Quando o Brasil decidiu não desistir do Brasil
Por Glauco Alexander Lima
“Há treze anos, o Brasil viveu as jornadas de junho de 2013. Um fenômeno político, social e comunicacional que até hoje desafia explicações definitivas. Em 2026, vivemos outra jornada. Diferente em suas origens e circunstâncias, mas igualmente avassaladora e extraordinária.
Foram pouco mais de vinte dias. Uma mobilização popular que transformou o destino de uma disputa eleitoral cujo resultado parecia irreversível.
Mas seria uma injustiça histórica reduzir o acontecimento a uma virada eleitoral, à defesa de um governo ou à paixão por um líder político.
O grande protagonista dessa jornada foi gente mobilizada, turbinada por propósitos humanos.
A multidão de anônimos. Os brasileiros que não sabiam os macetes do algoritmo, não são influencers e raramente recebem o reconhecimento por escreverem com suas próprias mãos, os capítulos decisivos da história.
Foi o povo que ocupou as ruas em mega e micro cidades, movimentou os condomínios, fez dos aplicativos de mensagens instrumentos de mobilização e transformou conversas cotidianas em ação coletiva. O online e offline se abraçaram e criaram algo como all line. O digital encontrou o asfalto. A rede encontrou a multidão. E a multidão redescobriu sua relevância para evitar algo que se desenhava como muito nocivo.
Ainda emocionado, arrisco uma primeira interpretação: vivemos um levante colorido em defesa do processo civilizatório brasileiro.
Não porque milhões de pessoas dominassem conceitos como democracia, República ou Estado de Direito. Mas porque sentiram que havia algo ameaçador no ar, muito além das divergências partidárias.
Os jovens perceberam. Os idosos sacaram tudo. Até quem não gosta de Lula compreendeu que preservar a democracia significa também preservar o direito de continuar combatendo as ideias de Lula e tentar derrotá-lo amanhã.
Porque a beleza da democracia está nisso: o direito de perder hoje sem perder o direito de disputar amanhã. Mesmo quem não viveu a ditadura, sentiu algo fétido pairando no ar.
Vivemos uma quadra mundial marcada pelo avanço do conservadorismo reacionário e de movimentos de extrema direita truculenta. Mas o Brasil, neste outubro de 2026 , pareceu dizer, como na canção de Caetano Veloso, que aqui há alguma coisa que está fora dessa ordem mundial.
Fora da ordem que parecia inevitável. Fora da Meta. Fora da ideia de que a história já estava escrita.
Talvez tenhamos impedido algo cujas consequências jamais conheceremos completamente. Mas uma certeza permanece: o povo brasileiro demonstrou que ainda acredita na possibilidade de interferir no próprio destino.
Agora, precisamos transformar a energia daquela mobilização em compromisso permanente em reparar séculos de crueldade de nossa formação histórica.
Voltemos ao debate civilizado sobre mais ou menos Estado, mais mercado ou mais políticas públicas, privatizações ou estatizações. Discordemos com paixão, polarizados sim, mas sem abandonar as quatro linhas da condição humana.
Porque nossa maior batalha continua sendo contra a desigualdade econômica, social e regional. Essa é a causa que deve unir o Brasil.
A democracia precisa entregar mais do que o direito de votar. Precisa oferecer condições dignas de viver. É como diz uma outra antológica canção brasileira: os boias-frias, quando tomam umas biritas espantando a tristeza, sonham com bife a cavalo, batata frita! E a sobremesa é goiabada cascão, com muito queijo… O povo não quer os iates gigantes e nem tomar as fábricas dos ricos. O povo só quer vida decente. E ninguém percebeu isso melhor do o grande conciliador de classes chamado Luis Inácio da Silva.
E é aqui que reafirmo minha fé no sonho coletivo da felicidade humana.
A felicidade possível. A de ter comida, moradia, trabalho, escola, saúde, tempo para amar, criar os filhos, envelhecer com dignidade e sonhar.
A política verdadeira existe para ampliar essas possibilidades, não para transformar a felicidade em privilégio de poucos.
A jornada de 2026 não foi o fim de uma história. Foi a demonstração de que ainda queremos escrevê-la juntos. Uma reafirmação de que nosso problema é complicado, mas não aceitamos propostas simplórias e toscas para desafios complexos.
Os líderes passam. Os governos terminam. As campanhas acabam. Mas as pessoas permanecem com suas aspirações e projetos de vida.
E enquanto houver gente disposta a lutar pela dignidade, pela liberdade e pelo direito coletivo à felicidade, nenhum futuro estará definitivamente perdido ou descartado.
O sonho coletivo continua vivo. E voltou a caminhar pelas ruas do Brasil. Viva o povo brasileiro!!!”
*Glauco Alexander Lima,
Operário da Comunicação
