Na BBC: Há 'vencedor' na disputa de alas do STF?
Especialistas ouvidos pela BBC avaliam que, embora a estratégia de ministros aliados a Moraes tenha sido bem-sucedida ao conseguir adiar a análise do caso, o STF é o maior perdedor da sessão
Iara Diniz, da BBC News Brasil em São Paulo
A
sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) da terça-feira, 15,
convocada pelo presidente da Corte, Edson Fachin, para analisar a
petição 16.662 — que trata das mensagens trocadas entre o
ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro —
terminou sem que os principais pontos em discussão fossem
analisados.
A
possível abertura de uma investigação contra Moraes e a eventual
nulidade do relatório das conversas, produzido pela Polícia Federal
a pedido do ministro André Mendonça, não foram deliberadas.
Em
vez disso, o plenário acabou concentrado em uma questão de ordem
levantada pelo ministro Flávio Dino: se os processos envolvendo
Moraes e Mendonça deveriam ser analisados conjuntamente ou
separadamente.
A votação dessa questão foi interrompida
por um pedido de vista também de Dino, quando o placar estava em 4 a
3 pela análise separada dos casos.
Com isso, o Supremo
terminou a sessão sem concluir sequer a questão preliminar que
poderia definir o caminho para a análise do pedido de investigação
contra Moraes.
Na
avaliação de Ana Laura Barbosa, professora de direito da Fundação
Getulio Vargas de São Paulo (FGV-SP) e do Insper, Dino usou uma
"cartada" regimental para postergar o julgamento, movimento
que acabou beneficiando Alexandre de Moraes.
Para
ela, o pedido de vista foi uma estratégia bem-sucedida da ala de
Moraes — da qual Dino faz parte —, que saiu vitoriosa neste
primeiro embate, embora o mérito da petição que pode levar à
investigação do ministro seja analisado posteriormente.
"Essa
estratégia protelatória e diversionista ela foi bem-sucedida e ela
se concretizou com um pedido de vista injustificável. Por mais que
não seja novidade no histórico do tribunal a existência de um
pedido de vista depois de todos os votos já proferidos na sessão,
ainda assim, merece e deve ser objeto de críticas", afirmou.
"Não
há razões que deveriam justificar um pedido de vista depois de
todos os votos possíveis já proferidos, que não o interesse
deliberado em postergar uma deliberação", acrescentou.
Professor
de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), João Pedro
Pádua rejeita a ideia de uma "ala vencedora" e uma "ala
perdedora" no STF.
Para
ele, esse enquadramento transforma uma disputa jurídica e
institucional em uma disputa política entre grupos de ministros, que
"apesar de ser inegável" no caso analisado, "é
lamentável", afirma.
Pádua
considera uma "hipótese plausível" que Dino tenha levado
em conta a possibilidade de um empate na votação da questão de
ordem ao pedir vista.
"E
tendo em vista que o desempate provavelmente seria dado pelo voto de
qualidade do presidente [Fachin], ou seja, ele optou por pedir vista
para não deixar a questão ser decidida ali naquela sessão",
pondera.
Para
Pádua, porém, o principal resultado da sessão não foi uma vitória
de um grupo sobre outro, mas o fato de o Supremo ter terminado o dia
sem tomar uma decisão — o que, na avaliação dele, torna o
próprio tribunal o principal perdedor.
"O
tribunal se mostrou incapaz de decidir sobre um dos pedidos mais
delicados que se apresentou pra ele nos últimos tempos. É um
tribunal que não é capaz de tomar suas decisões, é incapaz de
julgar seus pares. Portanto, o tribunal como instituição acaba
ficando mais vulnerável."
Gabriela
Zancaner, professora de Direito da PUC-SP, tem uma avaliação
semelhante. Para ela, não houve um vencedor na sessão, mas um
desgaste generalizado para o Supremo, que saiu "ainda mais
desmoralizado" da sessão aos olhos da população.
"Eu
acho que nós tivemos um saldo bastante negativo para o Supremo
Tribunal Federal nessa sessão. Assistir a esses embates, a essa
desunião do tribunal, rachado da forma que ele está, é algo, a meu
ver, absolutamente inesperável e absolutamente indesejado em uma
democracia", destaca.
"E
tudo isso em um timing [momento] às vésperas de uma eleição tão
importante como a eleição presidencial", acrescentou.
No
campo eleitoral, Zancaner vê um possível impacto negativo maior
para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após esse primeiro
embate na Corte.
"A
gente precisa ver como os candidatos vão explorar isso nas
campanhas, porque a gente sabe que um dos candidatos está ligado,
ainda que involuntariamente, a uma ala do Supremo, o outro candidato
está ligado a outra ala", afirma.
Ela
se refere ao senador Flávio Bolsonaro (PL-SP), ligado a André
Mendonça (que foi indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro), e
Lula, mais próximo de ministros da ala de Alexandre de Moraes.
"Num
primeiro momento, eu vejo uma desvantagem para o presidente Lula, por
conta desse reforço de impunidade que existe e por conta da figura
do ministro Alexandre de Moraes, que acaba sendo o centro de tudo
isso e que foi relator do processo que condenou Jair Bolsonaro."
A
condução de Fachin
A sessão do STF também colocou em evidência o papel do presidente da Corte, Edson Fachin. Enquanto os ministros se sucediam em pedidos de palavra e embates calorosos, Fachin adotou uma postura mais contida na condução do julgamento.
Durante
o bate-boca entre os ministros, chegou a ser cobrado por Dino por não
tomar providências para controlar a sessão.
Para
especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, era esperada uma maior
firmeza do presidente, que pareceu "sem controle" em alguns
momentos da sessão.
"A
presidência do ministro Edson Fachin na sessão foi muito solta. Era
nítido que ele não estava conseguindo conduzir a sessão. As
pessoas vinham pedindo partes e partes, e não havia ordem, um
atropelava o outro...isso mostrou bem essa fragilidade que a gente
tem na presidência do STF", avalia Zancaner.
"Eu
entendo que ele não é essa pessoa agressiva, incisiva. Mas talvez,
neste momento, o Supremo Tribunal Federal precisasse de um juiz
daqueles que batessem realmente o martelo na mesa, o que a gente não
viu acontecer."
Na
avaliação da professora da PUC-SP, o presidente da Corte sai
enfraquecido da sessão desta terça.
"Ele
já estava enfraquecido porque demorou a se manifestar, a marcar as
sessões. E acho que, aos olhos da população, ele sai ainda mais
enfraquecido porque não teve uma condução que segurou os membros
do STF."
Barbosa
pondera, por sua vez, que, como presidente do tribunal, Fachin não
poderia "caçar a palavra" de outros ministros. Ainda
assim, tem a tarefa de organizar a sessão de julgamento.
"A
opção do ministro Fachin, talvez por ter essa característica mais
passiva, foi oferecer a palavra a todos que pediram a palavra e não
instar que os ministros deixassem de falar. "Mas, de fato,
talvez ele poderia ter sido mais incisivo em pontuar que os ministros
concluíssem logo suas falas, analisa.
Álvaro
Pádua de Jorge, professor da FGV Direito Rio, vê a posição de
Fachin como particularmente delicada.
Para
ele, o presidente do STF procurou levar em conta as preocupações
dos demais ministros na sessão, mas uma condução menos firme pode,
em determinadas circunstâncias, "gerar desgaste dentro da
própria Corte".
"A
posição do Fachin é muito difícil e delicada em um processo cujo
rito é inédito, um regimento que não é claro sobre o tema, entre
o olhar externo sobre o Supremo, o olhar interno. Não é uma tarefa
simples, é complexa e me parece que será assim enquanto houver esse
clima conflagrado no Supremo."
Questões
em aberto
Outra questão que ficou em aberto após a sessão é se Moraes e Mendonça poderão participar das próximas votações.
O
Supremo não definiu de forma clara se eles podem votar nas questões
que os envolve diretamente, o que foi criticado pelo advogado Renan
Melo, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
"Alexandre
de Moraes é parte, ele pode votar, não pode? Mendonça pode? Não
ficou claro isso. Há um nítido atropelo nos ritos", afirma.
Ana
Laura Barbosa criticou o fato de Moraes ter participado da votação.
Para ela, o ministro era diretamente interessado no resultado da
questão discutida e poderia estar sujeito a uma hipótese de
impedimento ou, no mínimo, de suspeição.
"Me
parece lamentável que o ministro Alexandre de Moraes não se
declarou impedido para julgar o caso e que tampouco ninguém tenha
questionado e isso tenha sido dado como fato", afirmou.
A
situação de Mendonça, segundo ela, é diferente. O ministro era
relator da petição 16.662, que discutia justamente a conduta de
Moraes, e o simples fato de exercer essa função não seria
suficiente para impedi-lo de participar do julgamento.
Uma
eventual suspeição de Mendonça dependeria, na avaliação de
Barbosa, de se considerar que os dois processos estão
necessariamente conectados.
Isso porque o resultado da
PET 16.662 poderia ter consequências sobre outro processo em que
Moraes questiona a atuação de Mendonça e aponta possíveis crimes.
Para
João Pedro Pádua, a questão sobre o impedimento de Alexandre de
Moraes e André Mendonça deve ser analisada de acordo com cada etapa
do julgamento.
Segundo
ele, uma interpretação mais conservadora das regras de impedimento
levaria a considerar que nenhum dos dois ministros deveria ter votado
na questão de ordem durante a sessão de terça, já que as decisões
poderiam ter impacto sobre pedidos de abertura de investigação nos
quais ambos aparecem como partes.
Pádua,
porém, considera que a decisão de Fachin de permitir os votos foi
pragmática. Como Moraes e Mendonça tinham posições opostas sobre
a questão, a participação dos dois não alteraria o resultado
numérico do julgamento.
"Eu
acho que o que o ministro Edson Fachin fez ali foi ter uma decisão
pragmática para evitar mais uma discussão, uma subdiscussão numa
questão que já era uma discussão processual."
Para
Pádua, a análise é diferente quando o STF passar ao mérito dos
pedidos de abertura de investigação contra os próprios ministros,
quando ambos estariam impedidos de votar.
Com
informações: www.bbc.com/portuguese
Crédito imagem: Reprodução SCO/STF
