ONU alerta: El Niño pode deixar cerca de 50 milhões de pessoas em fome aguda até o fim de 2027
Relatório do Programa Mundial de Alimentos da Organização prevê que a intensidade do fenômeno vai agravar a insegurança alimentar em 45 países
O fortalecimento do fenômeno climático El Niño poderá levar cerca de 50 milhões de pessoas à fome aguda até o fim de 2027, agravando uma crise alimentar que já atinge centenas de milhões de pessoas em todo o mundo.
O alerta é do Programa Mundial
de Alimentos (PMA) da Organização das Nações Unidas (ONU), que
prevê um aumento superior a 20% no número de pessoas em situação
de insegurança alimentar aguda nos 45 países monitorados pela
agência.
Segundo o relatório, atualmente cerca de 225
milhões de pessoas vivem em condições de insegurança alimentar
aguda nesses países.
Mesmo que o El Niño se
desenvolva com intensidade menor do que a prevista em alguns modelos
climáticos, o fenômeno deverá agravar a situação em diversas
regiões vulneráveis.
As
áreas com maior risco são a América Central, a América do Sul, o
Caribe e o sul da África. Já o sul e o sudeste da Ásia deverão
registrar chuvas abaixo da média, cenário que ameaça a produção
agrícola e compromete a oferta de alimentos.
O
El Niño é um fenômeno climático que ocorre periodicamente
no Oceano Pacífico e altera os padrões de temperatura e
precipitação em diversas partes do planeta.
Neste
ciclo, cientistas avaliam que ele poderá ser o mais intenso em pelo
menos 70 anos, com seus efeitos potencializados pelo aquecimento
global.
Especialistas
já haviam advertido que a combinação entre um El Niño
forte e a crise climática poderia tornar 2027 um dos anos mais
quentes da história.
Agora, o novo relatório do PMA
destaca que o impacto poderá ir além das temperaturas recordes,
atingindo diretamente a segurança alimentar de milhões de pessoas.
A
agência informou que pretende reduzir os efeitos da crise por meio
de sistemas de alerta precoce e ações humanitárias antecipadas.
Para isso, estão previstos pelo menos US$ 80 milhões em
recursos destinados à preparação e à resposta antes que os
efeitos climáticos atinjam seu pico.
Mesmo assim, os
impactos poderão se prolongar por anos. Em muitas regiões,
agricultores precisarão de mais de um ciclo agrícola para recuperar
suas reservas de alimentos.
No sul da África, por
exemplo, a principal safra será cultivada entre outubro deste ano e
março de 2027, mas os efeitos mais severos deverão aparecer cerca
de nove meses depois, durante o período de escassez entre as
colheitas.
“O
maior impacto sobre a segurança alimentar no sul da África ocorrerá
durante o período de escassez entre 2027 e 2028”, afirmou Richard
Choularton, diretor do Serviço de Clima e Resiliência do PMA.
Jean-Martin
Bauer, diretor de Segurança Alimentar da agência, explicou que a
boa colheita do ano passado ainda oferece algum alívio aos
agricultores.
Segundo ele, os preços dos alimentos
permaneciam relativamente favoráveis no fim de 2025, embora já
sofressem pressão devido aos conflitos no Oriente Médio.
Durante
o episódio de El Niño registrado entre 2015 e 2016, entre 60
milhões e 100 milhões de pessoas enfrentaram insegurança alimentar
aguda.
Na época, o PMA ainda não contava com os atuais
programas de resposta antecipada, o que faz a agência acreditar que
os efeitos desta nova ocorrência poderão ser parcialmente
mitigados.
Apesar
disso, Choularton alertou que a falta de financiamento comprometeu
parte da coleta de dados em alguns países, dificultando o
monitoramento da crise.
O
PMA ressalta que seus levantamentos abrangem apenas os 45 países
onde mantém operações permanentes. Isso significa que os impactos
do El Niño poderão ser ainda maiores em outras regiões
vulneráveis.
Além
do aumento da fome, o fenômeno também deverá pressionar os preços
dos alimentos em escala global. Bauer afirmou que esse cenário
dependerá, em parte, das decisões dos grandes países exportadores.
“É
fundamental evitar que grandes produtores suspendam suas exportações
de alimentos”, disse. “Em nível regional, certamente poderemos
ver preços mais altos e dificuldades de acesso aos alimentos.”
Na
Europa, agricultores já relatam perdas provocadas pelo calor extremo
e pela escassez de chuvas, enquanto varejistas se preparam para novos
aumentos nos preços dos alimentos, reforçando as preocupações de
que os efeitos do El Niño poderão ser sentidos muito além
das regiões tradicionalmente mais vulneráveis.
Com
informações: theguardian.com
Crédito imagem: Reprodução
