O amor bifurcado
POR ISMAEL MACHADO
A ideia de que o coração humano só pode amar uma única pessoa por vez e que qualquer divisão afetiva implicaria falsidade, traição ou insuficiência moral, não é um dado natural da experiência humana. Trata-se de uma construção histórica, sedimentada por instituições religiosas, reorganizações econômicas e narrativas literárias que, ao longo dos séculos, moldaram nossa imaginação amorosa. A chamada “monogamia de sentimentos” não surgiu como evidência psicológica e sim como resposta cultural a determinadas necessidades sociais.
Nas sociedades da Antiguidade, o amor não era concebido como unidade indivisível. Na Grécia Antiga, a própria linguagem distinguia formas diferentes de amar: éros (amor erótico), philia (amizade), ágape (amor generoso, espiritual). Essas experiências não se excluíam necessariamente. O casamento, em geral, estava ligado a alianças familiares, patrimônio e descendência, não a uma promessa de completude sentimental. Também na Roma Antiga, o matrimônio era sobretudo uma instituição jurídica e política. A exigência de fidelidade (principalmente a feminina) relacionava-se à garantia da herança legítima, mas não se elaborava ainda uma metafísica da exclusividade emocional absoluta.
A inflexão decisiva ocorre com a consolidação do cristianismo medieval. A Igreja Católica transforma o casamento em sacramento indissolúvel e inscreve a monogamia no campo da moral e da espiritualidade. A relação conjugal passa a espelhar simbolicamente a união única entre Cristo e a Igreja: fidelidade total, indivisível, eterna. A exclusividade deixa de ser apenas uma regra prática e torna-se virtude. O amor conjugal passa a ser concebido como totalizante, e qualquer divisão, como falha ética.
Paradoxalmente, a própria literatura medieval cria a figura do amor cortês, exaltando paixões paralelas e idealizadas. A tensão entre norma e desejo já estava instalada. Mas é na modernidade que a noção de exclusividade sentimental se radicaliza. A partir do século XVIII, com o fortalecimento do individualismo, o casamento deixa progressivamente de ser mera aliança econômica e passa a ser idealizado como escolha baseada no amor. Surge então a ideia da “alma gêmea”: a crença de que existe uma pessoa destinada a completar outra de modo único e definitivo. A literatura romântica desempenha papel central nessa transformação. Amar torna-se escolher; escolher implica excluir. A intensidade afetiva passa a ser medida pela incapacidade de partilha. O sofrimento amoroso consolida o ideal da indivisibilidade.
No século XIX, com a consolidação da família burguesa, essa concepção ganha função social decisiva. A estabilidade econômica, a transmissão patrimonial e a organização moral da sociedade passam a depender de uma estrutura conjugal fixa. A monogamia passa a ser dispositivo de ordem. A exclusividade afetiva torna-se sinal de caráter, maturidade e confiabilidade. O século XX amplia esse imaginário por meio da psicologia popular, do cinema, da música e do romance. O triângulo amoroso transforma-se em drama moral: se alguém ama dois, deve escolher; se não escolhe, falha. O ciúme passa a ser interpretado como prova de amor verdadeiro. Naturaliza-se a ideia de que o sentimento é escasso e indivisível, como se o afeto fosse um recurso que se esgota ao ser compartilhado.
No entanto, a própria experiência humana desmente essa simplificação. Amamos mais de um filho sem que o amor por um diminua o outro. Amamos amigos distintos de formas diversas. Somos capazes de múltiplos vínculos significativos ao longo da vida. A crença de que o amor romântico é, por essência, incapaz de coexistência revela-se menos uma verdade psíquica do que uma norma cultural interiorizada.
E qual o motivo de todo esse preâmbulo se o assunto aqui é futebol? É que se a chamada “monogamia do coração” é uma construção histórica erguida por necessidades religiosas, patrimoniais e morais, talvez possamos deslocar essa reflexão para um campo aparentemente menos dramático, mas igualmente simbólico, o futebol.
A ideia de que “não se pode amar dois clubes” ecoa, em escala esportiva, a mesma lógica que moldou o amor romântico moderno. Amar seria escolher; escolher implicaria excluir. A fidelidade seria prova de autenticidade; a divisão, sinal de traição. Mas essa estrutura mental não nasce do esporte. Ela é herdeira de uma cultura que naturalizou a exclusividade como medida de verdade afetiva.
O futebol, entretanto, é território de pertencimentos múltiplos. Um torcedor pode ter um clube que herdou da família, outro que o acolheu na cidade onde vive, outro que marcou sua infância por um título inesquecível. A identidade esportiva não é uma equação matemática. É uma narrativa afetiva. E narrativas admitem camadas.
No caso de alguém, como eu, que ama o Vasco e o Paysandu, por exemplo, não há necessariamente contradição e sim história. O Club de Regatas Vasco da Gama carrega uma tradição nacional, um imaginário de resistência popular, uma memória que atravessa o Brasil antirracista. Já o Paysandu Sport Club é território, pertencimento amazônico, identidade local profundamente enraizada na infância. Cada um tem suas razões, explicáveis ou inexplicáveis que sejam, de serem amados por uma pessoa.
O que se ama, afinal, quando se torce por um clube? Ama-se o escudo, as cores, a história, os jogos vividos, o pai ou um parente que levou ao estádio, a rua onde se comemorou um gol, o rádio ligado na noite quente, o grito de vitória, a lágrima da derrota, as conquistas, os fracassos, o abraço dado em pessoas amadas e até mesmo em desconhecidos, num instante fugaz. Ama-se uma memória compartilhada. E a memória é plural por natureza.
A exigência de exclusividade absoluta no futebol repete a lógica do amor romântico moderno, com a ideia de que intensidade exige unicidade. Mas intensidade não é necessariamente indivisibilidade. Pode-se vibrar com o Vasco em São Januário ou no Maracanã (cada vez menos desde o golpe engendrado pelo Flamengo para se apropriar de um bem público) e arrepiar-se com o Paysandu na Curuzu ou no Mangueirão, sem que um sentimento anule o outro. São experiências diferentes, camadas distintas de pertencimento.
Na noite de terça-feira, no Estádio Mangueirão, essa paixão dupla foi submetida a um teste raro e incômodo. Frente a frente, Paysandu e Vasco pela Copa do Brasil. O placar de 2 a 0 para o Vasco organizou a narrativa pela lógica da hierarquia: elenco mais robusto, maior orçamento, mais possibilidades reais de avançar na competição. A razão sugeria que o projeto cruzmaltino tinha mais fôlego para seguir adiante, que a continuidade vascaína na Copa poderia significar confrontos e ambições maiores, numa repetição do que vem ocorrendo nos últimos dois anos. Mas, do outro lado da balança, havia algo não muito fácil de se medir objetivamente, que seria o peso histórico para o Paysandu, estando na Série C, eliminar um clube de elite nacional. Seria feito épico, memória para atravessar gerações, noite para nunca mais sair da Curuzu nem do imaginário bicolor, como já havia sido a virada contra outro clube de origem lusitana, a Portuguesa de Desportos.
O torcedor cruzmaltino-bicolor que entrou no Mangueirão ou assistiu em casa a partida, carregava esse conflito no peito. Cada ataque era dividido entre o impulso e a contenção e exigia uma reorganização íntima. Quando o Vasco marcou, havia a consciência racional de que o caminho mais “provável” se confirmava; quando o Paysandu reagia, o coração latejava com a possibilidade do improvável. Ao final, houve uma certa lógica. O Vasco encaminhou sua classificação, mas o Paysandu esteve longe de fazer feio, principalmente no primeiro tempo quando esteve melhor, mais agudo e mais perigoso. Cansou no segundo tempo e não teve pernas para buscar uma reviravolta no placar. Normal. A Copa do Brasil é um sonho distante. O foco ainda é principalmente o acesso à série B, se possível com o título.
O apito final trouxe uma mistura de sensações. Lembrei minha mãe, num antigo jogo entre Vasco e Flamengo, lá nos anos 70. Dois filhos rubro-negros e um caçula cruzmaltino. A balança, sinto, pesou mais em direção ao filho menor, solitário em sua paixão, em sua torcida contra os manos mais velhos. Um garoto icoaraciense que não sabia explicar muito bem de onde surgira aquele sentimento, mas que em dado momento tirou o olhar da televisão em preto e branco e cruzou com o da mãe que o observava angustiada. E sentiu que ela lhe entendia, sem que uma palavra fosse dada. E isso ainda é para mim, uma das essências do futebol que acolhi em minha vida.
O que posso dizer depois da partida de ontem? Que o torcedor que ama dois clubes não vive uma traição. Ele espelha uma biografia. Se a cultura nos ensinou que amar é excluir, talvez o futebol, justamente ele, com sua capacidade de congregar multidões, nos ensine o contrário: que o afeto pode ser expansivo. E, por uma coincidência danada, vi meu filho mais novo numa tela de tv explicar a um repórter sobre o coração dividido, entre Vasco e Paysandu, justamente numa festa de aniversário de São Januário, o nosso estádio. Ali, Ian Gabriel Machado me lembrou mais uma vez que amar Vasco e Paysandu (ou seja, lá os times que você quiser colocar para completar essa sentença), portanto, não é incoerência. É reconhecer que o coração humano não funciona como cláusula contratual. Ele funciona como memória, como território e como história. E como tal deve ser respeitado e acolhido.
