Por Paulo Silber
Já reparou que a gente tem uma estranha curiosidade mórbida? Não vá negar, por favor. Eu, você e um bocado de gente podemos até esconder, mas que temos, temos. Olha só esse episódio do cantor sertanejo Christian, brother do Ralf, que no meio da semana partiu antes do combinado, como dizia o Rolando Boldrin. Na moral: a música sertaneja não é minha praia, mas eu não sou Ed Mota pra botar o pinto pequeno pra fora e fazer xixi na areia dos outros. Babaca!
O fato é que uma notícia sobre Ralf e Christian jamais me atrairia. Um meme, quem sabe? Mas, neste caso, foi diferente. No exato instante em que a morte do sertanejo veio a público, o SBT exibia a entrevista do cara no programa do Danilo Gentili, gravada na véspera.
Silvio Santos, Silvio Santos... Vem aí o Baú da Eternidade? Não, não creio. Fatalidades e coincidências são mais frequentes do que a gente pensa. Mas nunca se sabe do que o povo é capaz na guerra da audiência.
Assim que li a notícia, fui atrás do vídeo, claro. Curiosidade mórbida, assumo. Só que é mais que isso. Últimas entrevistas de celebridades, artistas e pessoas importantes, como a do Christian, estalam alguns gatilhos na minha memória. Já vivi o enredo desse samba, amor, pelo menos duas vezes: com o eterno artilheiro Bira e com o saudosíssimo escritor Mário Couto (o cronista, não o arrivista).
Para o entrevistador, últimas entrevistas seriam apenas trágicas, se não fossem mágicas. Sim, mágicas, porque elas têm o condão de iluminar não apenas os falecidos, como também seus derradeiros confidentes. Tem gente ganhando dinheiro com isso. Botando no currículo. Espichando a história além do fato. Inventando bastidores. Outros compreendem seu papel na linha do tempo: estavam no lugar certo, na hora ingrata.
Na internet, há um turbilhão de vídeos, posts, homenagens, além de reações que vão da sinceridade à maluquice sobre mortes inesperadas de famosos. “Aposto que ele já tava sentindo a morte”, há quem afirme, convicto, parecendo ser assim-assim com o dito-cujo que nunca viu de perto. “Eu sabia, cara! Eu sabia!”, diz outro, como se tivesse acesso privilegiado à agenda da rasga-mortalha, aquela coruja noturna cujo grito precede um falecimento.
A última entrevista do Christian aqueceu as redes sociais, mas foi em fogo brando. Nem o Gentili se aproveitou. Pelo menos, não no nível “o cavalo mordeu tua cabeça?”. Isso aconteceu lá em Londres. “Did the horse bite your head?”, perguntaria meu amigo Antônio Carlos Tonga Pimentel ao repórter da BBC Martin Bashir, quando vieram a público os bastidores da “entrevista do século”.
Bashir ficou famosíssimo pela última e bombástica entrevista de Lady Di, ainda princesa de Gales. Ela abriu o coração, revelou intimidades e apertou a mente de Deus e o mundo, em 1995, quando escancarou os bastidores da realeza, questionou o então príncipe Charles (agora rei), e revelou o fator humano por trás de um mito.
Morreu dois anos depois sem nunca mais ter caído em outra armadilha da imprensa e ainda assim sendo perseguida por paparazzis. Descobriu-se que, para conseguir a última entrevista, Bashir forjou documentos, chantageou e ameaçou a princesa.
Lady Di se foi sem perder o encanto. Bashir saiu da história pela porta dos fundos. Já o nosso Christian foi redescoberto, até por quem não o conhecia, tipo eu. Justamente, pelo que há de mais sublime (noves fora os excessos) nas tragédias contadas por últimas entrevistas: o poder do afeto. Mesmo quando nasce da curiosidade mórbida.
Vá em paz, sertanejo.
*Publicado na REDEPARÁ em 23/06/2024