Existe luz no fim do túnel alviceleste?
Por: Glauco Alexander
“Houve um tempo em que olhar para o túnel da Curuzu era ver uma luz bonita, celeste, alva, cheia de esperança. Uma luz feita de craques nascidos aqui mesmo, ou forasteiros formados aqui no chão quente, úmido e sonhador do Pará.
Era o tempo da risadinha do Velber, do maestro Jobson , do vigoroso Vanderson, do zagueirão Sérgio, do terçado voador Zé Augusto, do irreverente Albertinho, Sandro Goiano — que, embora goiano, virou caboclo por adoção — e tantos outros que escreveram com suor e poesia o nome na história do Paysandu e nos corações da sua fiel torcida.
Mas o tempo passou, e o túnel foi ficando mais preocupante. Os talentos locais rarearam. O futebol virou megamercado globalizado, e os clubes da Amazônia, como o nosso Papão, passaram a depender do que sobra nas prateleiras das grandes potências. Hoje, para montar um elenco competitivo, é preciso buscar jogadores em outros estados, às vezes até em outros países ou outros continentes — e torcer para que, numa barca de dez ou vinte contratados, surja entre pernas de paus ou jogadores super limitados, um Yarley capaz de reacender a chama da felicidade.
A lógica mudou. O futebol deixou de ser apenas paixão e virou supernegócio, ativo financeiro, investimento de alto risco. As camisas agora são veículos de propaganda, e o brilho dos dribles é ofuscado pela pressão dos números das planilhas.
Um menino quase criança, com talento em Ananindeua ou Redenção, antes de virar ídolo local, já é negociado como promessa para o exterior. Sem base forte, sem projeto de formação, a luz que vem do túnel tende a ser cada vez mais tênue.
O torcedor — esse ser de fé infinita e amor incondicioal— continua acreditando e cobrando. Ele não lê balanço financeiro, não calcula folha salarial. Ele sente. Ele sofre. Ele sonha. Quer ver o Papão novamente em campo grande, desafiando gigantes, calando Bomboneiras e reerguendo taças.
Mas talvez o grande desafio do Paysandu, e de tantos clubes das periferias do futebol global, seja responder a uma pergunta simples e dura: o que queremos ser? Um clube que vive de lampejos e glórias passadas, ou uma empresa moderna, sustentável, impessoal, focado em resultados de grana?
Hoje o Paysansdu e todos os clubes de futebol das periferias do capitalismo precisam decidir primeiro o que querem ser. Como atuar numa conjuntura de alta competição de dinheiro contra mais dinheiro. Como dialogar com nossa imensa torcida, que quer título, conquistas, mas não entende toda a mecânica da força da grana.
Qual a luz que queremos ver no final do túnel? Somos clube de séria A? Temos que nos contentar com troféus regionais? Ou temos que vender nossa alma para os financistas que nos veem mais como um negócio de rentabilidade econômica do que como um amor insano, fanático e incondicional?”
