Carta aberta a Orelha
Oi, Orelha!
Desde a
primeira vez que vi seu focinho, sua carinha, com pelos brancos de
cão idoso, na noite melancólica do último domingo, não teve um
dia sequer que não pensei em você, ao acordar e dormir. Sua
história é de uma crueldade tão atroz, que me consumiu a alma em
chamas durante toda a semana que passou.
Naquela noite,
chamaram seu nome e você foi. Abanando o rabinho, como sempre,
ansioso por uma brincadeira, um pedaço de churrasco, um simples
afago. Você nunca poderia imaginar que uma espécie tão evoluída,
que mãos tão jovens pudessem ser tão primitivas e hediondas!
Nos
perdoe, Orelha! Nós, humanos, temos esse histórico de pregar pregos
em quem prega o amor. Você só queria estar perto das pessoas,
receber carinho na barriga, cuidar de quem lhe cuidava, pensar nas
suas coisinhas de cachorro enquanto nadava na praia. Um doguinho que
só queria A-mar!
Hoje, sua casinha está vazia, e a Praia
Brava, na qual você perambulava feliz durante 10 anos como cão
comunitário, ecoa tristeza, saudade e revolta. Ninguém consegue
entender o porquê de tanta maldade!. Lhe arrancaram a vida da forma
mais vil, mas essa história escabrosa pelo menos uniu o Brasil na
sede de justiça por você!! Gente de todas as ideologias e religiões
assimilou que justiça não é vingança, justiça é dever!
Que
você esteja sendo cuidado, aí na espiritualidade, com todo o amor
que merece. Quero acreditar, também, que sua história vai
transformar o olhar das pessoas sobre os cães de rua. Que torne as
leis mais severas e estimule a adoção em um país de tantos animais
sedentos de amor, pelas ruas e abrigos.
Aah, preciso lhe
contar que desenharam você na areia da Praia Brava. Enorme, do
tamanho do vazio que você irá deixar. O Brasil não lhe esquecerá.
E desde o fatídico domingo, todo o cachorro com o qual eu falo e
alimento, na rua, ganhou seu nome: Orelha ✨❤️
