Para que mais
Adentro a pequena padaria no meio da manhã, o alvoroço do início do dia já passou. Os apressados que lotam o diminuto salão retangular logo na alvorada em busca do desjejum já se encontram agora reféns dos compromissos do dia. A velha chapa de inox se queda em silêncio, as estufas estão cheias de toda sorte de doces e salgados, é só mais um dia comum. No canto, em pequena mesa, bem arrumada moça serve quem imagino ser seu filho, o garotinho, ainda com roupa da escola brinca com o sachê de açúcar enquanto sua mãe tenta com certo custo adoçar seu achocolatado. Segundos depois o pai adentra o estabelecimento e se senta à mesa, o sorridente garotinho senta em seu colo, os três se divertem e gargalham com algo que ele falou, aquele garoto, no meio do dia, saiu mais cedo da escola e por algum motivo está ali desfrutando da companhia dos pais em um simples e aprazível lanche, nada os perturba, não há luxo, mas sobra alegria.
Enquanto aguardo na fila me pergunto em que ponto do escoar da vida deixamos de dar a devida atenção a esses momentos? Quando exatamente a rotina de obrigações sequestra nossa percepção de modo a nos convencer que o que é bom reside no complexo e não no simples? Tudo parece ter que ser exaustivamente elaborado para ser satisfatório e assim esses pequenos fragmentos vão sendo relegados a normalidade.
Em algum marco temporal somos convencidos por tudo que nos cerca, que restaurante bom é caro, bem frequentado ou sofisticado. Que viagem de verdade é para o exterior, onde invariavelmente somos alvos de xenofobia velada. Porém fingimos que lá fora tudo é perfeito, vale tudo para o registro do Instagram. Que carro tem que ter banco em couro e multimídia de última geração. Dentre essas premissas e a desarrumação feroz da vida urbana, a boa e velha simplicidade se esvai com tudo de bom que nela reside.
Vasculho lembranças em busca de sentimento análogo ao do garotinho da padaria, a felicidade simples e pura. Em um golpe de sorte o encontro com certa fartura. A melhor refeição que já fiz me foi servida nos rincões do nordeste brasileiro, por um ignaro senhor em sua casa de barro. Peixe perfeitamente assado em brasa forte, regado apenas com limão e sal, macaxeiras fritas e uma fresca salada do dia, tudo isso servido ali, com os pés na areia, sob a brisa salgada do atlântico sul, sentados em mesa de madeira apodrecida cobertos por uma lona preta que nos livrava do sol. Simples e perfeitamente bem executado.
Tenho o privilégio de já ter saído do país por mais de uma vez, de conhecer alguns estados de nossa federação e já ter partilhado de muitas experiências em solos desconhecidos e lhes asseguro, nenhuma viagem foi ou será melhor do que as que fazíamos a Salinas no primeiro carro da família, um fiat uno duas portas que como luxo tinha apenas um combalido ar condicionado. Me sentia em um conversível alemão no banco de trás enquanto meu pai e minha mãe se engalfinhavam divertidamente escolhendo o próximo cd que ouviríamos no caminho até o litoral. No retorno para casa, a sensação única de cansaço e relaxamento que só um dia de sol e de praia podem trazer me abraçavam e embalavam em profundo sono. Tudo sem pretensão alguma de sofisticação, apenas a vida acontecendo em sua forma bruta, pura, como a proteção de um pai por um filho. Volto a me perguntar em que momento essas vivências passaram a ser menos importantes. Fico nostálgico e saudoso, tomo um porre de uma cerveja qualquer. Outro simples e raro prazer.
Não retiro da sofisticação, das viagens caras e do luxo seus méritos e qualidades, por óbvio que devemos vive-los sempre que possível for, mas sem abandonar e reconhecer a colossal importância de se reconhecer no simples, pois se um dia o luxo faltar a felicidade não pode ser levada por essa ausência.
Caro mesmo é ser feliz na simplicidade. Um teto sob a cabeça, um trabalho que mude a vida de pelo menos uma pessoa, uma refeição feita com carinho, um demorado banho de mar, uma oração em silêncio, no fim do dia um abraço apertado de quem se ama e ao cabo da vida, quando a misericórdia de Deus se abrir diante de nossa miséria, um sono eterno e tranquilo. Boas memórias construídas. Simples.
Para que mais?
