuguese
Crédito
imagem: Reprodução arquivo AB
