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A travessia da voz de Deus

Quero falar de uma coisa. Adivinha onde ela anda. Deve estar dentro do peito. A paixão por Milton Nascimento é o nome dela.  

Como um presente do destino, nasci no mesmo dia em que Milton veio ao mundo: 26 de outubro. Neste domingo, essa entidade musical brasileira completa 82 anos de vida.

Extremamente debilitado, e diagnosticado, recentemente, com demência, a fragilidade da saúde de Milton Nascimento me corta a alma. É muito injusto perceber uma das maiores entidades da música nacional viver sem se lembrar de sua importância na vida de milhares de brasileiros.

Elis Regina disse que: “Se Deus cantasse, teria a voz de Milton Nascimento”. Essa foi a mais completa tradução da força, beleza e emoção únicas de sua interpretação. 

Desde “Travessia”, a  sua primeira composição de sucesso, que conquistou o segundo lugar no Festival Internacional da Canção, em 1967, Milton nos fez presos às suas canções e entregues a uma paixão que nunca terá fim. Ouvir Milton é algo divino. Elis tinha toda razão.

As músicas de Milton embalaram várias novelas e momentos históricos nacionais. Canção da América nos ensinou que “Amigo é coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito” e nos derramou rios de lágrimas durante o velório de Ayrton Senna. 

Coração de Estudante , composta como ode à esperança e liberdade, durante a Ditadura Militar, ganhou força como hino das Diretas Já e durante a morte de Tancredo Neves. A juventude do início dos anos 80 inflava o peito nas ruas com seus “Coração de estudante.

Há que se cuidar da vida.

Há que se cuidar do mundo…”

A história de vida de Milton é pontuada por perdas e lacunas. A mãe, empregada doméstica de nome Maria, ( que o inspirou a compor Maria Maria, um hino de resiliência feminina) foi abandonada, grávida, pelo pai de Milton. Quando Milton tinha apenas 2 anos de idade, a depressão e tuberculose tiraram a vida de Maria. Milton foi criado pela avó, também doméstica, e adotado, posteriormente, pela filha da patroa dessa avó.

Carioca, Milton foi estudar em Minas Gerais onde conheceu o músico Lô Borges e seus irmãos. Nascia ali o que é, para mim, o maior movimento da música brasileira: o “Clube da Esquina” Da parceria com os mineiros, nasceram preciosidades como “Cais”, “Tudo o que você podia ser” e todas as músicas do disco “Clube da Esquina”, considerado, por críticos, o melhor álbum da MPB. 

Sempre escutei Milton com frequência, mas nesses últimos dias, venho fazendo de suas canções, quase preces. Penso nele com imensa gratidão, enquanto as escuto. Outro dia, chorei ao ouvir:  

“Quando você foi embora

Fez-se noite em meu viver…” 

Mas me curo ouvindo minha favorita, e enxugo o pranto com ternura: “Há um menino, há um moleque morando sempre no meu coração.

Toda vez que o adulto fraqueja, ele vem pra me dar a mão”

Foto: Divulgação




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Toni Remigio
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