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Tá pintando um novo 1994?

Texto de Glauco Alexander Lima

“O futebol também envelhece.

Não apenas os jogadores. As ideias.

Há tempos em que a bola sorri. Há tempos em que ela apenas trabalha.

Brasil e Japão foi um desses jogos.

Não foi uma partida ruim. Foi pior.

Foi uma partida comportada.

A bola parecia pedir licença para atravessar o meio-campo.

O drible olhava para os lados antes de nascer. A fantasia permanecia bloqueada, esperando autorização do departamento de risco.

No fim, venceu o Brasil.

Como em 1994.

E talvez aí esteja a notícia.

Há trinta e dois anos, o país carregava nas costas um jejum que pesava como uma mochila de pedras. Desde 1970, toda Copa começava com um sonho e terminava numa espécie de funeral nacional.

Então veio Parreira.

Seu Brasil não queria ser bonito.

Queria sobreviver.

Dunga virou filosofia. Mauro Silva, silêncio. Zinho, disciplina. Romário, exceção.

A beleza passou a ser um luxo.

O resultado virou obrigação.

O tetra curou uma ferida.

Mas deixou outra.

Descobrimos que era possível ganhar abrindo mão de parte da nossa alma futebolística.

Ontem, diante do Japão, senti novamente esse cheiro.

O cheiro do futebol que não quer perder.

O treinador italiano parece ter recebido uma missão simples.

Não invente.

Não improvise.

Não permita excessos.

Faça o feijão com arroz.

Evite sal e pimenta!.  Evite temperar.

Afinal, a Copa do Mundo não distribui pontos para quem encanta.

Distribui taças.

E taças pesam mais do que aplausos.

Vivemos a era do futebol industrial.

Tudo é medido.

Quilômetros corridos.

Mapa de calor.

Intensidade.

Compactação.

Probabilidade.

O computador já sabe para onde a bola deve ir antes que o camisa dez tenha vontade de contrariá-lo.

O algoritmo venceu a rua.

A plataforma digital derrotou a pelada.

A automação colocou a infância de castigo.

E talvez seja inevitável.

O futebol movimenta bilhões.

Não há espaço para aventuras quando uma derrota pode evaporar contratos, ações, patrocinadores e audiências planetárias.

Nesse espetáculo, Neymar cumpre um papel que ultrapassa as quatro linhas.

Sua presença rende manchetes, audiência, patrocinadores, engajamento.

Talvez seja justo.

Talvez seja apenas o retrato de um esporte que descobriu ser também uma gigantesca empresa de entretenimento.

Enquanto isso...

O Japão jogava.

E como jogava.

Lembrei de um tempo em que, nas peladas de bairro, quando alguém era desajeitado, logo surgia a maldade típica do futebol brasileiro.

— Parece japonês.

Como a vida gosta de corrigir nossas arrogâncias.

Ontem houve momentos em que os japoneses pareciam meninos criados entre vielas cariocas, ladeiras de Salvador ou campinhos vermelhos do Capão Redondo.

Jogavam leves.

Corajosos.

Trocavam passes como quem troca confidências.

Atacavam sem pedir desculpas.

O Brasil, curiosamente, parecia uma linha de montagem.

Onze operários altamente especializados.

Cada um executando sua função com precisão quase matemática.

Toyota Futebol Clube.

Honda Sporting.

Eficiência absoluta.

Emoção opcional.

Mas existe uma vantagem que o Brasil ainda conserva.

O talento.

Mesmo quando a safra não produz um Pelé, um Zico, um Romário, um Rivaldo ou um Ronaldo, continua oferecendo jogadores capazes de decidir uma partida com um gesto.

Foi assim.

Num lampejo.

A diferença entre as grandes seleções e as seleções comuns continua cabendo, muitas vezes, no espaço entre um toque genial e um segundo de distração.

O Brasil venceu.

Mereceu vencer.

Mas não fez ninguém voltar a ser criança.

Talvez isso explique a estranha sensação que ficou depois do apito final.

Não era felicidade.

Era alívio.

Antigamente, esperávamos o domingo para ver o Brasil brincar.

Hoje esperamos que ele não erre.

É uma mudança pequena na frase.

Enorme na alma.

Talvez esteja mesmo pintando um novo 1994.

Se vier o hexacampeonato, milhões irão às ruas.

Eu também.

Porque Copa do Mundo sempre merece festa.

Mas, quando a fumaça dos fogos baixar e a taça repousar na vitrine, talvez alguém faça uma pergunta que nenhuma estatística responderá.

Onde foi parar aquele menino descalço que um dia ensinou o planeta inteiro a acreditar que uma bola podia dançar?

Talvez ele ainda esteja por aí.

Escondido em algum campinho de terra.

Esperando apenas que um treinador volte a dizer aos seus jogadores a frase mais revolucionária do futebol:

"Vão brincar bola!!!”




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Toni Remigio
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