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Silêncio nos estádios

Remistas e bicolores, que frequentam os estádios, estão unidos pela mesma dor. O futebol paraense perdeu um dos maiores motivos de sorrisos no Baenão, Curuzu e Mangueirão. Ele era um folclórico vendedor de água. Tinha nome de artista famoso: Roberto Carlos, mas só era chamado de “água, caralh*!”  Era com esse bordão que ele conquistava a atenção e carinho dos torcedores e vendia suas águas minerais.  Muitas águas.  Depois da frase “água,caralh*”, ele ainda emendava a pergunta provocativa: “ vocês não “tenham” sede, caralh*???”  Depois de ouvir essa galhofa, a sede vinha imediata.

Mas durante um trabalho na Expofeira de Macapá, o irreverente vendedor sofreu um infarto fulminante e foi alegrar o mundo lá de cima. Sua voz, sua espontaneidade e carisma jamais serão esquecidos. A partir de agora, todo vendedor de água nos estádios, que carregar um isopor nas costas, nos lembrará do “água, caralh*!”  E o palavrão “caralh*” sempre nos lembrará seu rosto, seu sorriso desfalcado.

A perda do folclórico ambulante tirou um pouco da graça do futebol paraense.  Como nostálgica de carteirinha, sinto falta da época de jogadores e técnicos falastrões. Quem não lembra do atacante Edil e suas comemorações de gols encarnando personagens de filmes, como Highlander e Bradock? E as hilárias entrevistas de Ageu Sabiá e o técnico Lucena, à frente da Tuna?

Roberto Carlos e seu inesquecível bordão eram a resistência do riso, do jocoso, da malícia despretensiosa no mundo do futebol.  Mas acabou. Não ouviremos mais o “água, caralh*” para nos arrancar um sorriso durante uma derrota de nosso time.  

Deixo aqui meu abraço fraterno à família do nosso companheiro de tantas aventuras nos estádios. Aos torcedores bicolores, resta voltar à dura realidade dos gramados. Lembrei da poetisa mineira Adélia Prado, prêmio Camões de Literatura no ano passado, quando escreveu: “Vez em quando, Deus me tira o dom da poesia. Olho pra pedra, e vejo pedra mesmo”

Pois me abrace, Adélia, que compartilho sua dor. Olho pro Paysandu e vejo Paysandu mesmo.

Crédito foto: reprodução Instagram





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Toni Remigio
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