No Estadão: Brasil ganha 1,5 milhão de novas empresas inadimplentes em um ano por causa de juro alto
Em abril, número de companhias que não conseguiram honrar seus compromissos em dia somou 9 milhões, um novo recorde; em abril do ano passado, número era de 7,5 milhões, segundo Serasa
A inadimplência empresarial atingiu um novo recorde no Brasil em abril de 2026, com 9 milhões de CNPJs negativados.
De acordo
com dados da Serasa Experian, o número de empresas inadimplentes
aumentou em 1,5 milhão em relação ao mesmo período do ano
anterior, alcançando o maior patamar da série histórica iniciada
em janeiro de 2016. A expectativa é que os números permaneçam em
níveis elevados no curto prazo.
As informações
estão disponíveis na edição online do jornal O Estado de S. Paulo
desta sexta-feira, 05, em matéria assinada por
Caroline Aragaki, Broadcast, agência
de notícias econômicas do grupo de mídia.
“O
resultado mostra um ambiente ainda desafiador para os negócios no
País. Apesar do início do ciclo de afrouxamento monetário, os
juros seguem em patamar elevado, encarecendo o crédito e
dificultando o acesso ao capital de giro, especialmente para pequenas
e médias empresas”, avalia a economista-chefe da Serasa Experian,
Camila Abdelmalack.
“O
ambiente de juros altos, aliado à desaceleração da atividade
econômica, mesmo que mais moderada do que se esperava inicialmente,
pressiona o faturamento das empresas e reduz a capacidade de
recomposição de caixa”, afirma a executiva.
Ela
destaca que a inadimplência tem potencial de registrar novos
recordes ao longo de 2026. A base de dados da Serasa Experian mostra
que o índice de calote tem batido sucessivos recordes desde janeiro.
O
total de dívidas negativadas também registrou novo pico, somando R$
220,9 bilhões em abril. Em média, cada empresa inadimplente tem 7,1
contas sem pagar, com dívida média de R$ 24.665,91 por CNPJ e
ticket médio de R$ 3.468,99.
Atualmente,
a taxa básica de juros da economia é de 14,5% ao ano, isso depois
de duas reduções consecutivas de 0,25 ponto. O juro alto faz o
custo da dívida das empresas aumentar e encarecer boa parte dos
planos de investimentos.
Um levantamento da consultoria
especializada em reestruturação de dívida RK Partners mostrou que
entre as companhias abertas brasileiras, por exemplo, 24% já não
conseguem gerar caixa suficiente para pagar os juros de suas dívidas.
O
estudo levou em conta a situação das 282 empresas com ações
listadas na Bolsa de Valores. Os estragos dos juros elevados no
balanço das companhias também se refletem em outros indicadores:
23% das empresas têm alavancagem entre três vezes e seis vezes a
relação dívida líquida/ebitda anual e 24% tem alavancagem acima
de seis vezes.
Setores
e regiões
Pelos dados da Serasa, em abril, o setor de serviços concentrou 55,6% das empresas negativadas. Na sequência aparecem comércio (32,4%), indústria (8,1%) e o setor primário (0,9%).
Em
relação à origem das dívidas, o maior peso ficou no segmento de
serviços (31,7%), seguido por bancos/cartões (19,4%). Na sequência
apareceram cooperativas (8,6%), utilities (7,0%) e telefonia (5,7%).
Para
a economista-chefe da Serasa Experian, a composição das dívidas
mostra que uma parcela importante da inadimplência está ligada à
sustentação do capital de giro e à manutenção das operações
das empresas.
“Em um ambiente de crédito restritivo e
juros elevados, as companhias acabam recorrendo mais ao crédito
comercial e a diferentes instrumentos de financiamento, mas enfrentam
maior dificuldade para administrar esse passivo diante do acúmulo de
pendências. Isso prolonga o processo de regularização financeira”,
acrescenta.
Regionalmente,
o Sudeste concentrou o maior volume de empresas inadimplentes em
abril de 2026, com destaque para São Paulo (3.076.064), seguido por
Minas Gerais (881.652) e Rio de Janeiro (864.722).
Na
sequência apareceram Estados como Paraná (588.935) e Rio Grande do
Sul (518.195). A concentração acompanha o peso econômico e a maior
densidade empresarial dessas regiões.
Micro
e pequenas empresas também bateram recorde
Do
total de empresas inadimplentes no país, as micro e pequenas
seguiram como maioria expressiva, com 8,5 milhões de CNPJs
negativados em abril, recorde desde o início da série histórica do
indicador.
O grupo concentrou o volume de 57,6 milhões
de dívidas que somam R$ 191,8 bilhões. Em média, cada micro e
pequena empresa acumulou 6,8 contas negativadas, com dívida média
de R$ 22.503,39 e ticket médio de R$ 3.328,73.
Abdelmalack
afirma que as micro e pequenas empresas continuam sendo as mais
vulneráveis a um ambiente de crédito restritivo, porque dependem
mais de linhas de curto prazo e têm menor capacidade de negociação.
“Com juros ainda elevados e maior seletividade na
concessão de crédito, essas empresas enfrentam dificuldades
adicionais para recompor capital de giro e administrar o fluxo de
caixa, o que contribui para a permanência da inadimplência em
níveis elevados”, analisa.
Metodologia
O
Indicador Serasa Experian de Inadimplência das Empresas mensura o
número de empresas brasileiras que se encontram em situação de
inadimplência.
Uma empresa é considerada inadimplente
quando tem ao menos um compromisso financeiro vencido e cujo não
pagamento foi formalmente comunicado pelo credor.
Essa
apuração é realizada com base nas notificações registradas até
o último dia do mês de referência.
Com
informações: www.estadao.com.br
Crédito
imagem: IA
