Os EUA e o Pará em meio a soberba de Donald Trump e Daniel Santos, a humildade necessária na vida e a lealdade de Hana Ghassan
“A
soberba precede a ruína,
e a altivez do espírito, a
queda.
Melhor é ser humilde de espírito com os humildes
do
que repartir o despojo com os soberbos.”
Vivemos a era do “eu decido”. Quer dizer, a toda hora os algoritmos da vida, digo, das redes sociais, nos apresentam um fulano dos esportes, invariavelmente, “decidindo” quem é ou foi o melhor, quer seja no futebol, NBA, vôlei, tênis, tudo.
É
lista que não acaba mais. “Goat”, sigla de “great of
all time" pra lá, “melhor da história pra cá” e por
aí vai. Narciso e seu espelho, ego, inseparáveis, se refestelam no
Olimpo, tamanha a egolatria instalada nos intestinos e exteriores na
internet da vida.
Donald Trump, certamente, é o epítome
do que há de mais narcisista nesses tempos algo sombrios. Seu
antípoda mas nem tanto, Vladimir Putin, é outro ególatra
insuperável em seu transtorno de Narciso. E Xi Jinping,
que de tudo faz para manter-se o ditador chinês, é outro que não
fica muito atrás.
Lula, que se acha e ficou ainda mais soberbo
em seu segundo reinado, ops, governo, precisamente desde que Barack
Obama teve a infelicidade de o classificá-lo como “o cara”, é mais um da lista dos gabolas,
nariz empinado, metido a besta.
O
conhecido provérbio que virara a epígrafe escolhida dessas mal
traçadas… fora dito, dizem as escrituras sagradas, pelo sábio e
conciliador rei Salomão.
Em Belém do Pará, cidade dona
de encantos, problemas crônicos e um passado de glórias, vez que
comparado à complexa contemporaneidade, mais precisamente na sua
região metropolitana, hospeda um Narciso tupiniquim que botou na
cabeça que quer ser governador e, o pior não é que exista gente
que ainda vota nesse tipo de filisteu, mas a possibilidade do estado
aguentar mais este peso em sua rotina de província desimportante nos
destinos da nação brasileira.
Trump, Putin, Xi, Lula e
que tais causam fadiga e náusea por motivos distintos, mas
“harmônicos entre si”. Nessas horas de profunda aflição, este
que vos fala procura na sabedoria alheia, na pureza de alma dos
Salomões que passaram e deixaram legados nesse vasto mundo, onde
possa encontrar alguma resposta para a angústia que me consome.
Correr
para o berço da nossa civilização, seja na antiguidade clássica
ou quase dois milênios depois até a França iluminista, se não
resolve o vazio existencial que toma conta de mim, ao menos confere
alguma clareza nas zonas cinzentas que me rondam.
Falo, de
passagem, de gênios eruditos como Sócrates (e Platão), Montaigne,
Descartes e Voltaire; paixões indeléveis e intocáveis que há
décadas preenchem lacunas, dúvidas metafísicas e tédio diante da
soberba e/ou mediocridade alheias
Fato
da semana
Pouco
antes do anúncio do acordo de 65 mil bilhões de barris de petróleo
com a Venezuela, o presidente americano publicara um post na sua rede
própria, a Truth Social, a sua lista atual onde avaliava presidentes
do seu país. Um deboche, pior que escárnio.
Caso
clássico de insegurança intelectual e carência de senso de
responsabilidade em razão do alto cargo que ocupa, o sujeito se
autoproclamara “The
greatest”,
o maior, o melhor, o top das galáxias entre aqueles que postara,
posto que deixara outros de fora, sendo Ronald Reagan, na minha
lista, o mais célebre e cujos feitos históricos das suas duas
passagens pela Casa Branca deixam a primeira e decerto esta
presidência alternada do sujeito, no chinelo.
Perto
somente de Lincoln e os dois Roosevelt, Theodore e Franklin (os quais
classificara de greats), Donald J. Trump não serve nem de
adviser…
Dos
pecados capitais
Em
coluna publicada no mês de junho último, aqui para ler,
falo da natureza humana e dos 7 pecados capitais; uma alusão pontual
às factualidades da vida. Sobre eles, assim reproduzi seus
significados associados às respectivas origens na
antiguidade.
“Os
sete pecados (ou vícios) capitais são inclinações humanas que
servem de raiz para outros pecados, e foram classificados pela
tradição cristã para auxiliar no autoconhecimento e combate
espiritual”.
O rei Salomão, na esteira do provérbio
ora citado, dizia sobre a soberba, que anda geminada ao orgulho,
cegava a pessoa e a conduzia ao fracasso.
O sábio rei dos
judeus e homem santo também alertara que o temor do Senhor
“consistia em aborrecer o mal, incluindo a soberba, a arrogância e
os maus caminhos”.
E
mais, em Provérbios 13:10, que ambos, soberba e orgulho, estavam na
origem de conflitos, afirmando que "da soberba só resulta
contenda" e que o orgulho gerava “brigas, discussões” e
impedia que a pessoa aceitasse conselhos que poderiam tornar quem os
recebia, sábios.
Vício moral
Corta
para a França dos anos 1500/1600 e veja como o autor do “Discurso
do Método”, René Descartes, se referira à soberba:
A
soberba ou “orgulho vicioso” é definida como um vício moral e
uma paixão desregrada originada pelo desconhecimento do próprio
valor.
Tratada detalhadamente em sua última obra, “As
Paixões da Alma”, de 1649, ela ocorre, de acordo com o pensador,
“quando o indivíduo atribui a si mesmo uma perfeição que não
possui, gerando um amor-próprio injustificado.”
Para
Descartes, a mente humana tem o livre-arbítrio como sua maior
qualidade, mas a falta de direcionamento ético faz com que as
"maiores almas sejam capazes dos maiores vícios"
Anatomia
“O
soberbo se admira por qualidades falsas. Ele exige que os outros
compartilhem dessa ilusão. Embora pareça autossuficiente, o
orgulhoso depende secretamente da opinião alheia para sustentar seu
ego. A soberba cega o entendimento. Ela impede o uso correto da razão
e da dúvida metódica para enxergar a realidade”, escreveu.
Antídoto
O
filósofo e matemático, além de sábio, dizia que o oposto virtuoso
da soberba e do orgulho, seu verdadeiro antídoto, era a
generosidade, a única virtude capaz de destruí-los.
Verdadeira
Sabedoria
Montaigne, autor dos célebres Ensaios,
e que precedeu Descartes na escola de pensamento francesa, atribuiu à
soberba e à arrogância intelectual como sendo “os maiores
obstáculos para a verdadeira sabedoria, nascendo da falsa ilusão de
que a razão humana pode alcançar verdades absolutas”.
“Reconhecer
a própria ignorância e a incerteza afasta a vaidade e o dogmatismo
que geram conflitos. (...) A verdadeira sabedoria traz serenidade e
flexibilidade, em vez da rigidez de quem acha que sabe
tudo”.
Voltaire
e a intolerância
Encerro
esta peroração da minha francofilia recorrendo a outro favorito,
Voltaire, para quem a soberba e o orgulho compunham as principais
fontes da intolerância humana, do fanatismo religioso e da cegueira
intelectual.
No Dicionário
Filosófico e
no Tratado
sobre a Tolerância,
ambos volta e meia aqui recorridos, o genial autor escrevera que “o
orgulho desmedido impedia o homem de reconhecer suas próprias
limitações, levando-o a impor suas convicções aos outros pela
força”.
Seu pensamento sobre a soberba se dividiu em
três pilares: a raiz da intolerância religiosa; o orgulho dos
"pequenos" versus dos grandes" e o amor-próprio.
Não
se leve tão à sério
Nas
suas constatações, Voltaire se valia do próprio pensamento
associado a casos concretos e empíricos, afirmando que “a cura
contra a soberba destrutiva reside na razão, na dúvida filosófica
e na capacidade de rir de si mesmo, ferramentas essenciais para uma
sociedade livre e tolerante”. No alvo.
Sempre
ele
Nos
Diálogos, Platão afirma que, para Sócrates, seu mentor intelectual
(e espiritual), a soberba e a arrogância nascem da falsa ilusão do
saber, enquanto a verdadeira sabedoria começa com a admissão da
própria ignorância.
Segundo
o grego, a soberba cegava as pessoas e criava bolhas de convicções
absolutas.
“Quem é soberbo teme perder o status e recusa-se a aceitar erros”, escrevera.
Soberba
e etimologia
A palavra tem origem no latim; “superbia”,
derivada do adjetivo “superbus”, que significa “orgulhoso” ou
“altivo”. A raiz latina está relacionada à ideia de estar
acima, de se elevar acima dos outros.
Além
disso, a palavra “superbia” também está associada ao verbo
“superare”, que significa “ultrapassar”. A conexão
etimológica reflete a natureza da soberba como um sentimento de
superioridade e arrogância. Ou seja, uma elevada opinião de si
mesmo em relação aos outros.
Conclusão
Entre
Donald Trump – o mega soberbo –, e a sua “verdade universal”,
apenas conto os dias para que essa presidência passe.
Com
relação aos destinos da minha terra natal, em outro texto sobre
política, fiz um paralelo com pensamentos do florentino Nicolau
Maquiavel e traços de caráter dos séquitos da
nobreza. Aqui.
Lá
pelas tantas, reproduzi este trecho de O Príncipe:
“(...)
Não há outro meio de guardar-se da adulação, a não ser fazendo
com que os homens entendam que não te ofendem dizendo a verdade”.
Naquela altura, logo após, assisti a um vídeo no Instagram da
convenção do MDB estadual.
Nele, o ex-governador Helder
citava o momento chave da grande vitrine dos seus dois governos, a
criação das Usinas da Paz, e a ressalva feita pela então
secretária de Planejamento, Hana Ghassan, que o alertara,
independente da excelência da ideia, que ela somente se sentiria à
vontade para incluí-la no orçamento estadual quando houvesse
clareza de onde viriam os recursos.
Visto isso, lembrei de
imediato da conexão com a afirmação da hoje governadora e a máxima
maquiavélica. Ao gesto, além de competência, dá-se o nome de
lealdade. Para isso servem os auxiliares de verdade.
