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A final que não aconteceu

Final de julho de 2002. Manhã de segunda-feira. Chego à redação da TV Liberal para mais uma semana de trabalho como repórter esportivo. O Paysandu havia perdido no final de semana para o Cruzeiro por 2x1, em pleno Mangueirão, no primeiro jogo da final da Copa dos Campeões. Estar nesse final já parecia um sonho para o tempo paraense. Afinal, em sua terceira edição, a competição tinha como seus dois primeiros campeões, nos anos anteriores, simplesmente os deuses do Olimpo do futebol brasileiro: Palmeiras e Flamengo. E o Paysandu de Belém do Pará, o Papão da Curuzu da Amazônia, tinha chance de se igualar a esses gigantes.

Fui recebido no trabalho por uma convocação que fez minha alma sair do corpo, tamanha felicidade. "Syanne, arrume suas malas! Vou fazer a cobertura de Cruzeiro x Paysandu em Fortaleza", decretou meu saudoso chefe, Gilson Faria. Em 8 anos pela TV Liberal, eu nunca havia viajado a trabalho para fora do Pará. Essa tão sonhada primeira vez já chegou, com requintes de deleite. Eu iria presenciar o meu tempo de infância decidindo o título mais importante de sua história, e logo na terra dos meus avós maternos, com a chance de rever primos queridos que não via há muitos anos.

No dia seguinte, amanheci completamente afônica. Parecia uma pata rouca, desesperada, gritando pela sua mãe, com medo de ver seu grande sonho escapar por entre os dedos. Meu chefe teve que ser pragmático: “Se não recuperares a voz, não poderás viajar” Fui ao otorrinolaringologista e supliquei: “traga minha voz de volta, pelo amor de Deus!” Depois de realizar uma bateria de exames, veio o diagnóstico: fiquei afônico por uma crise de ansiedade. Naquela época, quando não se falava em crise de ansiedade, a resposta foi “problema por causa emocional”

Teria sido melhor que eu não soubesse que o “problema” era eu mesmo. Fui pra casa com as obrigações de controlar a minha mente, e deixei a situação nas mãos do grande arquiteto do Universo✨Mas ele não quis que eu fosse.

Realizei todos os tratamentos caseiros possíveis, rezei, fiz promessa, e nada. O avião decolou para Fortaleza com um repórter que chegou à TV Liberal há alguns meses. Como num passe de mágica, ou feitiço, minha voz reapareceu como se nada tivesse acontecido. Podem se passar mil anos, infinitas encarnações, e eu jamais esquecerei esse trauma. Mas somente hoje, pela primeira vez resolvo escrever sobre o fato. 

Veio o dia da grande final e eu prefiro não assistir. 

A final da Copa dos Campeões não existe para mim, além da comemoração do título e imagens pós-jogo. Assim que eu soube do resultado, liguei a TV e chorei como uma criança. Alegria e revolta se misturavam. Por que eu fui impedido de viver aquele momento? Lembrei do meu pai, bicolor apaixonado, que havia desencarnado 7 meses antes. Nossa última conversa foi pelo telefone, ele no Hospital do Coração, em São Paulo, me dando parabéns pela matéria sobre o bicampeonato da série B, pelo Paysandu, no Esporte Espetacular. Era o futebol bordando, até o fim, a relação entre um pai e sua filha caçula.

Termino esse relato, com tintas de melancolia e saudade, com os versos de Gonzaguinha: “Quando eu solto a minha voz, 

Por favor, entenda.

É apenas o meu jeito de viver

o que é amar…” 

Amar a vida, o futebol, e quem me ensinou a amar o Paysandu. De onde você estiver, feliz Dia dos Pais, Sylvio Neno.




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Toni Remigio
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