O jazz da floresta: podcast celebra vanguarda esquecida da música instrumental de Belém.
Jam-bu Podcast é um projeto que joga luz sobre a era de ouro de um movimento que uniu o hibridismo caribenho à crueza regional. Com 12 episódios, primeira temporada já está no ar.
Quem pensa na identidade sonora do Pará costuma ser fisgado, de imediato, pelo tremor frenético do tecnobrega ou pelas batidas irresistíveis do carimbó.
No entanto, há um outro tipo de vibração
que moldou as noites de Belém e que agora ganha o protagonismo
merecido: o som sofisticado, livre e sinuoso da música popular
instrumental produzida em solo paraense.
Esse "jazz
com sotaque nortista" é o fio condutor do Jam-bu Podcast,
projeto que joga luz sobre a era de ouro de um movimento que uniu o
hibridismo caribenho à crueza regional.
A
primeira temporada, estruturada em 12 episódios, já está no ar.
Com exibições semanais todas às quartas-feiras, às
19h, no YouTube e nas plataformas de streaming de áudio, a
produção — viabilizada pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB
2025) — consegue o feito de ser, ao mesmo tempo, um documento
histórico rigoroso e uma conversa calorosa de bastidor.
Da
academia aos palcos: a pesquisa que virou som
O esqueleto
narrativo que sustenta o projeto nasce de uma tese de doutorado.
O
idealizador e apresentador é Advaldo Castro, professor de filosofia
e doutorando em Artes pela Universidade Federal do Pará (UFPA).
Mas não se engane pelo sotaque acadêmico: a relação
de Advaldo com essa cena musical pulsa em seu próprio DNA.
Ele
é filho de Dadadá Castro, percussionista lendário que viveu de
perto a efervescência da época e que enriquece o programa como
convidado especial no primeiro e no terceiro episódios.
Essa
jornada de resgate documental começou há mais de uma década, em
2014, quando Advaldo passou a investigar o legado de Walter Bandeira
e do Grupo Gema.
O estudo resultou em um livro publicado
em 2016 pela Imprensa Oficial do Estado (IOEPA) e Fundação Cultural
do Pará (FCP).
Desde então, o pesquisador se aprofundou
na década de 1980, período que marcou o ápice criativo e a
comunhão pública da música instrumental na capital paraense.
“A
cada descoberta nos jornais e demais arquivos públicos e privados, a
motivação para compartilhar tudo aquilo com as pessoas só
aumentava. O objetivo é materializar esta história que estava viva
somente na memória de quem a viveu”, revela Castro.
Uma
lacuna preenchida na identidade nortista
Mais do que
entretenimento, o Jam-bu Podcast cumpre uma função política e
cultural urgente: o registro da memória.
Ao ouvir quem esteve
em cima dos palcos e atrás das cortinas, o programa reconstrói a
linha do tempo de uma Belém que sempre funcionou como um polo de
vanguarda estética.
As
transmissões da temporada de estreia começaram no dia 03 de junho e
seguem em fluxo contínuo.
Nesta quarta, 1º de julho, os
convidados do quinto episódio são os músicos Tynnôko Costa e João
Bererê, numa conversa cheia de nostalgia e muita música.
Os
ouvintes e entusiastas da cultura brasileira podem acompanhar os
desdobramentos dessa história até o dia 19 de agosto, data do
episódio de encerramento.
É um prato cheio para
compreender a sofisticação da Amazônia, servido com o tempero
único que só o Pará consegue oferecer.
