Semana Mundial do Aleitamento Materno marca início do Agosto Dourado
Especialista alerta para assédio da indústria de fórmulas infantis
A
Semana Mundial do Aleitamento Materno (SMAM) traz como tema em 2026
Amamentação para um começo de vida sustentável: fortaleça o que
funciona, uma diretriz internacional da World Alliance for
Breastfeeding Action (WABA) que orienta as mobilizações do
Agosto Dourado.
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O
Ministério da Saúde reforça que a proteção, a promoção e o
apoio à amamentação ocorrem de forma ampliada neste mês.
“O
aleitamento materno é fundamental para a nutrição adequada, a
garantia da segurança alimentar e a redução da pobreza no país.
O
tema da amamentação voltou a ser a realidade da Lorrany Duarte com
o nascimento da pequena Elisa, há uma semana.
Mãe
pela segunda vez, Lorrany quer oferecer seu leite em livre demanda,
de forma exclusiva, nos seis primeiros meses, para que a filha cresça
saudável.
“Desenvolve mais a criança e a imunidade
fica sem problemas.”
O
desejo da dona de casa vem acompanhado da memória da vivência da
primeira filha, há 9 anos, que, com um mês de vida, passou a ser
alimentada com fórmula infantil em substituição ao leite materno.
“Ela sempre foi muito debilitada, passava mal, sempre
ficava doente e demorou muito tempo para crescer, para se
desenvolver”, lamentou.
Para
superar as dificuldades iniciais para amamentar a segunda filha, a
dona de casa tem contado com o apoio e a experiência da irmã mais
velha Marielly Duarte, mãe de três crianças.
De
olho na sobrinha, Marielly incentiva a irmã a insistir no
aleitamento para não repetir a história anterior.
“Eu
já tirei um monte de leite dela na bomba [de sugar o leite]. É
melhor do que tirar na mão. Agora, uma semana depois, já está
saindo rapidinho. Tornou-se mais fácil”
Fórmulas
infantis
Em entrevista à Agência Brasil, a presidente do
Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade
Brasileira de Pediatria (DCAM-SBP) Rossiclei Pinheiro alertou para os
obstáculos impostos pela desinformação e, sobretudo, pelo assédio
comercial da indústria a médicos para prescrição de fórmulas
infantis para lactentes e crianças da primeira infância e a pressão
sobre as famílias.
"O
que a gente percebe é que há um marketing muito grande dizendo que
essas fórmulas substituem o leite materno, e não substituem. [...]
É o lobby na porta do hospital, nas redes sociais, nos consultórios,
nas datas festivas. Essas indústrias de alimentos tentam de várias
formas fazer um assédio ao profissional de saúde", constata.
Exceções
para prescrever fórmulas
A fórmula é segura e necessária
apenas quando há recomendação de um pediatra ou nutricionista, diz
a especialista.
A
pediatra classifica as fórmulas infantis como alimentos
ultraprocessados voltados a situações específicas, como nos casos
em que a mãe possui contraindicação médica para amamentar (como a
mãe que vive com HIV), situações que não pode realizar o
aleitamento, ou não obtém sucesso no processo e, ainda bebês que
têm alergias.
"Só
quem pode prescrever fórmula infantil até um ano de idade é um
médico, de preferência um pediatra ou nutricionista. Só que a mãe
chega, hoje, em uma farmácia e compra a fórmula que quiserem, que
qualquer profissional prescreve.
Rossiclei
Pinheiro aponta que, nos últimos cinco anos, a Sociedade Brasileira
de Pediatria tem investido no fortalecimento da formação acadêmica
e médica dos próprios pediatras, principalmente, sobre os critérios
na prescrição de fórmulas infantis, domínio do manejo prático da
amamentação, diante de complicações como dor, fissuras mamilares
ou ingurgitamento ("leite empedrado").
“O
leite materno vai ser o melhor para o resto da vida da criança",
destacou a Dra. Rossiclei Pinheiro.
Redução de
custos
A pediatra destaca também o ponto de vista
socioeconômico da promoção do aleitamento humano, que
alinha-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da
Organização das Nações Unidas (ONU):
"A
família tem uma redução dos custos financeiros, visto que não vai
precisar comprar fórmulas nem medicamentos, já que esse bebê vai
ficar menos doente, e também vai ter menos ausência ao trabalho.
Por fim, a mãe vai conseguir se programar melhor na vida futura para
seu retorno ao trabalho, já que o filho dela vai estar mais
saudável, listou a dra. Rossiclei Pinheiro.
Proteção
legal
No Brasil, existe a Norma Brasileira de
Comercialização de Alimentos para Lactentes e Crianças de Primeira
Infância (NBCAL), amparada pela Lei 11.265/2006, que proíbe o
recebimento de patrocínios financeiros ou materiais por médicos em
pessoa física.
Adicionalmente,
a legislação impede a propaganda de mamadeiras, bicos artificiais e
chupetas, veda a distribuição destes produtos a recém-nascidos de
alto risco e determina que as embalagens destes não utilize fotos de
crianças e frases que induzam à dúvida quanto à capacidade das
mães de amamentarem seus filhos.
As
determinações vão ao encontro dos alertas da Sociedade Brasileira
de Pediatria de que o uso de bicos artificiais (como mamadeiras e
chupetas) pode comprometer a amamentação, causando:
A
confusão de bicos, por alterar a mecânica de sucção da criança
com o bico artificial
Menor estímulo para a produção de leite
Desmame
precoce.
“Nós desestimulamos o uso de bicos que
possam competir com a amamentação, que são as chupetas e as
mamadeiras”, destacou a representante da Sociedade Brasileira de
Pediatria, Rossiclei Pinheiro.
O
que funciona
A Semana Mundial do Aleitamento Materno de 2026
tem o objetivo de reforçar a necessidade de reconhecer, valorizar e
ampliar estratégias que já demonstraram resultados positivos na
proteção, promoção e apoio ao aleitamento materno.
Em
agosto de 2024, o Brasil assumiu o compromisso de atingir 70% de
aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses de vida até
2030 — meta mais alta do que os 60% de amamentação exclusiva no
peito até os seis meses de idade, fixados pela Assembleia Mundial da
Saúde, em novembro do mesmo ano.
O
histórico brasileiro é de avanços. O país saltou de 4,7% de
aleitamento exclusivo na década de 1980 para 45,8% em 2019, conforme
dados da primeira edição do Estudo Nacional de Nutrição Infantil
(Enani), coordenado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A
pesquisa nacional de base domiciliar tem como objetivo avaliar as
práticas de amamentação, o consumo alimentar e o estado
nutricional de crianças de até seis anos (72 meses).
Em
2025, a pesquisa ainda está em fase de coleta de dados, realizando
visitas a famílias com filhos de até 6 anos em todo o Brasil.
A
representante da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) destaca que
o aumento regular da amamentação humana no país comprova a
eficácia das políticas públicas consolidadas, como a Política
Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança.
“Nossas
políticas públicas estão interligadas com todo o contexto do
atendimento da criança. Hoje, por exemplo, o aleitamento materno é
uma estratégia de saúde pública para diminuir a mortalidade
infantil, a mortalidade materna, diminuir a desigualdade social. Todo
esse acesso a informações é uma política pública”.
Com
informações e imagem: Agência Brasil
