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São Vito

Estou, como se diz na boa gíria, no laço para entregar a crônica da semana para o jornal. O retorno de breve período de férias forçadas e um sinistro ocorrido no final de semana me trazem péssimo humor e profunda letargia para escrever. Minhas sinapses não respondem aos meus estímulos. Na ponta da mesa, um amarelado papel dobrado mais vezes do que deveria, desponta. É a oração de São Vito. Impressa, amassada, esteve em meus bolsos e carteira nos últimos dez dias. Explico.


Minha avó, uma nonagenária extremamente católica, possui um farto arsenal de orações e as fornece a quem possa interessar dependendo sempre do caso. Se o animal de estimação se queda doente, pedir a São Lázaro é fundamental, diz ela. Se a causa é daquelas impossíveis, não há outro jeito, Santo Expedito deve ser invocado. Se a causa é para uma criança, aí tem até reforço, São Nicolau forma a frente de ataque ao lado de São Cosme e São Damião. A velinha entende do riscado.


Pois bem, sabendo que sou totalmente avesso à altura, mais especificamente a aviões e que fico em terrível estado de nervos quando preciso tomar voo, ela abriu sua caixa de ferramentas religiosas e puxou a tal oração de São Vito. Me entregou e encomendou que rezasse com fé as letras ali insculpidas antes de qualquer decolagem e qualquer pouso. Completou dizendo que era infalível, a calma viria e toda a tensão e ansiedade causadas pela viagem aérea se dissipariam por intercessão do Santo. Como nessas horas vale tudo, homem de razoável fé que sou, guardei a prece com carinho e fiz como determinado, mas não sem antes pesquisar em quem estava depositando minhas esperanças. Compartilho com você, exigente leitor, síntese de minha averiguação.


São Vito nasceu por volta de 290 d.c na Sicília. Tendo nascido pagão, e órfão de mãe desde muito cedo, foi criado por sua ama e por seu professor que o persuadiram a se converter a fé católica. Ainda criança São Vito já realizava curas milagrosas, o que levou seu pai biológico, pagão, a persegui-lo. Aos quinze anos de idade, negando-se a aceitar o paganismo, foi assassinado por ordem do imperador Diocleciano após muito fugir. Morreu católico e santo.


Havemos de convir que currículo a ele não falta. Após entrar na aeronave, puxo do bolso sua reza a qual li, naquele momento, pela vez primeira. O seguinte trecho me chamou atenção: “ De vós espero alívio na minha aflição, calma nos momentos de irritação, equilíbrio na perturbação, força de vontade para superar tudo o que é negativo. A vossa benção me dará um pensamento positivo, paz, segurança, tranquilidade.” Guardo o papel, o avião decola. Já perto de meu destino, a voz metálica do comandante interrompe o serviço de bordo para anunciar forte turbulência.


Não é possível! Rezo novamente ao Santo. Menos de vinte minutos depois a turbulência se torna passado, o avião faz um pouso manteiga em um frio aeroporto do sul do país. Descubro depois que além de protetor dos ansiosos ele é também conhecido por acalmar tempestades. Um canivete suíço do catolicismo!


No retorno para casa, repito o processo e tudo corre bem novamente. Meu quase xará parece ter me ouvido. Como não é Santo tão conhecido, imagino que não devam chegar muitas súplicas em seu gabinete, portanto, é santo bom de pedir e agradecer, costuma atender rápido e com atenção, sou a prova disso.


Além de ter salvado meu voo, salvou também a crônica da semana, quem sabe, não se torna um dia o Santo protetor dos cronistas? Retribuirei a graça a mim concedida e peticionarei junto a Santa Sé que amplie seus poderes. Sua Santidade, competente que é, ficará certamente feliz.



Ps. Rezem para ele, rezem por mim, rezem por Lito Sousa a quem dedico essa crônica e minhas orações. Rezem!


Como diz Lito: até o próximo voo.
































































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Toni Remigio
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