Paysandu e a arte de tornar o difícil em quase impossível
Por Glauco Alexander Lima
Torcer para o Paysandu não é para fracos.
Deveria haver uma placa na entrada da Curuzu: “Antes de se apayxonar, consulte seu cardiologista.”
Porque o Paysandu não joga apenas futebol. Produz acontecimentos. Alguns gloriosos. Outros inexplicáveis.
E há os que ainda desafiam a ciência.
O primeiro milagre é o próprio tamanho do clube. Num futebol transformado em mega business, dominado por fortunas, investidores e mercados bilionários, o Paysandu segue com suas modestas finanças, no coração da Amazônia, arrastando multidões, enchendo estádios e atravessando gerações.
É uma afronta à geografia econômica do futebol.
Mas contrariar a lógica econômica é pouco.
O Paysandu gosta mesmo é de contrariar a zorra toda.
Mais uma vez tenta escapar da famigerada Série C. Missão difícil por natureza.
Só que, para o Paysandu, se está difícil, ainda está fácil.
Na última rodada, Mangueirão lotado, bastava um resultado administrável contra o Brusque.
Era só não inventar. E o Paysandi inventou. Perdeu. Classificou-se mesmo assim. Respiramos.
Pouco, claro.
Na abertura da fase decisiva, nova derrota. Agora para a Ferroviária de Araraquara.
E começa o velho ritual: cai treinador, cai comissão técnica e procura-se no mercado não exatamente um técnico, mas um milagreiro com carteira da CBF.
O sujeito chega para uma missão singela: salvar o que há poucas semanas era difícil e que o próprio Paysandu tratou de tornar quase impossível.
A boa notícia é que o Paysandu entende de impossível.
É capaz de perder quando ninguém imagina uma derrota e ganhar quando ninguém acredita numa vitória. Especialidade da casa e fora de casa.
Foi assim naquela noite em que Buenos Aires esperava uma goleada e um time vindo da Amazônia entrou na Bombonera e ganhou do Boca Juniors pela Libertadores.
Há coisas que, se um cronista inventasse, o editor mandaria cortar por falta de verossimilhança.
O Paysandu foi lá e fez. Talvez por isso torcer por esse clube seja um dos amores mais absurdos do futebol. Com o Paysandu, vamos do inferno ao céu na velocidade de um vento de chuva em Belém.
Num domingo estamos eliminados. Na segunda fazemos contas. Na terça demitimos alguém.
Na quarta chega o salvador. Na quinta aparece uma combinação matemática. Na sexta alguém lembra da Bombonera. No sábado já vamos subir.
Porque o torcedor do Paysandu tem um dom extraordinário: recupera a esperança numa velocidade absolutamente irresponsável.
E cá estamos outra vez.
Diante do quase impossível. Ótimo. Conhecemos o endereço.
Pode dar certo. Pode dar errado. Isso é futebol. Mas há uma certeza que tabela nenhuma altera:
é impossível deixar de ser Paysandu.
Porque Paysandu é Curuzu, Mangueirão, bandeira azul e branca, pai, filho, avô. É sofrimento voluntário e pertencimento. É uma multidão no coração da Amazônia lembrando ao Brasil:
nós estamos aqui. Então vamos de novo. Atrás do improvável.
Porque fazer o fácil qualquer um faz. Transformar o difícil em quase impossível para depois tentar o milagre… Ah, meu amigo e minha amiga.
Isso é para o eterno Campeão dos Campeões do Brasil!
