Polarização e discurso de ódio levam democratas liberais para o limbo na hora do voto desde 2022, pelo menos
Que o Brasil e o mundo andam tão complicado, como naquela balada da Legião Urbana, é fato.
Todavia, em se tratando da
eclosão do fenômeno antiglobalista e o surgimento de “disruptivos”
como Donald Trump, nos EUA, e, mais abaixo da Linha do Equador, Jair
Bolsonaro, Javier Milei, entre outros líderes sul-americanos menos
votados, ainda que “harmônicos” entre si em agendas liberais na
economia, cada um e todos possuem raízes distintas.
Paremos
por aqui em análises socioeconômicas para focar no momento político
atravessado pelo Brasil, desde, pelo menos, a eclosão do escândalo
da Lava-jato, entre o final de 2014, seu ápice no período
2015-2016, a “crise JBS” em 2017 e o seu desmantelamento, a
partir de 2019.
Um Supremo Tribunal Federal “ativista”,
um presidente cooptado que entregou seu governo ao Parlamento
(2019-2022) concomitante à denegação dos valores democráticos
fundamentos na Carta Magna pátria, e a crise quase sistêmica entre
os poderes que deveriam ser, na concepção montesquiana,
“independentes e harmônicos entre si”, tudo e mais um pouco indo
por terra e colocando a nação de pouco mais de 500 anos de
descoberta, em xeque, ebulição, permanente tensão institucional e
um povo bipolarizado, dividido, estagnado social e economicamente e,
final e infelizmente, partido.
Pior: Criando um fosso
civilizatório, intolerante, “democrata” e passando a tratar
adversários como inimigos, parentes viraram desafetos e amigos,
ex-amigos.
Democracia,
valor inegociável
Diferente dos EUA, país historicamente
marcado pelo uso das armas em defesa primeiro da sua independência,
cuja fricção histórica quase um século depois legou-lhe uma
guerra civil que quase o destruíra, e a entrada decisiva para os
lados vencedores em duas guerras mundiais – sendo ainda mais
determinante - durante a II Guerra (1939-1945), ambas nascidas no
berço da sua, da nossa civilização, a Europa.
Em face
desses valores, da evolução nas relações entre pátrias
sustentadas por convicções e arcabouço político-institucional
forjado na divisão de poderes executivo, legislativo e judiciário,
na crença à soberania nacional e auto-regulamentação dos povos,
quer de ordem jurídica monárquica constitucional, quer parlamentar
e/ou republicana.
Assim vinha sendo, afinal, desde, pelo
menos, o último quarto do século XIX, ultrapassadas as lutas e
vencidos os regimes totalitários nazi-fascistas, bem como
atravessado o período da Guerra Fria (1947-1991), num mundo dividido
entre capitalismo x socialismo, EUA x URSS, até o colapso do
comunismo soviético naquele crespúsculo da Cold War, “nunca
antes na história desse (sic) país”, o Brasil viveu período tão
fissurado em tempos aparentemente, mas constitucionalmente,
democráticos.
Com vistas a não cansar o gentil leitor e a cara leitora, paremos ora por aqui sobre as questões de cunho metafísicos e conceituais, para além do breve panorama histórico, moderno e contemporâneo, e foquemos no busílis que move estas mal-traçadas…
O
nascimento do democrata
Fruto
da dádiva do dom da vida na alvorada da década de 1970, período do
tri-campeonato de futebol brazuca,
auge do “Milagre Econômico” e das delicadas tensões advindas do
endurecimento do regime militar (1964-1985), este modesto
escrevinhador é, ludicamente, um epítome da “Era de Aquário”.
E,
foi
nessa
esteira, faticamente,
que
este
membro
da
“Geração Coca-cola”, citando novamente a frase-título
da canção do mega-talentoso poeta urbano Renato Russo, cresci
na
pequena-burguesia da capital
da Amazônia
paraense,
esta uma quase
isolada e em vias de devastação desordenada, fez-se admirador,
politicamente falando, dos valores ideológicos da ala moderada,
pró-Europa e “globalista” do Partido Republicano nos EUA, e dos
Tories, na Inglaterra.
No Brasil, da incipiente democracia
que teimava em “nascer” de fato, luminares como José Bonifácio
e Joaquim Nabuco, no período colonial-imperial, antes dele o
magnífico Padre Antônio Vieira, o tribuno-mor, santo homem e maior
autoridade moral que pontificava por essas paragens;
Somados
aos tecnocratas Rui Barbosa e Inocêncio Serzedelo Corrêa, na
República Velha, bem como aos líderes forjados a partir da
destituição do Estado Novo (1937-45), instaurado pelo
caudilho-ditador Vargas; Carlos Lacerda (seu algoz) e JK; até a
contemporaneidade, quando subiram ao palco Mário
Covas, FHC,
José
Serra,
Tasso Jereissati, acrescidos
aos remanescentes da
geração pós-Getúlio, Tancredo
Neves, ACM, Ulisses
Guimarães, et
al…
… Enfim,
desde sempre ansiou-se
pela hora seminal, o despertar do “Sleeped
Giant”,
do
“Brasil, brasileiro”. Ocorre
que lá se vai meio século e o gigante adormecido ainda dorme “em
berço esplêndido”.
“Sono” este que tem
magnetizado as raízes desse momento tão
caótico como estagnante economicamente, permanentemente injusto
socialmente e tenso para além da conta institucionalmente.
Caminhando para a conclusão, este Brasil em desordem tem
impedido que devotos da democracia, dos seus pilares “pétreos”,
seus sistemas de pesos e contra-pesos, encontramo-nos perdidos,
alienados do poder decisório, arcando com as consequências do
desprezo dos que desconhecem minimamente
a
história e, em face de imediatismo, obscurantismo, cansaço
existencial, inexistência de lideranças morais e descrença na paz
e justiça sociais, descortinam-se apoios à governos
autoritários.
Defende-se
–
pasmem –
a
defesa
de rupturas institucionais e, não raro, eliminação do adversário
intelectual e/ou ideológico do debate público, da via nacional e,
numa violência psicológica levada ao paroxismo, do desterro ou
prisão do ex-adversário
tornado inimigo.
"Limbo"
Em
2018, surfando num falso e demagogo discurso moralista, fazendo a
travessia de um nacionalismo deletério responsável por grande parte
do histórico atraso econômico e social do país para uma agenda
liberal na economia, o deputado estridente e troglodita Jair
Bolsonaro, que votara contra o Plano Real, a Lei de Responsabilidade
Fiscal, as reformas econômicas que mudaram a cara do estado arcaico
e estagnado brasileiro;
Que fora eleitor do PT, e desejara a morte
por execução no paredão do intelectual e democrata FHC, chegou ao
poder, onde atacou as instituições e se rendeu ao Centrão para
salvar a pele do “01”, também conhecido como
“rachadinha”.
Entre idas e vindas, todos sabemos o que
ocorreu até aqui, a confirmação da posição vexatória de fração
da Suprema Corte, com destaque para aquela que talvez seja a figura
mais deletéria que jamais sentara numa das suas 11 cadeiras, e de consequências nefastas na sua
imagem e simbolismo: Alexandre de Moraes.
Não há notório
saber jurídico que justifique a relação deste senhor com o
criminoso que conseguiu chocar o Brasil que ainda respira valores
democráticos, montesquianos e institucionais, o bandido ladrão de
aposentados e pequenos e médios investidores, Daniel Vorcaro. Isso
para não repetir o assombro, a teratologia, despautério, infâmia
do tal “inquérito das fake news”.
Um
Brasil que tem na presidência do Senado um Davi Alcolumbre, um
presidente-pai do lobista Lulinha e um Judiciário composto por
ministros políticos como Gilmar, Dino, Toffoli e Nunes
Marques.
Além de Moraes, o que, decerto mais contribui para todo
esse estado de coisas do que para a promoção da paz e justiça
sociais, reitere-se. E mais: do progresso institucional e do crescimento
econômico que acompanhe a média ocidental entre as nações
desenvolvidas ou em desenvolvimento.
Em 2022, votei no
candidato do Partido Novo, o intelectual e cientista político
graduado em Havard, Luiz Felipe d’Avilla, e sequer chegamos a 0,5%
dos votos válidos, mas fomos mais de meio milhão de brasileiros.
Neste 2026, daqui a pouco, na impossibilidade de ajudar a
levar Romeu Zema, do “Novo de novo” ou ao experiente e
bem-sucedido Ronaldo Caiado – talvez o mais preparado – para
protestar, sairei para apostar no “futuro glorioso” do jovem
combativo Renan Santos.
Se o 14 no passado representou o
varguismo, o caudilhismo, o peleguismo e o “trabalhismo”, eis que
o número agora pode significar exatamente o contrário: um governo
liberal na economia e, talvez mesmo que sutilmente, conservador nos
costumes.
Roberto
Campos, Eugênio Gudin, Mário Henrique Simonsen e Otávio Gouveia de
Bulhões o aplaudiram, tenho certeza. Lacerda idem. Edmund Burke e os
iluministas que forjaram a democracia liberal, também o fariam.
Aposto.
Dito
isso, se a Bolsonaro há de reconhecer que “acordou” a direita do
País, em jovens como Kim Kataguiri, além de Renan, somados aos
carismáticos André Fernandes, no Ceará, e Nikolas Ferreira, das
Minas Gerais, para citar os campeões de votos que devem emergir das
urnas, aposto o futuro da nação.
Com menção honrosa
ao virtual governador Cleitinho e seu contendor e também
conterrâneo, Gabriel Azevedo. Como escreveria Renato Russo, para sua
contrariedade de “esquerdista caviar” – e que Deus o tenha,
amém –, eles sim, representam the nation’s future.
Fui!
Assinado,
Toni
Remigio, da Geração Coca-cola
PS:
Sim, mais adiante, podemos debater as
origens, razões filosóficas e história da democracia liberal.
