Na BBC: Sites em vários países são desativados após IA detectar falhas graves de segurança
Vulnerabilidades foram detectadas na linguagem da programação
Tom
Gerken e Laura Cress, repórteres de tecnologia da BBC e Joe Tidy,
correspondente de assuntos cibernéticos do Serviço Mundial da BBC
Governos
e organismos internacionais estão orientando que sites fiquem
alertas e corrijam duas falhas críticas de cibersegurança
encontradas em uma linguagem de programação que sustenta grande
parte da internet. As
vulnerabilidades foram detectadas na linguagem de programação PHP,
e uma solução foi publicada na tarde desta quarta-feira, 21.
Várias agências de cibersegurança recomendaram que as organizações que não conseguirem aplicar as correções a tempo considerem a possibilidade de suspender seus sites — medida que levou entidades como o governo finlandês, a prefeitura de Edimburgo e a BBC a tirar páginas do ar.
As
falhas foram descobertas por meio de inteligência artificial (IA). A
empresa de cibersegurança Wiz afirmou que se trata das
"vulnerabilidades mais graves já descobertas" por essa
tecnologia.
Sites
são retirados do ar em todo o mundo
Na Finlândia, o governo suspendeu temporariamente seus serviços online públicos, enquanto a agência de cibersegurança dos Países Baixos anunciou que desconectaria seu próprio site devido à falha.
A
Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos emitiu uma
recomendação semelhante na rede social X, orientando as
organizações a desconectarem seus sistemas caso não pudessem
corrigi-los.
Enquanto
isso, a Casa Branca afirmou que agências federais estão trabalhando
com os principais laboratórios de IA para acelerar a resolução do
problema. Em
uma publicação no X, a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi
orientou que proprietários de sites verifiquem se estes utilizam a
linguagem PHP.
A
Fundação Wikimedia, que gerencia a enciclopédia online Wikipedia,
declarou estar tratando de falhas de segurança.
"Desativamos
outros sistemas como medida de precaução, até que possam ser
atualizados de forma segura", informou em um comunicado. Isso
fez com que algumas pessoas não conseguissem acessar certas páginas
da Wikipedia na quarta-feira.
O site da prefeitura de
Edimburgo, capital da Escócia, também ficou inacessível, assim
como as plataformas online de vários programas da BBC, incluindo
Doctor Who e The Traitors.
O PHP é utilizado em
servidores para implementar o que você vê ao visitar páginas na
internet.
Embora nem todos os sites o utilizem, ele é a base de uma grande parte da internet.
Cerca
de 70% da internet afetada
Outros
sites, incluindo a plataforma de arte DeviantArt, informaram estar
"temporariamente fora do ar para manutenção", sem
especificar o motivo. As falhas foram descobertas por pesquisadores
de cibersegurança das empresas Calif e Wiz.
Para isso,
utilizaram IA de última geração, desenvolvida pela OpenAI — que
afirmou tratar-se de "um dos problemas de segurança de maior
impacto dos últimos tempos". Segundo as empresas que detectaram
o problema, as falhas passaram despercebidas por mais de uma década.
"Modelos
de ponta foram fundamentais para tornar esse processo viável,
permitindo-nos desenvolver e adaptar exploits funcionais em diversas
aplicações em questão de horas", afirmou a Wiz em um blog.
Estima-se
que "aproximadamente 70%" da internet tenha sido afetada,
embora a BBC não tenha conseguido verificar esse número.
O
Instituto Nacional de Saúde Pública e Meio Ambiente dos Países
Baixos retirou seu site do ar. A página da Tweede Kamer, a câmara
baixa do Parlamento nacional, também ficou inacessível.
O
Centro Nacional de Cibersegurança do Reino Unido (NCSC), assim como
seus homólogos na União Europeia e na Austrália, instaram os sites
que utilizam PHP a aplicar as correções.
"Quando
uma solução imediata não for viável, as organizações devem
considerar a possibilidade de desconectar o sistema até que o
problema possa ser totalmente resolvido", indicou o NCSC em um
comunicado.
O
órgão nacional de cibersegurança do Japão e autoridades de
cibersegurança da União Europeia emitiram um alerta semelhante.
Temor
de ataques cibernéticos
A empresa de cibersegurança Huntress explicou que o "PHP está em toda parte". "Ele funciona discretamente em sites como WordPress, Drupal, Joomla e Magento, plataformas de hospedagem compartilhada, painéis de controle e uma grande quantidade de softwares que nem sequer informam que executam PHP internamente", explicou.
Don
Smith, especialista em cibersegurança da Unidade de Combate a
Ameaças da Sophos, disse à BBC que estas falhas seriam
"provavelmente um alvo prioritário" para os
cibercriminosos.
Ele
explica que o maior desafio agora não está em simplesmente instalar
uma correção para resolver o problema, mas sim encontrar e
gerenciar todas as instâncias em que o PHP está sendo executado.
"O
uso do PHP é generalizado; ele pode estar presente em sites
públicos, sistemas de gerenciamento de conteúdo, plataformas de
hospedagem e produtos de terceiros — às vezes, sem que a
organização que o utiliza perceba", afirmou.
Smith
diz ser fundamental que as organizações fiquem atentas a sinais de
que um invasor "já possa ter conseguido se estabelecer" no
sistema.
Um
ciberataque desse tipo poderia permitir que cibercriminosos
instalassem software malicioso e sabotassem sites.
Dane
Knecht, diretor de tecnologia da empresa de infraestrutura de
internet Cloudflare, afirmou estar "observando o surgimento de
ataques iniciais e atualizando as medidas de mitigação à medida
que novos vetores aparecem".
O
NCSC indicou que, uma vez feita a correção, as organizações devem
"monitorar constantemente as atualizações de segurança de
fornecedores de software, incluindo dispositivos e serviços que
possam conter PHP".
Ainda
não está claro quais versões da linguagem de programação foram
afetadas, mas o Serviço de Cibersegurança para as Instituições,
Órgãos e Organismos da União Europeia informou que o problema pode
atingir todas as versões a partir do PHP 5 — lançado em 2004.
A
Fundação PHP disponibilizou a atualização apenas para as versões
mais recentes; no entanto, recomenda-se fortemente que os usuários
do PHP 8.1 ou de versões anteriores realizem a atualização.
Com
informações: www.bbc.com/portuguese
Crédito ilustração: Reprodução Getty Images, via BBC News Brasil
