Uma carta a Ancelotti
Odete é uma brasileira real. Desempregada, analfabeta, mas sabe de cor todas as letras que tocam no rádio. Nossa heroína sai todos os dias atrás de emprego de carteira assinada, mas faz bicos como diarista e quando arruma um trocado, vais aos jogos do seu amado Paysandu. E foi assim que conheci Odete.
“Syanne, como jornalista boa que tu és, escreve uma carta pra mim?” O pedido de Odete me deixou com um nó na garganta. Era só o começo de uma overdose de emoção. Me senti a própria personagem de Fernanda Montenegro, no clássico “Central do Brasil, no qual ela escreve cartas para pessoas iletradas como a minha mais nova amiga, Odete. Decidi ajudá-la a realizar seu desejo: escrever uma carta para Ancelotti, técnico da Seleção. A danada sentou-se a meu lado e começou a ditar uma mensagem desconcertante:
Caro Ancelotti,
Muito prazer! Meu nome é Odete, tenho 42 anos e sou louca por futebol. Sei que o senhor não deve ler minha carta. Aliás, quem ainda escreve e, mais ainda, lê cartas? Mesmo assim resolvi lhe escrever pra fazer um pedido em nome da grande maioria dos torcedores brasileiros: escale o Endrick, por favor!!! O senhor não consegue enxergar que ele é o único, ali, que traz a alma do futebol brasileiro? Endrick é nosso menino, seu Ancelotti! Ele, sim, é nosso garoto de ouro. Não se preocupe em arriscá-lo. Ele tem personalidade de sobra pra jogar como titular e, literalmente, partir pra cima de qualquer adversário. Do Haiti à Argentina!
Seu time não tem jogadas, caro treinador. É só chutão pra frente, nem parece uma Seleção Brasileira jogando. Endrick traz nossa identidade pra dentro de campo. É só tocar pro moleque pro jogo incendiar. Em nome do torcedor brasileiro, por favor, deixa o menino jogar!
Ass: Odete Pereira Silva
Ao contrário da ficção, onde a personagem de Fernanda Montenegro enganava os analfabetos e não mandava as cartas, a enviei para os EUA. A carta, como vocês puderam perceber, é inundada por uma simplicidade e ingenuidade comoventes. Foi essa a melhor maneira que encontrei para tentar traduzir a alma brasileira nesse momento. Chegou a hora de assinar embaixo na esperança de, enfim, começar a mostrar o peso da única Seleção pentacampeã mundial.
