Na BBC: Governo Trump revoga visto da embaixadora do Brasil nos EUA em nova escalada na crise entre os dois países
Governo brasileiro acusou os EUA de adotar medidas hostis contra o Brasil e de tentar interferir nas eleições do país
Leandro Prazeres, Mariana Schreiber e Rute Pina, da BBC News Brasil em Brasília e São Paulo
Em
uma nova escalada na crise entre os dois países, o governo de Donald
Trump revogou nesta terça-feira, 04, o visto da embaixadora do
Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
Segundo
uma fonte do governo americano ouvida pela BBC News Brasil, a gestão
Trump avalia novas medidas diplomáticas caso o governo brasileiro
não autorize a nomeação do novo embaixador americano.
Por
enquanto, ressalta a fonte, Viotti não foi declarada persona non
grata e não foi expulsa do país. Com a medida atual, a
embaixadora terá que solicitar um novo visto para entrar no país,
caso saia dos EUA.
"O
presidente Trump tem o direito de determinar quem representa o povo e
os interesses dos Estados Unidos ao redor do mundo. O presidente
Trump está formando, em toda a sua administração, uma equipe
diplomática de primeira linha pautada pela política 'America
First', sujeita ao aconselhamento e consentimento do Senado.
Rejeitamos qualquer tentativa de países estrangeiros de interferir
em nossos processos internos", disse um porta voz do
Departamento de Estado à reportagem.
O
ato, segundo apurou a BBC, foi em resposta à demora do Brasil em
autorizar o nome indicado pela Casa Branca para chefiar a embaixada
dos EUA em Brasília, Daniel Perez. No rito diplomático, essa
autorização é a concessão de um agrément.
A
BBC apurou que o governo brasileiro não tinha a intenção de
bloquear a indicação de Perez. Contudo, os Estados Unidos
anunciaram o nome do embaixador antes de solicitar formalmente o
agrément ao Brasil, contrariando a praxe diplomática.
Além
de adiar a aprovação de Perez, o Itamaraty recusou, no mês
passado, pedidos de visto de Riley Barnes e Samuel Samson,
funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos, após o
jornal The Washington Post ter publicado uma reportagem
afirmando que a visita ao Brasil poderia ser utilizada para levantar
suspeitas sobre a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.
Barnes
e Samson visitariam Brasília de 27 a 30 de julho para se reunirem
com autoridades governamentais, líderes religiosos e representantes
da sociedade civil para discutir a integridade eleitoral, a liberdade
religiosa e a liberdade de expressão.
Em
nota, o governo brasileiro repudiou a decisão dos EUA e afirmou que
as justificativas apresentadas pelo Departamento de Estado são
falsas.
O
Itamaraty disse que Washington rompeu a praxe diplomática ao
anunciar o indicado para a embaixada em Brasília antes de solicitar
formalmente o agrément e afirmou que não há prazo definido para a
concessão da autorização.
O
governo também acusou os EUA de adotar medidas hostis contra o
Brasil e de tentar interferir nas eleições do país.
"A
decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada
deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões
ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi
pautada pelo respeito mútuo. Fica óbvio também o interesse
descabido de interferir na próxima eleição para presidente",
diz um trecho da nota.
Segundo
o diplomata aposentado Rubens Barbosa, ex-embaixador em Londres e
Washington, a decisão do governo Trump de revogar o visto é um
"precedente perigoso" e marca a escalada da crise política
entre os dois países.
"Nunca
houve isso (a revogação do visto da embaixadora) na história do
Brasil na relação com os Estados Unidos", disse à reportagem.
Ela
afirma que foi um problema o governo americano ter ignorado o rito
normal da diplomacia e ter anunciado seu novo embaixador para o
Brasil sem antes ter solicitado o agrément ao governo brasileiro.
"Na
praxe diplomática, a forma é importante. A primeira coisa que têm
que fazer é pedir o agrément", destaca.
"E
o agrément demora uns 30 dias. Então, é uma forçação um
pouco de barra para antecipar a chegada do embaixador aqui",
continuou.
Oliver
Stuenkel, professor associado de Relações Internacionais da
Fundação Getúlio Vargas (FGV), também vê a reação do governo
Trump como algo desproporcional e que aumenta a pressão da Casa
Branca sobre o Brasil.
Ainda
assim, não acredita que o governo Lula autorizará rapidamente que
Daniel Perez assuma a embaixada dos EUA em Brasília. Com isso,
ressalta, a embaixadora brasileira também deve continuar sem o visto
americano.
"Acho
que o governo brasileiro, diante das declarações públicas de
Trump, de Marco Rubio, prefere não ter um embaixador americano no
país que possa buscar legitimar teorias conspiratórias sobre o
sistema eleitoral brasileiro", continuou.
Quem
é Maria Luiza Ribeiro Viotti
De Belo Horizonte, Viotti foi a primeira mulher a ocupar o cargo de embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, com aprovação em sessão plenária do Senado Federal em maio de 2023.
Na
ocasião, ela destacou que a agenda entre Brasil e Estados Unidos não
se restringia apenas às relações econômicas, mas também incluía
os planos político, o ambiental e a defesa dos direitos humanos.
"Hoje
o Brasil e os Estados Unidos se reconhecem como duas grandes
democracias que compartilham valores", afirmou a diplomata.
Ela
ingressou na carreira diplomática em 1976 e se graduou em Ciências
Econômicas pela Associação de Ensino Unificado de Brasília em
1978, onde também concluiu os cursos de Aperfeiçoamento de
Diplomatas (1982) e Altos Estudos (1995). É mestre em economia pela
Universidade de Brasília.
Foi
a representante permanente do Brasil junto à Organização das
Nações Unidas, de 2007 a 2013. Nesse cargo, chefiou a Delegação
do Brasil ao Conselho de Segurança da ONU e presidiu o Conselho de
Segurança da ONU.
Também
foi embaixadora do Brasil na Alemanha, de 2013 a 2016. Foi chefe de
Gabinete do Secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres,
durante o seu primeiro mandato, de 2017 a 2021.
Durante
sua carreira, ocupou funções nas áreas de promoção comercial,
organismos multilaterais e política bilateral.
Quem
é Daniel Perez, indicado de Trump para ser embaixador dos EUA no
Brasil
Daniel Pérez foi indicado por Trump para assumir a embaixada americana no Brasil em 1º de junho.
Seu
nome ainda precisa ser aprovado pelo Senado americano antes de ser
confirmado no cargo.
Aos 38 anos, Perez preside desde 2024 a Câmara dos Representantes da Flórida, equivalente a uma Assembleia Legislativa no Brasil.
Integrante
do Partido Republicano, ele é aliado de Trump e, no ano passado,
chegou a ser citado como possível candidato ao cargo de
procurador-geral do estado.
Filho
de imigrantes cubanos, Perez nasceu em Nova York e se mudou para a
Flórida ainda criança, em 1993.
Advogado, formou-se
pela Faculdade de Direito da Loyola University New Orleans. Ele é
casado e pai de três filhos.
Perez
foi eleito deputado estadual pela primeira vez em 2017. Segundo
informações divulgadas em seu site oficial, sua atuação
parlamentar tem como foco temas ligados ao bem-estar infantil, saúde,
fortalecimento das famílias, educação e integridade eleitoral.
Nas
redes sociais, ele costuma adotar o slogan Make America Great
Again (Maga), associado ao movimento político liderado por
Donald Trump. Em diversas publicações, também manifesta apoio às
principais pautas do presidente americano.
Em
janeiro deste ano, Perez elogiou a operação militar dos Estados
Unidos na Venezuela que resultou na captura do ex-presidente Nicolás
Maduro e de sua esposa.
Em
uma publicação no X, afirmou que Trump havia tomado "medidas
decisivas para trazer paz e segurança ao nosso hemisfério" e
para desferir "um grande golpe contra os cartéis de drogas que
lucram com a morte e a destruição de vidas americanas".
Caso
tenha o nome aprovado pelo Senado, Perez será o primeiro embaixador
dos Estados Unidos no Brasil desde a saída de Elizabeth Bagley,
indicada pelo ex-presidente Joe Biden. O posto está vago desde
janeiro de 2025, quando Trump retornou à Casa Branca.
Por
que governo Lula negou vistos de funcionários da Casa Branca
O Itamaraty se recusou a conceder os vistos para Riley Barnes e Samuel Samson, funcionários do Departamento de Estado americano, no fim de julho. Os planos de sua viagem ao Brasil foram revelados pelo jornal The Washington Post.
A
agência Reuters informou que um porta-voz do governo americano
afirmou que Barnes e Samson visitariam Brasília de 27 a 30 de julho
para se reunirem com autoridades governamentais, líderes religiosos
e representantes da sociedade civil para discutir a integridade
eleitoral, a liberdade religiosa e a liberdade de expressão.
No
entanto, para o Planalto, a visita dos dois funcionários poderia ser
usada para levantar suspeitas sobre a confiabilidade do sistema
eleitoral brasileiro.
O
Departamento de Estado americano rejeitou a acusação e classificou
as alegações como "mentira sem fundamento".
Samson
é subsecretário adjunto de Estado no Departamento de Democracia,
Direitos Humanos e Trabalho (DRL).
Segundo
o Washington Post, Samson viajou da África para a Europa,
promovendo a linha política conservadora do presidente Trump e
cultivando laços com grupos de direita.
Riley
Barnes ocupa o cargo de secretário-adjunto de Estado para
Democracia, Direitos Humanos e Trabalho (DRL) no Departamento de
Estado dos EUA.
Desde
abril, tem também funções de embaixador extraordinário para a
liberdade religiosa internacional.
O
Departamento de Estado americano é comandado por Marco Rubio, que é
um crítico contumaz do governo Lula e considerado um aliado da
família Bolsonaro.
A
decisão veio dias depois de uma fala do candidato à Presidência e
senador Flávio Bolsonaro, que fez acusações sobre as urnas
eletrônicas já desmentidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE),
em evento com presença de diplomatas estrangeiros.
Com
informações: www.bbc.com/portuguese
Crédito imagem: Gettty Images via BBC News Brasil
