O direito de torcer
Texto escrito por Glauco Alexander Lima
“O Brasil foi embora cedo. Caiu diante da Noruega nas oitavas de final. Mas a Copa, indiferente à nossa tristeza, continuou correndo atrás da bola.
É aí que começa a orfandade do torcedor brasileiro.
A camisa amarela volta para a gaveta. A bandeira deixa a janela. O coração, porém, recusa-se a encerrar o expediente. O amante do futebol não abandona uma Copa pela metade. Continua diante da televisão como quem permanece numa festa depois que a pessoa amada foi embora.
Mas torcer para quem?
Há quem examine o currículo político das nações. Quem foi menos racista? Menos fascista? Qual império derramou menos sangue? Qual colonialismo foi menos cruel?
Se levarmos esse inquérito histórico até o fim, o debate vai para prorrogação interminável.
Outros escolhem pela geografia sentimental. Torcem pelo Sul contra o Norte, pela América contra a Europa. Há ainda os que preferem qualquer camisa, desde que não seja a da Argentina.
O brasileiro aceita perder para quase todo mundo. Para a Argentina, considera desaforo pessoal.
Mas acontece que do outro lado mora Messi.
E Messi perturba até o ódio mais bem organizado.
Aos 39 anos, ele chega a outra final de Copa. A bola encontra seus pés como quem volta para casa. Onde há adversários, ele enxerga passagens secretas. Onde há velocidade, põe pausa. Onde há força, responde com delicadeza.
Messi não joga futebol. Parece recordar alguma coisa que nós esquecemos.
É um extraterrestre disfarçado de homem baixo. Uma aparição sobrenatural. Um orgasmo interminável do futebol.
A Espanha apresenta outra tentação. Tem a serenidade de Rodri, que organiza o meio-campo como quem rege uma orquestra sem levantar a batuta. Tem Lamine Yamal e Nico Williams, dois jovens que jogam com a insolência de quem ainda não aprendeu a ter medo.
A juventude espanhola não pede licença. Dribla.
E o drible é uma pequena rebelião contra a ordem.
E nós?
Nós gostaríamos mesmo era de torcer pelo Brasil. Torcer por nós mesmos.
Era mais fácil quando o país chegava às finais carregando a bola e a imaginação nacional. O padeiro discutia a escalação. A professora explicava o impedimento. O cobrador de ônibus conhecia a solução tática que o treinador ignorava. Durante noventa minutos, éramos uma nação com o mesmo problema e o mesmo sonho.
Agora chegamos a cada Copa com cinco estrelas na camisa e uma interrogação nos pés. Temos jogadores valiosos, contratos milionários, centros de treinamento científicos e câmeras que medem até a saudade da bola. Falta-nos, às vezes, justamente aquilo que não cabe na planilha: o prazer de brincar.
Talvez, órfãos do Brasil, devamos torcer pelos gols.
Quem ama o futebol, ama o gol. O gol é o instante em que a lógica perde a autoridade. Um clarão. Milhões de desconhecidos saltam juntos, abraçam quem estiver ao lado e descobrem que ainda são capazes de uma felicidade sem explicação.
Podemos torcer também pelo futebol moleque. Pelo jogo divertido, artístico, atrevido. Pelo passe que ninguém previu. Pelo drible inútil — e, justamente por ser inútil, absolutamente necessário. Pela bola entre as pernas do marcador. Pelo calcanhar. Pelo corpo que ameaça ir e não vai. Pelo pé que inventa uma saída onde só havia parede.
O ser humano criou muitas artes com as mãos. Pintou, esculpiu, escreveu sinfonias, preparou banquetes e ergueu catedrais.
Mas inventou apenas uma grande arte feita com os pés.
O futebol.
Talvez por isso ele tenha ultrapassado a condição de esporte. Virou cultura popular mundial, uma língua falada sem dicionário.
A criança de Belém entende o drible da criança de Buenos Aires. O menino de Madri compreende a finta do garoto de Acra. A bola traduz todos.
Antes da televisão, o rádio dizia que o ponta avançava pela esquerda, e cada ouvinte construía seu próprio campo. A bola não aparecia, mas nós a víamos. O rádio entregava a voz; a imaginação fazia o resto.
Hoje temos trinta câmeras, estatísticas instantâneas e inteligência artificial. Vemos tudo.
Talvez imaginemos menos.
No domingo, podemos torcer pela Argentina, pela Espanha, pelo último grande milagre de Messi ou pela consagração da juventude espanhola.
Mas precisamos torcer, acima de tudo, pelo futebol.
Para que o dinheiro não compre cada minuto de encantamento. Para que os negócios não transformem jogadores em ativos, torcedores em consumidores e estádios em estúdios de publicidade. Para que o algoritmo não escolha o drible. Para que ainda sobreviva, dentro do atleta multimilionário, o menino que chutava uma bola na rua simplesmente porque aquilo lhe dava alegria.
O futebol é a coisa mais importante entre as coisas sem importância.
Argentina e Espanha disputarão a taça. Nós, órfãos do Brasil, disputaremos algo talvez maior: o direito de continuar amando o jogo.
Que vença Messi. Que vença Yamal. Que vença a Argentina. Que vença a Espanha.
Mas, pelo amor de Deus, que a ganância não mate a galinha dos ovos de ouro.
E que vença o futebol”
