Na BBC: Trump diz que está acompanhando as eleições presidenciais no Brasil 'muito de perto'
Republicano disse ainda que o país e a disputa presidencial atual são muito importantes
Julia Braun, da BBC News Brasil em Londres
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta
quinta-feira, 01, que está acompanhando "muito de perto"
as eleições no Brasil. O republicano disse ainda que o país e a
disputa presidencial atual são muito importantes.
"O
Brasil é um país muito importante. É um ótimo país. As pessoas
do Brasil são fantásticas. É uma eleição muito importante",
disse Trump, após ser questionado por uma repórter na Casa Branca.
Antes,
ao ser questionado se estava seguindo a eleição, ele respondeu que
estava acompanhando "muito de perto". A declaração
acontece a três dias do primeiro turno e em meio ao receio do
governo brasileiro de interferência dos Estados Unidos no pleito.
Na
fala desta quinta, Trump não declarou apoio a nenhum dos candidato,
mas o presidente americano já manifestou, em diversas ocasiões e
por meio de medidas nos últimos anos, sua proximidade com a família
Bolsonaro.
Na semana passada, a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma investigação sobre uma possível ingerência dos EUA na eleição brasileira.
A
campanha de Lula também pediu a cassação da chapa de Flávio
Bolsonaro (PL) afirmando que o senador se articulou com o governo
Trump para impactar o resultado das eleições, violando a soberania
nacional.
Em
17 de setembro, Flávio já havia negado categoricamente que
estivesse recebendo ajuda do governo americano: "Não existe
ajuda do governo americano. Essa narrativa não vai colar, desculpa.
Quem resolve a eleição é a gente aqui."
O
pedido ocorreu dias após a divulgação, pela Folha de São Paulo,
de um documento em que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin)
elevou a possibilidade de interferência dos EUA na eleição ao
"nível de criticidade".
Segundo
a Abin, Washington busca fragilizar o governo Lula por enxergá-lo
como resistente à ambição dos EUA de exercer uma hegemonia na
América Latina. Hoje o Brasil tem como principal parceira comercial
a China, uma grande rival dos EUA.
Flávio
Bolsonaro tem dito que pretende se aproximar dos EUA se for eleito e
visitou Trump em maio. Dois dias depois da visita, os EUA anunciaram
que as facções PCC e Comando Vermelho seriam classificadas como
organizações terroristas pelo governo americano.
A
medida foi festejada por Flávio e criticada por Lula, para quem a
classificação abria as portas para uma intervenção americana no
país.
Em
conversas reservadas com a BBC, assessores do governo citaram outro
exemplo do que consideram uma tentativa de interferência dos EUA na
eleição: a divulgação, em 15 de setembro, de um relatório do
Departamento de Estado americano com críticas ao desempenho do
governo brasileiro no combate a facções criminosas.
As
críticas se alinham com o discurso de Flávio e miram um setor
considerado pelo próprio governo como um calcanhar de Aquiles.
Em
discurso na Assembleia Geral da ONU, na última terça-feira, 22 de
setembro, Lula reagiu. Ele criticou a "ingerência externa em
processos eleitorais" e disse que o "Brasil não subestima
o desafio representado pelo crime organizado", mas que o país
não vai "terceirizar a responsabilidade de defender nossas
fronteiras".
O brasileiro afirmou ainda que o
"Brasil não cabe no quintal de ninguém".
Relação
estremecida
Outro documento, divulgado pelo jornal O
Estado de S. Paulo em 17 de setembro, detalha uma série de
exigências que os EUA teriam apresentado ao Brasil como condição
para reduzir as tarifas comerciais impostas ao país no ano passado.
Entre
os pontos listados estaria a participação de "dissidentes
políticos" nas eleições brasileiras. A expressão é
normalmente utilizada pelos EUA para se referir a opositores de
regimes considerados ditatoriais.
O
documento, segundo a reportagem, não cita nominalmente o
ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por golpe de Estado e hoje
inelegível.
Em outras ocasiões, porém, o governo Trump
criticou a condenação de Bolsonaro e classificou o processo contra
o ex-presidente como uma perseguição política.
De
acordo com O Estado de S. Paulo, o governo brasileiro se
recusou a negociar esse ponto com os EUA. As divergências entre os
dois países não se deram só no âmbito de negociações
comerciais.
Nos últimos meses, os EUA também adotaram
sanções contra autoridades brasileiras, entre elas o ministro da
Saúde, Alexandre Padilha, o ministro do STF Alexandre de Moraes e
delegados da Polícia Federal envolvidos em investigações de
bolsonaristas.
Em
agosto, Washington também revogou o visto da embaixadora brasileira
nos EUA, Maria Luiza Viotti, uma medida inédita na relação entre
os dois países.
Segundo o governo americano, a decisão ocorreu como
retaliação à demora do Brasil em aprovar a indicação do novo
embaixador dos EUA em Brasília.
O
Brasil, por sua vez, se recusou a conceder vistos a dois diplomatas
americanos após uma reportagem do jornal The Washington Post apontar
que eles fariam questionamentos sobre o sistema eleitoral brasileiro.
O governo dos EUA negou a intenção.
*Com
informações da reportagem de João Fellet e Leandro Prazeres, da
BBC News em São Paulo e Brasília
Com informações: www.bbc.com/portuguese
Crédito imagem: Reprodução
