Um trauma chamado RexPa
Durante os 33 jogos do quase infinito tabu,durante o qual o Remo não perdeu para o Paysandu, eu trabalhei na maioria das partidas. Acho que em cerca de 80%.
E ao final de todos esses jogos trabalhados, a “passagem de vídeo”( momento em que o repórter de TV, no caso eu, aparecia, segurando o microfone) tinha mais ou menos o mesmo texto: “Com mais essa vitória ( ou empate) o Remo está há xx jogos sem perder para o Paysandu…” Eu entortava a cabecinha pro lado, e jogava charme com um sorrisinho. Por dentro, estava em frangalhos
Em muitos dos 33 jogos, o Paysandu foi melhor, mas estava escrito que o tabu precisava existir. Um orgulho regional, que até hoje inflama, com justiça, o ego do torcedor azulino.
O sofrimento de não conseguir vencer o maior rival soava como um escárnio. Pra mim, já era uma humilhação. Até que no dia 07/06/1997, o Paysandu venceu o Remo de 2 x 0 e encerrou o sofrido tabu. Dessa vez, eu não estava trabalhando. Estava a duas semanas do parto da minha primeira filha: Giulia
A crônica que escrevi sobre aquela noite de sábado, histórica para os bicolores, foi a mais elogiada de todos os meus 31 anos de carreira. Junto com a vitória em cima do Boca, na Bombonera, esse jogo foi o que mais me fez feliz enquanto torcedora do Paysandu.
Mas os anos seguintes, confesso, me revelaram o trauma do RexPa. O clássico me aciona gatilhos inconscientes e quase insanos. Meu pessimismo flerta com o insuportável. E num jogo como o de hoje, então, em que o Remo vem embalado e muito superior ao Paysandu, minha vontade é me esconder no alto de uma montanha, sem qualquer acesso à comunicação. Medo de uma goleada histórica.
Nem o bordão do “clássico é clássico” costuma me acalmar. É uma espécie de síndrome do pânico o sentimento que me invade a cada RexPa. Fruto de cicatrizes profundas causadas pelo indefectível tabu.
Mas aí lembro que este RexPa também será disputado numa noite de sábado de junho. Assim como no dia em que o tabu chegou ao fim.
E exatamente neste 21 de junho, minha pequena Giulia, prestes a nascer na noite de 7 de junho de 97, em que o Paysandu acabou o martírio do jejum de vitórias contra o rival, está completando 28 anos. Só que do outro lado, no plano espiritual. Com quase dois anos de idade, ela virou anjo, vítima de um acidente de carro. E foi ela quem acabou de me cutucar aqui, dizendo: “Deixa de ser boba, mãe. Clássico é clássico. Confia no Papão…”
